A LUZ DO ENTENDIMENTO SÓ ACENDE NO FINAL

Dona Leonor

“Todo final é redondo”, li certa vez numa poesia de não sei quem e exultei com essa observação, apenas porque parecia demais comigo. Não é que esteja gorda. Nem tenho tendência a engordar. Mas a verdade é que estou redonda, minha vida faz sentido pra mim, vivo a idade da síntese.

Longe de mim afirmar que tudo se transformou num mar de rosas, que desconheço problemas, que o que vem eu traço fácil. Muito pelo contrário! Se descuido, a vida chupa até meus ossinhos, sem dó nem piedade, que a vida é má mesmo, injusta, e por mais que a gente se empenhe o final não é redondo, como diz o poema, mas espinhoso, cheio de ingratidões e desencantos.

Mas acontece que submergi e soube voltar à tona, devagarinho, sem ansiedade de me livrar do que me era sufocante. Aprendi a prender a respiração, a viver com o mínimo e tirar, daí, grande diversidade de espírito. Sim, fiz muito: não adulei a vida, mas aprendi a responder prontamente a cada rasteira que ela me deu.

Sou da turma da capoeira, gosto dessa ginga que engana a emoção e mais ainda a razão, uma ginga que é só humana. Parece grande coisa, né? E é! Fui longe, porque compreendi a tempo minha própria miudez. Não podia muito, ninguém pode, e fiquei onde estava, avancei quando podia. De resto ... Ora, cada um que avance a sua parte, assim iremos longe.

Mas foi um custo chegar até aí, porque a compreensão das obviedades não é pra qualquer um. Não, não é mesmo. A vida não é para amadores. A gente peleja, peleja e tudo dá errado. Só no finalzinho da contabilidade, quando começamos a fazer biscoitos para a grande viagem, é que nos chega a lucidez.

Um dia, sem mais nem menos, dá um estalo e a gente entende que é pouca coisa, um resumo mal desenhado do que imaginávamos que éramos. Uns choram, outros riem. Eu rio. É melhor assim.

No dia em que entendi, pendurava umas camisolas no varal ao lado da cozinha. O sol me picava com ferrões de vespa na hora gorda do meio-dia. Pois olhei para o chão e, perplexa, vi que minha sombra diminuía como a vergonha diante da luz.

Muito maior que ela, percebi que a sombra se acanhava conforme as horas progrediam e só depois voltava a aumentar, mas para o outro lado do meu corpo, a tal parte que um dia vai viajar para o sempre e para o sim.

Fiquei encantada com a sombra miúda! Corri lá dentro, peguei a tesoura e lhe cortei um retalho de musseline que guardei no bolso do avental. Fiquei com um “souvenir” de mim mesma que guardo e guardarei para sempre como um trunfo, uma prova de que estive aqui. E vivi.


 

 
 
 
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