Soneto, sonata e natureza morta

Izacyl Guimar„es Ferreira

As três formas de arte do título tem muito em comum. Se em poesia o soneto é a forma que se erige em modelo de concisão, e ainda pede perfeição “sem exibir sua sonetice”, também assim as características da sonata em música e da natureza morta em pintura: são formas emblemáticas, nas quais o saber fazer separa os artistas dos diletantes, e em sua redondez dispensa acréscimos e desdobramentos.


Consideremos o dito acima: um bom soneto não exibe sua sonetice, isto é, não mostra os andaimes, não força as rimas, não atropela o ritmo, não mostra se houve esforço do poeta para enfim completar seus 14 versos sem tropeçar na língua, na linguagem ou nas imagens. O sonetista tem que deixar o soneto fluir como se o autor não existisse e o soneto fosse um produto natural, sem dono. No entanto é uma forma rigorosa, produto de arte.


Pier della Vigna e Giacomo da Lentini são tidos como seus inventores, seguidos pelos grandes nomes de outrora, tais como Petrarca, a quem se deve a forma atual, e Shakespeare, Dante, Góngora, Quevedo, Camões.


Entre os brasileiros, numerosos desde o século XIX sobretudo, caberá destacar Cruz e Souza, Augusto dos Anjos, Olavo Bilac. Depois, Drummond, Vinicius, Lêdo Ivo, Ivan Junqueira, Afonso Felix de Souza, Reynaldo Valinho Alvares, Anderson Braga Horta. Entre poucos outros, são poetas que dominam a forma, sem por ela serem dominados.


Lêdo Ivo, em particular, praticamente relançou o gênero, algo esquecido pelas gerações de 22 e 30, com seu “Acontecimento do soneto”. E Ivan Junqueira, no seu “A rainha arcaica”, dará sentido especial à forma ao celebrar um assunto histórico com a solenidade que a estrutura clássica lhe acrescenta.


Será justo, entre os contemporâneos citados acima, mencionar um poeta que, dada sua predileção pelo formato, figura sem favor entre os melhores cultores da difícil arte, em livro com centenas de peças: Bruno Tolentino, em seu belo “Imitação do amanhecer”, escrito ao longo de 4 décadas, onde exibe notável perícia em metro, rima, todo um rico arsenal de poética e domínio expressivo, à altura do majestoso projeto desta Obra exemplar.


Como o soneto, a sonata é prova de fogo para o autor. Só os grandes compositores sabem dosar sua delicada força, domar seu rigor. Porque na exposição do tema ou dos temas o compositor nos mostra que sua sonata não é simples junção de melodias, harmonias e ritmos, mas uma construção de sons que se buscam e se completam, através do uso denso e equlibrado da exposição e seu desenvolvimento, até o arremate.


Tal como os quartetos e os tercetos do soneto (ou bloco de doze versos mais o dístico final, na forma inglesa) se amarram e se completam no fecho de ouro, assim as sonatas se resumem num feixe final de sons.


Mas ao contrário do que ocorre com o soneto e a natureza morta, são relativamente poucas as sonatas na história da música, nem são todos os grandes compositores que souberam fazer uso dessa privilegiada e difícil estrutura sonora, de mínima instrumentação para as pausas e os retornos de sua armação. Forma estabelecida por Carl Philipp Emanuel Bach, terá em Haydn, Mozart e num Beethoven tão distante das sinfonias, talvez os melhores cultores da sonata.


Merecem registro ainda as duas extraordinárias peças de Debussy e Ravel, compositores dos quais não se esperaria obras em nada impressionistas como essas sonatas, música apenas, e não versões sonoras de paisagens, típicas da descritiva escola francesa que estes compositores representam.


Formato para poucos e raros autores e ouvintes, a sonata é exigente, talvez a expressão mais alta da arte musical. Como o soneto, a sonata define uma estética, seja do autor ou do período, mas ao contrário do gênero poético, aberto a vasta gama de “assuntos”, ela se centra, clasicamente, na abstrata pureza dos sons.


Se o soneto é gênero no qual cabem assuntos, e a sonata é música e nada mais, os objetos pintados numa natureza morta não chegam a constituir um assunto, por mais vistosos. Eles são apenas, muito embora essencialmente, elementos estruturais da composição. Pura exibição de arte e mestria.


As primeiras composições que dão origem à vasta produção de naturezas mortas estão nas tumbas egípcias e logo em mosaicos romanos e na arte greco-romano que os precede. É com Giotto, na Idade Média, que a mais “moderna” still life aparece para tornar-se forma ou formato já de hoje.

Recordemos que a semelhança básica entre os três gêneros é o domínio dos meios da arte em exercício. Entrentanto, quase todo pintor (como quase todo poeta) utilizou o formato, num desafio nem sempre vencido. Mas os grandes mestres sobressaem. Bastaria pensarmos em Cèzanne e Renoir, em Matisse, Picasso, Braque, os mestres holandeses, Portinari. Se são multidão os pintores de naturezas mortas, estes grandes formam classe à parte, e entre eles não podemos esquecer o excepcional Morandi.


A partir de certa altura de sua trajetória, Morandi pintou apenas arranjos sutis de uns frascos e alguma fruta - sem nenhuma flor - em cores e fundos quase idênticos, como se buscasse uma natureza morta tão única e perfeita, que chegaria a ser, jamais uma natureza viva, mas a essência ou ideia dela. Ou melhor: só pintura.


Qual a razão do prestígio e frequência do tema? Viria das escolas de arte, hoje, o que antes foi o aprendizado junto aos mestres, numa espécie de alfabetização dos pincéis, da mão, dos olhos?


Como o soneto e a sonata, a natureza morta exibe a conquista maior do artista: o saber fazer. Pois é tal como naquelas formas consagradas em que os pintores dizem a que vieram, mostram seu domínio do espaço e da cor, estes elementos fundamentais da pintura. Flores, frutos, frascos, ou algo mais que apareça na tela, não passam de artefatos para tais fundamentos pictóricos à disposição do criador.


E precisamente por serem formas acessíveis na aparência ( algo menos que isso a sonata), o soneto e a natureza morta atraem tanto os verdadeiros artistas quanto os praticantes de menor talento, e haja mesmo uma enorme coleção de peças feitas nestes dois formatos, tão utilizados por aprendizes e diletantes.


Soneto, sonata e natureza morta são formas eternas das artes porque revelam, entre outros méritos, se o autor sabe o que faz, sabe a que veio ao dizer, soar, mostrar: seu eu e seu mundo, sua natureza, sua mestria.

 

 

 

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