ARTE E TECNOLOGIA

Izacyl Guimarães Ferreira

Imagino nosso ancestral que talhou ou riscou o primeiro signo, a primeira palavra. Terá exultado, poderia até haver saído aos gritos entre seus pares. Eureka!

Imagino o prazer de Guttenberg, dos inventores todos, da flauta ao sintetizador. De todos quantos fizeram avançar os recursos da criação, ampliando o repertório do possível - pedra, metal, plástico, a tinta imortal, a gravação eterna.

Por outro lado me indago se os descendentes das invenções, dos recursos, não andaram, andam e andarão deslumbrados em demasia com os achados e as virtualidades, esquecidos do essencial,devotos do mantra "the medium is the message".

A sucessão de propostas e adjetivações, manifestos, proclamações, nas letras e nas artes, pareceria ter sido em passado recente e até mesmo, hoje em dia, uma atividade a que se dedica mais atenção que à criação propriamente dita e ao desfrute dela.

Das "instalações" aos "conceitos" colados aos quadros, sem os quais não se consegue ir além da decoração, aos mais variados adjetivos pespegados à poesia, há um já envelhecido encantamento com as novidades, os exotismos. Estamos de novo, assustando a burguesia. Estaremos mesmo? Ou será a burguesia que gosta de ser enganada, nas artes como na política?

Há tempos já que as bienais, daqui ou de lá, perderam o sentido, a finalidade, a surpresa. Estamos todos esquecidos de que se há uma função, um fim, um valor nas artes e nas letras, ou se há utilidade nelas - para centrarmos a coisa em linguagem atual - este fim, valor, esta função, utilidade, está há séculos no conceito de catarse, ou, simplesmente, de emoção e alumbramento, identificação e prazer.

Se pomos atenção nas crianças, em como recebem uma peça de arte, seja animação na tv, show de aniversário, circo etc etc ou simples atenção à leitura ao pé da cama, o que vemos são olhos brilhando de satisfação (ou medo),cabeças alertas ao sentido do ouvido ou do olhar – uma sensibilidade indo de mãos dadas com a inteligência. Isso é o que busca a arte, isso é o que busca a literatura. Um aprender satisfeito, um apreender iluminado. O truque aceito é o da mágica, do som, da imagem. A tecnologia é só um acessório, ainda que ela possa ser essencial. Vale o resultado, não a firula, a pirotecnia.

Aprendamos com as crianças. O jogo do computador, a câmera digital, o celular, toda a parafernália maravilhosa ao dispor delas e de nós não são um fim em si, um exibicionismo. É o uso, são as funções. The message, not the media.

Se pomos atenção nas pessoas realmente cultas e educadas diante das letras e das artes veremos que o comportamento é o mesmo. Artes e letras não são mero entretenimento de mecanismos, mero jogo de palavras, sons e imagens, ainda que sejam basicamente a mais alta expressão que se possa e queira dar à idéia de jogo. Sim, jogo, como oposição ou substituição da vida. O jogo de criar, mais, o prazer da mímese.

Creio que desde o início do século XX as gloriosas tentações da modernidade atrapalharam demais a compreensão de que estar a serviço, ser meio, instrumento, não faz da tecnologia uma forma de arte; o engenheiro não é em nada inferior ao artista, mas o que ele faz é outra coisa. Criador? Sim. Também os cientistas. Mas não confundamos as mãos de direção do tráfego, para não trombarmos.

Já passou a fase de encantação que tão bem foi cantada por gente como Whitman, Álvaro de Campos, dezenas de poetas e pintores. O mundo está aí, a cada dia brindando-nos com maravilhas que já não surpreendem, salvo pela velocidade. Relax and enjoy it. Mas não sejamos "naives" nem fiquemos feito índios com bijouterias.

Proposta: vamos levar a sério as coisas, mesmo quando com humor. Letras e artes não são plásticos descartáveis para lixo seletivo. São produtos nada perecíveis do espírito. Sempre será difícil, sem ajuda crítica, saber o que permanecerá na estante, no museu ou concerto. Mas a cabeça e a sensibilidade atentas, habituadas, sabem, e não se perdem nos labirintos das novidades, da moda, dos eventos. Há nas pessoas afeitas às características do durável, do que parece vir a continuar, um sexto sentido a que chamamos cultura. É do que se trata. Uma convivência com o que atravessa o misterioso teste da permanência. Não há atalhos para a leitura, para a contemplação,ou para o ouvido. Trabalhoso obter tal condição? Sim. Mas prazerosa.

Ainda que saibamos que meio e mensagem, fundo e forma sejam cara e coroa da mesma moeda, saibamos quando estamos diante de moeda verdadeira e não de um produto de moedeiros falsos. Será preciso, sempre, não perdermos de vista o que sentimos, o que pensamos, sem ofuscar-nos com enganosas aparências ou discursos estéticos teóricos, que não se sustentam sem os apoios da prática, do produto, do resultado, que não conseguem confirmar a retórica da tecnologia, do "achado", da novidade.

Dê-se algum crédito à dúvida, ao gosto, mas sobretudo dê-se ao tempo o que é dele e é a maturação : do gosto, do recurso, dessa talvez indefinível qualidade que separa a arte do artifício. Uma ressalva, talvez, esteja nas circunstâncias de obras que não foram reconhecidas em seu momento e salvas a posteriori. Mas recorde- se que são exceções que comprometem quem as julgou e não quem as fez.

E há outra maneira de reconhecer-se a moeda verdadeira: na arte popular. A identificação criador-criatura-público é plena, inteiriça. Folclore ou circo, cantoria ou cordel, dança ou ritual. Não há nela nenhum embuste ou contrafação. Ainda que haja comércio, venda, é o contato, a identificação, a participação, que abonam, aplaudem. Até o carnaval invadido pela tecnologia soube conservar as raízes, mesmo quando transformado em show, e mais ainda nas versões pouco ou nada televisadas do frevo, do bloco de rua.

Se há uma conclusão a tirar destas considerações, ela seria apenas uma e já aludida acima: não há atalhos para chegarmos à certeza de estarmos diante do autêntico em arte e literatura, como não deve haver submissão ao preceito estético que se alardeia como palavra definitiva, seja o fim do verso, o fim do figurativo, o fim da ficção linear. Não há artes esgotadas. Há, sim, pessoas esgotadas frente às muitas dificuldades e possibilidades do fazer.

E não há espectadores, leitores, ouvintes que possam ser enganados todo o tempo por quantos moedeiros falsos que assolam os espaços culturais do país. E para nossa salvação, lembremos ainda que não há nada como a moda para passar e tornar-se ridícula, descartável.

 

 

 

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