A ÚNICA VEZ

Victor Giudice
(in O MUSEU DARBOT E OUTROS MISTéRIOS - Leviatã Publicações, 1994)

Meu pai morreu há quarenta e quatro anos, no dia 30 de outubro de 1950. Estava beirando os sessenta. Todas as manhãs, ia para o trabalho num Ford cupé 1946, verde escuro, de duas portas, placa 22152. Nosso apartamento, em São Cristóvão, não tinha garagem e o carro dormia na rua. Meu pai se preocupava com a pintura: o sereno desbotava o verde escuro etc.
Mas isso tudo ficou lá.
Ontem, às seis da tarde, quando eu voltava para a Tijuca, passei pela Praça da Bandeira e me lembrei de meu pai. Ele trabalhava numa fábrica de chapéus, logo depois do Viaduto dos Marinheiros. Imaginei que se ainda estivesse vivo e se o Ford não existisse mais, eu poderia lhe oferecer uma carona. Nesse momento, talvez movido pela saudade, gritei seu nome, do modo italianado como minha avó o chamava:
- Marino Francesco!
Em menos de um minuto, surgiu na minha frente, entre os automóveis em alta velocidade, um Ford cupê de duas portas, verde escuro, desbotado, placa 22152. Assustado, alcancei o carro e dei de cara com meu pai ao volante, a mesma nobreza do perfil que eu invejava, os cabelos brancos, sem paletó, o colarinho arrematado pelo nó impecável da gravata e um cigarro com ponta de cortiça entre os lábios. Durante um segundo ele se virou e olhou para mim, sem me ver, com aquele olhar indiferente com que não vemos os desconhecidos. Depois, acelerou e tomou a direção da Quinta da Boa Vista, como se estivesse voltando para casa, há quarenta e quatro anos.[Victor Giudice]
Foi a única vez que eu vi meu pai.

 

 

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O TORCEDOR

Fausto Wolf
(in O homem e seu algoz, Bertrand Brasil, 1998)

Eduardo Marín é uruguaio. Tem 28 anos, mas parece ter mais de 50. As unhas dos pés e das mãos já quase não existem. Seu corpo está cheio de equimoses e queimaduras. Os dentes foram rebentados a golpes de cabo de fuzil. Eduardo Marín é virgem e já não lembra o rosto da única namorada que teve, nem dos pais e dos irmãos. Lembra do seu cachorro, talvez porque os detalhes não sejam tão importantes num animal. Sonha que à noite, nas poucas vezes que consegue adormecer, Capitão América vem lamber seus ferimentos. Dera esse nome ao cão quando ainda adolescente; antes de saber o que o Capitão América fazia com os pobres do Continente.

Eduardo Marín, prisioneiro 1213 de La Libertad, está no presídio desde os 18 anos. Foi preso quando, acompanhado por Capitão América, distribuía panfletos aos tupamaros, convocando o povo a resistir ao golpe militar dos generais uruguaios. Capitão América levou um tiro na cabeça e morreu na hora. Eduardo Marin nunca foi visto. Transformou-se num dos milhares jovens uruguaios desaparecidos.

Eduardo Marin está apodrecendo. Mais por hábito do que por esperança (que agoniza por dentro do seu coração como um peixe no asfalto), assovia baixinho “Apesar de você”, música do compositor brasileiro Chico Buarque de Hollanda, que assegura que amanhã será outro dia. Seus lábios inchados doem quando o ar passa por eles para formarem a melodia tímida e quase silenciosa. Mas a dor lhe dá certeza de que está vivo. Vive com a dor, o medo, o silêncio, a escuridão. Exceto em determinados dias, e hoje é um deles. É domingo, e a seleção uruguaia disputará com a brasileira a final do Mundialito. No subterrâneo de La Libertad, onde estão situadas as masmorras para os presos condenados ao confinamento solitário, os únicos sons que se ouvem são os urros dos prisioneiros sendo torturados. Mas hoje é domingo e, se forçar os ouvidos, Eduardo Marin pode até ouvir, no ar úmido e malcheiroso, a excitação dos prisioneiros diante da expectativa da partida de futebol.

Fulgencio Flores, como Eduardo Marin, também tem 28 anos e aí acabam os pontos em comum. Parece ter realmente 28 anos. Os quase 100 quilos de músculos e a pele bronzeada contrastam com a palidez macilenta de Eduardo e seus 50 quilos. Fulgencio está para as flores assim como a penitenciária está para a liberdade. Se Flores não tem nada, possui o physique du rôle do seu apelido, Coice de Zebu. Coice de Zebu são cabo e carcereiro. Já poderia ter sido promovido a sargento, mas não assimilou corretamente as lições da CIA, Don Mitrione, um americano de classe média, elegante, de boa aparência, bem casado, pai de dois filhos, mestre torturador. Como já fizera no Brasil, país onde se tornaria cidadão honorário e fora homenageado com o nome de uma rua, Mitrione viera ao Uruguai para ensinar suas técnicas.

         - O técnico que quiser obter uma confissão não pode se deixar dominar por emoções. Deve se comportar como um cientista, um físico que, em seu laboratório, pesquisa diversos elementos e números para obter um resultado. O técnico deve trabalhar sobre o sujeito da pesquisa com a meticulosidade de um cirurgião e o talento de um grande artista.

Mas Coice de Zebu é burro e certamente pensava em futebol quando o agente americano ensinava que a tortura perfeita era aquela que produzia a dor precisa, no momento preciso, no lugar preciso e na proporção precisa.  De preferência, sem deixar marcas. Os interrogadores – dizia ele – precisam conscientizar-se que não são animais, mas técnicos. Não buscam vingança, mas informações.

Coice de Zebu é um jovem matador uruguaio. Perde a paciência com muita facilidade. “A disgusting mateur”, como diria Mitrione. Por causa do seu temperamento, já acabara com vários prisioneiros que – segundo seus superiores – poderiam ter fornecido valiosas informações. Por isso não foi promovido. Por isso está de serviço nas masmorras do presídio em vez de estar torcendo no estádio. Por isso é obrigado a ouvir o jogo entre a sua querida seleção celeste e “los macaquitos brasileños” através de um ridículo radinho de pilha.

Fora de La Libertad, em Montevidéu e em todo o Uruguai, neste domingo, opressores e oprimidos, humilhados e ofendidos, pobres, ricos, miseráveis e poderosos estão irmanados pelo desejo comum de que a seleção  uruguaia vença o “Mundialito”. Assim que o jogo acabar, as coisas voltarão ao normal. Voltará a funcionar a ditadura de uma classe especializada em tortura e em fuga de capitais. Depois do jogo, o povo voltará a se lembrar dos sapatos que exporta, mas que não pode usar; da carne que exporta e não tem dinheiro para comprar. Lembrará com saudade dos presos torturados e dos quase 200 mil moços e moças exilados de um país de menos de seis milhões de habitantes que “falam de lado e olham para o chão”.

Como Coice de Zebu, Eduardo Marin também é admirador de Roque Máspori, o técnico da seleção uruguaia. Quando menino, vibrava ao ouvir os mais velhos contar as façanhas do goleiro no estádio do Maracanã, do Rio, durante a Copa de 1950. Agora, porém, deitava no chão frio de sua cela, entre fezes, vômito e urina, se deixa embalar pelas lembranças dos passeios que dava com a namorada, virgem como ele, por Los Pocitos; do seu grupo de teatro amador – El Galpón - e dos exaltados debates políticos no Las Telitas. Mas não tem esperança de se livrar de La Libertad; não tem esperanças de sair vivo de La Libertad. Sabe que quem dissemina a praga não dá o antídoto contra ela. Fora informado pelo correio subterrâneo, com algumas semanas de atraso, de que, nos Estados Unidos, Reagan venceria as eleições. A partir de então deixou de acreditar que algum dia veria o lado de fora da prisão.

Foi com irritação que Coice de Zebu se despediu da mulher, dos filhos e dos sogros. Ele gosta de falar, de comentar os gols da seleção, tomando cerveja com os colegas de farda. E os subterrâneos de La Libertad, por cujos corredores passeia nervosamente, rádio de pilha colado ao ouvido, há somente um bando de comunistas filhosdasputas, mortos vivos, fedorentos, que certamente nada entendem de futebol. Nem patriotas são esses mierdas! Mas Coice de Zebu se engana. Pouco a pouco, vozes vindas das mais diversas celas, primeiro temerosas, tímidas, sussurrantes, e depois – devido à falta de uma reação violenta – mais altas, nervosas, pedem-lhe notícias sobre “la partida”.

         Esquecemos de dizer que Eduardo Marín, além da idade, tem algo mais em comum com Fulgencio Flores. Como ele, sempre gostou de futebol. Chegou a jogar futebol na escola e jamais deixou de torcer pela seleção. Agora, porém, sua cabeça doente está cheia de dúvidas. Está lutando com seu coração. Dentro de alguns minutos o time do seu país vai se defrontar com a equipe brasileira; equipe – segundo informações clandestinas e anacrônicas – de uma ditadura mais branda, que, graças ao clamor popular da campanha pela anistia, conseguiu tirar alguns brasileiros dos campos de concentração do Uruguai. Mas o Brasil é também o país que seqüestrou o jovem casal Universindo Dias e Lilian Celiberti e o entregou aos carrascos uruguaios. Do fundo da noite que traz dentro de si, e rodeado pela noite proporcionada pelas quatro paredes do seu cubículo, Eduardo Marin se pergunta se Lilian e Universindo estarão vivos. E se estiverem, em que câmara de torturas foram jogados. Do outro lado do corredor, numa cela ainda menor do que a de Eduardo, mais morto que vivo, Universindo pensa, aliviado, que hoje é domingo, há uma partida de futebol importante e que talvez por isso não o torturem.

         Coice de Zebu está pensando, e pensar o deixa confuso. “Será possível que esses cabrones de mierda, esses comunistas que nem acreditam em Deus, esses traidores da pátria, gostem de futebol? Recebera instruções para não entrar em contato com os prisioneiros. Nem torturá-los podia mais. Nada de conversas, lhe disseram. Não pense neles como gente, mas como traidores da pátria, como comunistas nojentos. Mas que diabo, hoje é um dia excepcional. A nossa querida Celeste vai jogar daqui a pouco e esses putos parecem estar interessados.

Enquanto o carcereiro pensava, os prisioneiros se apavoravam. Não lhes era permitido dirigir a palavra aos guardas e haviam se deixado trair pelo entusiasmo por causa de uma partida de futebol. Mas Coice de Zebu chegara a uma conclusão. Aliviado, de sua cela, Eduardo Marin ouviu-o dizer para si mesmo e para todos os presos ao longo do corredor:
- Companheiros, vamos trucidar os brasileiros. Vamos trucidá-los como fizemos em 1950. Vamos acabar com eles! E sabem por quê? Porque eles não são machos. Ganham mucha plata! Son unos macaquitos maricones, los niegros de mierda!
Como que espantado por ter conseguido produzir uma frase que considerara muita engraçada, Fulgencio Flores começa a rir. Primeiro, um risinho surdo, e aos poucos vai se transformando numa gargalhada sonora, histérica, ameaçadora. Ao perceber que ninguém ri com ele, grita:
         - Vocês concordam comigo, seus putos?
De todas as celas ouviu vozes que diziam:
- Concordamos! Concordamos!
- Então riam, quero ver todo o mundo rindo!

Alquebrados, inchados, sujos, mais pele que ossos, as primeiras gargalhadas se fizeram ouvir, primeiro tímidas, depois mais confiantes, e, finalmente, tão fracas que, se alguém os pudesse ouvir do lado de fora de La Libertad, diria que ali dentro havia uma festa. Coice de Zebu continuou triunfante:
- Vamos ganhar porque, no Brasil, o futebol não é mais o esporte do povo. Ouvi dizer que os grandes times têm escolinhas de futebol para os filhos dos ricos. É por isso que vamos ganhar. Porque os uruguaios têm códones, e os brasileiros são os capados. Viva o Uruguai!
Silêncio.
- Não ouviram, seus comunas? Viva o Uruguai!
- Viva o Uruguai! Viva o Uruguai! Viva o Uruguai! – prisioneiros de La Libertad respondiam de suas celas.
- Viva Fulgencio Flores!
- Viva Fulgencio Flores!
Coice de Zebu começou a gargalhar de novo, e o som dessa alegria era como uma agulha no nervo do desespero dos presos políticos.
- Agora, calem a boca, companheiros, que o jogo já vai começar!
O primeiro tempo está quase no fim e até agora nenhum gol. Coice de Zebu colocou o rádio sobre um banco no meio do corredor, volume máximo, para que todos pudessem ouvir. Estava se sentindo um santo.
A cabeça doente de Eduardo Marin continua brigando com seu coração. Não conseguia gritar “Viva o Uruguai!” e muito menos “Viva Fulgencio Flores!” Ele sabe o quanto a ditadura militar brasileira se aproveitara da vitória da sua seleção em 1970. Como fizeram acreditar que a vitória fora uma vitória do regime. Sabe como o título de Tricampeão do Mundo facilitou o trabalho da tortura no gigante país vizinho. Sabe também o quanto o título de Campeão do Mundo de 1978 foi usado pelos militares argentinos para conquistar as simpatias do povo.
Eduardo Marin só não consegue entender por que sempre que Rodolfo Rodríguez faz uma defesa espetacular e sempre que Rubem Paz consegue furar o bloqueio brasileiro, seu coração se enche de alegria. Será porque é uruguaio e ama o seu país, ou porque nutre a esperança de que não o machucarão por algum tempo caso o Uruguai vença?
Fim do primeiro tempo, sem gols. Coice de Zebu bate com uma barra de ferro nas portas das celas.
- Cantem comigo, seus comunistas de merda! “Vayan peleando las chauchas...Vayan peleando las chauchas...aunque les custe trabajo...Donde juegan los Celestes... donde juegan los Celestes...todo el mundo boca abajo!”
Pouco a pouco, começa a se ouvir as vozes dos mortos-vivos de La Libertad, cantando sob a batuta de Fulgencio Flores, uma grotesca mistura de dor, vergonha e alegria:
“Donde juegan los Celestes todo el mundo boca abajo!”
Eduardo Marin tenta ignorar a canção arrogante e xenófoba, recitando baixinho os versos de Pablo Neruda:
Quiero el amor del dia y del arado. Quiero borrar la línea que, com ódio hacen, para apartar el pan del pueblo. Y al que desvistió la línea de la pátria, hasta entregarla como carcelero, atada a los que pagan para herirla, yo nome voy a cantarlo ni callarlo. Voy a dejar su numero e su nombre clavado en la pared de la deshonra.”
Nesse momento, Barrios faz um gol para o Uruguai. Uma golfada de sangue sai da boca de Eduardo Marin, produto do grito alto de dor e júbilo que se misturou aos gritos de seus companheiros e do cabo carcelero. Pouco depois, Sócrates marca para o Brasil um gol de pênalti indefensável, e o juiz austríaco Linemeyer jamais saberá como sua mãe foi insultada pelo patriota Fulgencio Flores, aliás, Coice de Zebu.
Silencio feito de terror e medo, durante quase 40 minutos. Finalmente, gol de Victorino. Acaba a partida. Por todo o Uruguai e nas masmorras de La Libertad, um grito uníssono de  ufanismo. Embora que os jornais da grande imprensa de todo o continente tentarão estabelecer um paralelo político entre a vitória esportiva e o regime militar, Eduardo Marin está feliz. Podre, desdentado, meio morto, ignorado pelo mundo, ele sorri na escuridão da sua cela, cuja porta se abre neste instante, projetando para dentro a sombra gigantesca do cabo Coice de Zebu. Ele também está sorrindo e há uma certa autenticidade em seu sorriso. Dois uruguaios, dois coetâneos, dois irmãos, felizes com a vitória dos Celestes. Por alguns instantes o sorriso do jovem Fulgencio se encontra com o sorriso do jovem Eduardo, que não vê a barra de ferro que desce violentamente sobre sua cabeça.
- Viu, seu comunista filhodaputa? Viu? Apesar de você torcer contra, nós ganhamos, seu puto! Nós ganhamos.
Uma, duas, três vezes, a barra bate contra a cabeça do prisioneiro transformando-a numa pasta de carne, sangue, pele, cartilagem e ossos. As paredes da cela estão manchadas de sangue. O corpo de Coice de Zebu está manchado de sangue. Coice de Zebu não precisava ter batido tanto. Eduardo Marin morreu no primeiro golpe. Coice de Zebu realmente não aprendera nada das lições de Don Mitrione.

 

PS  - Isto é ficção. Agora, a realidade que inspirou este conto: no dia 7 de janeiro de 1971, durante os jogos do Mundialito, o corpo do jovem Dernitt Barbato foi entregue à sua mãe pelos militares uruguaios, com a seguinte recomendação: “A senhora está terminantemente proibida de abrir o caixão.” Hugo Dermitt Barbato, moço estudante de medicina fora torturado até a morte pelos carrascos dos campos de concentração de La Libertad”. Seu corpo estava irreconhecível.

 

 

 

 
 
 
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