OS INOCENTES

Marilia Arnaud

O plano resumia-se a levar Davi até a casa de praia dos pais de André, desabitada naquela época do ano, e mantê-lo quieto e encafuado no local combinado, com os olhos bem abertos, até o final. Só que, em algum momento, as coisas se desgovernaram, com todo aquele cheiro áspero de naftalina, a respiração difícil, o calor, os músculos tensos, as câimbras nas panturrilhas e, além disso tudo, uma sensação pungente, como uma ferida que não para de latejar, alastrando-se por todo o corpo. Quando nos demos conta, já estava acontecendo, e não havia como retroceder, alguma coisa que recendia a medo e prazer foi escapando ao nosso controle, meu coração num tropel, meu corpo crescendo, uma fera açulada e faminta forçando e rompendo a jaula, e a coisa redemoinhando e se avolumando e se acelerando e explodindo intensa e violentamente dentro de mim, e logo já havia acontecido, e estava tudo acabado, inclusive a nossa amizade, tudo que nos ligara até aquele dia.
Depois, Miguel chegou a insinuar que não teríamos tido força para ir contra André. Isso não é verdade. Ele não nos impôs nada. Sequer nos incitou. Permitiu, apenas, e assistiu em silêncio, com o olhar esfolado, que fingíamos não perceber, apertando os dentes para controlar o tremor do corpo, possuído, por certo, pelo mesmo demônio que nos atirou naquela quase irrealidade, numa espécie de transe, de demência, como se estivéssemos bêbados ou alucinados, ou encarcerados em um sonho denso e avassalador.
Dissemos sim a André. Eu e Miguel sempre lhe dizíamos sim. Relutamos durante algum tempo, porque daquela vez seria diferente, seria mais que uma brincadeira cruel, e temíamos que alguma coisa não saísse da maneira planejada, que ocorresse algo maior e sem conserto, que fôssemos apanhados, ou denunciados mais tarde. Não sei de Miguel, porque não me disse, nem cheguei a lhe perguntar, mas o que me seduziu na proposta de André e me fez decidir acompanhá-lo foi a possibilidade de ver Diana Farida. Sem que desconfiasse, eu a compartilhava com ele. De tanto ouvir seus pormenorizados relatos, que aconteciam logo após os encontros dos dois, bastava-me estar sozinho, na cama ou embaixo do chuveiro, fechar os olhos e chamá-la, que de pronto ela vinha surgindo e me alcançando por trás das pálpebras, ali onde tudo se fazia possível, reiteradas e prolongadas vezes, imagens que se enchiam de sussurros, afagos e estremecimentos, que se ordenavam numa exatidão penetrante, como se fossem lembranças.
Convivíamos muitas horas por dia, papeando, vagabundeando, na escola, na praia, no cinema, na quadra de esportes do clube, no quarto de André, onde costumávamos nos reunir para ouvir música em volume ensurdecedor, fumar maconha e assistir a filmes pornográficos que ele furtava da gaveta secreta do pai. E embora tivesse apenas dezessete anos, um a mais que nós, sabia nos conduzir como um irmão mais velho, livre como se não fosse filho, seguro de si mesmo, do fascínio que provocava em nós e nos outros colegas, principalmente nas meninas. O mundo, repleto de possibilidades, corria sempre em sua direção, e a vida, que lhe parecia uma excitante e ilimitada brincadeira, estava do lado dele, o lado que queríamos para nós, que buscávamos tentando imitá-lo nos trejeitos, no modo de falar, andar, se vestir, de abordar as meninas, de menosprezar os professores, de debochar dos puxa-sacos.
Quando Davi chegou em nossa classe, no início do segundo semestre, com aquele jeito de bom garoto, e soubemos que vinha de uma cidade do interior, como bolsista, filho de uma professora e de um pai ausente, não lhe demos nenhuma importância. Introspectivo e arredio, sempre debruçado sobre livros e cadernos, não falava a nossa língua, tampouco nos importunava, não valia a nossa atenção.
Aos poucos, contudo, fomos percebendo sutis demonstrações de perplexidade e respeito por parte dos professores. E logo começou o assédio. Nos intervalos das aulas, os colegas, e aí se incluíam as meninas, caíam-lhe em cima, e Davi, pacientemente, tirava-lhes as dúvidas. Das intrincadas equações de segundo grau às regras da análise sintática, da tabela periódica às intrigas das duas grandes guerras mundiais, nenhuma indagação ficava sem uma resposta consistente e satisfatória.
Estimulados por André, nós o provocamos algumas vezes, mas ele não reagia, não nos dava essa confiança. Encarava-nos com um olhar desarmado, onde não havia sinal de medo nem de arrogância. Seguia tranquilo, revelando aos quatro cantos a nossa ignorância, massacrando o nosso orgulho besta com a sua curiosidade intelectual, com os seus versos que, descobertos por um dos nossos professores e avaliados como românticos e idealistas, eram lidos na sala de aula em meio a murmúrios de admiração.
Achávamos que poesia servia unicamente para fazer coisas insignificantes parecerem valiosas, uma embromação, e que todas aquelas sutilezas e ambiguidades, tão maçantes e alheias a nós, eram próprias das meninas, e também dos veados, e por isso, durante um certo tempo, andamos farejando algo assim em Davi, que pudesse desmoralizá-lo e pôr fim àquela bajulação.
É certo que andávamos meio enfezados, mas ainda não havia motivo para preocupações maiores. Então, aconteceu. Nós os vimos, ao final das aulas, sentados nos degraus da sorveteria que ficava em frente à escola, somente os dois, e pareciam cúmplices, as cabeças inclinadas e encostadas uma na outra, entretidos com a leitura de um livro. Permanecemos do outro lado da rua, enquanto André foi até eles e, após arrancar-lhes o livro das mãos e examinar o título com desdém, humilhou Diana, dizendo a Davi que não perdesse seu precioso tempo lendo-lhe versos, pois, enquanto posava de boa moça, a poesia que ela apreciava era outra, e estava mais embaixo, precisamente no meio das pernas dele. Em seguida, deu-lhes as costas e veio voltando em nossa direção, pisando duro e franzindo o rosto numa expressão concentrada e desagradável que já conhecíamos, os olhos enfiados no calçamento, e vimos Diana escorregar a cabeça para o ombro de Davi, e o vimos enxugar-lhe as lágrimas com as pontas dos dedos, sussurrando-lhe algo, oferecendo-lhe um olhar trôpego de piedade e de uma outra coisa que naquele momento não soubemos identificar.
Depois desse dia, passamos a vê-los sempre juntos, e muitas vezes nos perguntamos se Davi saberia o que fazer com uma garota como Diana Farida, e o que ela fora buscar nele, tão magricela e desajeitado com aquelas orelhas de abano, sobre o que poderiam conversar, quando ele vivia enfiado em livros e abstrações, e ela, em revistas que ditavam a moda e contavam as vidas dos artistas de televisão, um universo em que qualquer tipo de leitura reflexiva logo se tornava um aborrecimento, uma perda de tempo.
O que afinal em Davi atraíra Diana, a menina mais popular da escola, a que podia ter a seus pés o garoto ou mesmo o homem que desejasse, pois André não nos contara que o pai dele ficara paralisado de desejo quando vira Diana tomando sol na piscina de sua casa?
André a cercara durante quase um mês para conseguir arrancar-lhe uns beijinhos. As carícias mais íntimas vieram em seguida, e a partir daí as coisas foram acontecendo numa progressão alucinante. No início, viviam enroscados, beijando-se, apertando-se, esfregando-se, siderados com o descobrimento de tantas delícias. André gostava de exibi-la, carregando-a na garupa da sua moto, ou desfilando com ela de mãos dadas pelo pátio da escola, e nas festinhas que organizávamos nos finais de semana para dançar grudados nas meninas. Por fim, embora negasse com veemência, apegara-se a ela, viciara-se em Diana, e se tornara visivelmente melancólico e intolerante, às vezes, ciumento de uma maneira agressiva, chegando ao extremo de lhe perguntar, na nossa presença, para quem olhava com insistência, por que não se livrava do costume vulgar de sorrir para todo mundo, ou onde se escondera por tanto tempo, quando sabia que ela estivera apenas num desses lugares onde se arrumam os cabelos e se pintam as unhas.
Diana não lhe respondia, apenas o fixava com um olhar que vinha de cima, que o fazia desmoronar, e André engolia as palavras, detestando-se por aquela fraqueza e detestando-a por ela ser capaz de ignorá-lo, de esquecê-lo tão facilmente. Depois se afastava envergonhado, e então percebíamos que aquilo que o tornava especial aos nossos olhos, que lhe dava poder sobre as garotas que conhecia, não valia para Diana Farida. Havia nela uma distância que o atormentava. Havia também uma inquietação, uma espécie de apetite pela vida, que a fazia voltar os olhos e o sorriso em todas as direções, e que em algum tempo encantara André, mas que àquela altura abalava suas certezas e o ameaçava de uma maneira indefinida, e tínhamos a impressão de que tentava a todo custo dominar, ou mesmo destruir, e nós nos perguntávamos o que afinal restaria a Diana Farida se lhe roubassem a alegria honesta e descuidada, sua essência, ela própria.
Apesar de seus quinze anos, tinha porte de garota de dezoito, e quando passava, serpeando em suas calças compridas justas ou em saias mínimas, vez em quando afastando do rosto meio sardento os cabelos da cor de lua cheia, com o mesmo gesto vagaroso e exato, os seios balouçando sob blusas de tecido levíssimo, devia sentir todos os olhares pendurados nela, o embaraço que sua presença provocava em nós, o poder que exercia sua beleza, o que a tornava mais petulantemente sedutora.
Até envolver-se com André, jogava charme para muitos garotos, mas apenas poucos haviam conseguido desfrutar dos seus encantos. Comentários maliciosos se espalhavam pela escola, escandalizando as garotas, que na verdade se engasgavam com inveja dela. André sabia disso tudo quando se aproximou de Diana. Além do mais, era um cara esperto. Nós o julgávamos quase invulnerável. Cobiçado, vivia escapulindo de garotas obstinadas de quem se enfastiara, enquanto nós seguíamos colecionando rejeições. Porém, com Diana, a coisa se inverteu. Foi ela quem o abandonou, e André andava amargando aquela ausência, que absolutamente admitia como definitiva, quando nós a encontramos com Davi na entrada da sorveteria.
Tentamos dissuadir André daquela empreitada, afinal ela não era a única garota bonita da cidade. Não valia a pena ir tão longe. Que ele desse a Diana o que ela valia, desprezo. Já Davi merecia uma boa surra, murros de punho fechado e pontapés na cara magra de passarinho, que ele tentaria proteger com as mãos, o nariz amassado, a boca espirrando sangue, estendido no chão, estropiado, derrotado. Isso, porém, não servia de consolo para André. Além da frustração de não ter mais Diana, fora desbancado por outro, o que nunca lhe ocorrera, e tudo o que desejava era ir à forra, o que aconteceria, nós não duvidávamos, com ou sem a nossa aprovação e ajuda. Estava obcecado com a ideia de punir o desgraçado do Davi, e nos dizia que iria esmigalhá-lo sem tocar em um único fio de seu cabelo, de uma forma tão extraordinária que ele nunca mais ousaria se aproximar de uma garota como Diana Farida. Porém, eu e Miguel achávamos que, na verdade, queria punir os dois.
Fomos instruídos por André a convencer Davi, tarefa que nos parecia difícil, pois andava cismado conosco desde o incidente na sorveteria. Como uma prova de matemática havia sido marcada para a manhã seguinte, deveríamos pedir-lhe que nos desse uma ou duas horas de aula. Sabia das nossas dificuldades e acabaria cedendo, como de fato aconteceu.
Foi fácil levá-lo até a casa da praia. Depois o amordaçamos, e prendemos suas mãos nas costas e as pernas nos tornozelos com cordas de náilon, e lhe dissemos que o que estava sendo feito era para que deixasse de ser babaca, bem como que estaria ferrado se desse com a língua nos dentes, e em seguida nos acomodamos, os três, dentro do armário vazio do único quarto que ficava no andar superior, mantendo a porta entreaberta o suficiente para que Davi pudesse ver, logo mais, o que tinha de ser visto.
Mesmo amordaçado e amarrado, recusou-se a entrar no armário e a ficar quieto, estrebuchando feito bicho em arapuca, e foi preciso que lhe déssemos uns safanões para que se acalmasse. Acho que só se deu conta do inferno que estávamos lhe preparando, quando viu Diana surgir seguida de André, e nem foi necessário vigiar seus movimentos, pois se estatelou na surpresa e no pânico, a respiração curta, os olhos metálicos.
Por um momento ficaram parados no meio do quarto. Pareciam embaraçados, e Diana disse num tom de voz impaciente, quase ríspido, que não tinha muito tempo, e nesse instante percebi a inutilidade de toda aquela estúpida armação, ela não o desejava mais, e eu não podia compreender por qual razão viera até ali, como André havia conseguido dobrá-la, e senti uma imensa pena dos dois, e também de mim mesmo, sei lá por quê. Talvez porque fosse triste demais constatar que as coisas perdiam a graça, que simplesmente acabavam, e me enchi da vã esperança de que ela suspeitasse, de que olhasse na direção do armário e nos salvasse, desmascarando-nos a tempo.
Com um gesto mecânico, nem por isso menos gracioso, Diana Farida fez o vestido escorregar pelo corpo e sentou-se na beira da cama, balançando os pés e olhando para um ponto fixo na parede à sua frente, como se o que estivesse para acontecer não lhe dissesse respeito, uma menina subitamente envelhecida, de rosto inexpressivo e olhos opacos, olhos que pareciam já ter visto tudo, dezenas, centenas de vezes.
Não sei se André contava com aquilo. Se chegou a se sentir desconcertado, não deixou transparecer, pois, despindo-se rapidamente, aproximou-se de Diana e buscou-lhe a boca, mas ela esquivou-se com um movimento quase imperceptível. Então, ele sussurrou-lhe algumas palavras num tom delicado e persuasivo, como se falasse com uma criança, e imediatamente as feições dela suavizaram-se num breve sorriso, e ele tornou a acalantá-la, e o sorriso alongou-se, e logo André a beijava ao mesmo tempo em que a livrava da calcinha, numa habilidade impressionante, e a mão foi se enfiando entre suas pernas, e o rosto se amassando contra todas as partes do corpo do seu corpo, e a língua seguiu lavrando desenhos invisíveis na pele de Diana, e quando enfim se abraçaram e rolaram sobre a cama, cheguei a imaginar que me enganara, que ainda restava alguma coisa nela que pudesse ser oferecida a ele, pois, embora do nosso campo de visão não pudéssemos mais enxergar os olhos, nem a expressão dos rostos, ambos gemiam e se contorciam como se dançassem uma música desesperada que só a eles fosse dado escutar.
Não sei quanto tempo se passou até que a visão interminável dos dois embolados sobre a cama, a proximidade de Davi, petrificado em sua raiva, dor e impotência, e o desassossego quase doloroso do meu corpo me fizeram chutar a porta do armário e pular para fora. Miguel seguiu-me, puxando Davi. Num salto, Diana desvencilhou-se de André e, reconhecendo-nos, arregalou os olhos e gritou. Em seguida, balançando a cabeça e as mãos, muda, desfigurada, foi recuando e se encolhendo até esbarrar na parede e abraçar as próprias pernas, com um olhar desamparo, suplicante, que me arremessou de volta a mim, afrouxando-me o corpo por um breve momento.
Surpreendentemente, como se as regras do jogo não houvessem sido rompidas, nenhum limite ultrapassado, André permaneceu em silêncio e seguiu adiante, arrastando Diana com firmeza de volta ao centro da cama, ali onde sua crua nudez deixava um rastro de inocência e horror, e nem precisou machucá-la para mantê-la imóvel – estava horrorizada demais para resistir, as pernas retesadas e bem abertas, o sexo inteiramente revelado, para o nosso deslumbramento.
Durante todo o tempo, Diana chorou, um lamento solitário, ritmado e profundo, entrecortado por soluços secos, que parecia vir de uma outra pessoa, uma pessoa a quem a vida atropelou, contando um segredo brutal. Chorou, espalmando as mãos sobre o rosto, resguardando os olhos, que eu, aliviado, não precisava enfrentar. Não queria enxergar o que estava acontecendo à sua volta, além do seu corpo. Não queria enxergar Davi, seu rosto rígido de náusea, o assombro, a repulsa e a acusação em seus olhos.
Em algum momento, Miguel arrancou André de cima de Diana e tomou seu lugar, sem que ele articulasse uma palavra, sem que esboçasse a mínima reação. Poderia ter dado um basta naquele instante, e então tudo teria sido de outra maneira, sim, se nos tivesse impedido, mas não creio que pudesse, estava tão ou mais enlouquecido do que nós. Nada havia nos preparado para o que estava acontecendo.
Então, chegou a minha vez, e lá de longe uma voz me chamava, um outro eu se esforçando para se fazer entender, um eu exilado de mim tentando me dizer algo que eu não queria ouvir, martelando junto com o meu coração, um fio de voz que suplicava, volte, e eu não podia mais – aonde iria, se ali, tão próximos, ao alcance das minhas mãos, estavam a brancura transparente do ventre e da parte interna das coxas, o fino azul das artérias, o tom rosado dos mamilos, a castanha penugem em torno do casulo de carne, e a rubra e precisa fenda, tudo tão complexo, harmônico, perfeito?
Algumas poucas estocadas, secas, rápidas, e fui empurrado num despenhadeiro, uma onda elétrica me varrendo as entranhas e dispersando-se em múltiplas ondas menores, o fogo dos meus olhos se esmaecendo e minha visão se embotando e meus joelhos amolecendo, e o mundo foi se despregando de mim numa espécie de sucção, eu me desintegrando em arrancos quentes e intermitentes.
Uma mão segurou-me pelo ombro e eu me ergui, abotoando-me, esbarrando em alguém. Saí sem olhar para trás e voei pelas escadas, uma gosma amarga aportando em minha boca. Lá fora esperavam-me um céu alaranjado de fim de tarde e uma solidão que era como respirar na escuridão sanguinolenta e repugnante das minhas vísceras, onde nada tinha rosto ou nome.

 

 

 

 
 
 
poeta da vez
indicações: leia mais
editora da palavra