SE FIZ, NÃO INTERESSA A NINGUÉM

Dona Leonor

Ninguém acredita, mas vou fazer 69 anos. Isso mesmo: 69! E o que já ouvi de besteiras a respeito! As amigas mais velhas (e também as mais safadas, apesar de carolas da igreja carismática!) me cochicham piadas de corar Messalina. Ainda assim, elas se riem desbragadas como essas à-toa.

Uma delas teve a desfaçatez de me perguntar se o falecido João Petra não me ensinara. E eu: “Mas ensinara o que, criatura?” E ela, já quase sem fôlego: “Ora, Leonor, o 69. Vocês nunca fizeram? Não acredito!” Ah, quase lhe passei uma descompostura, mas preferi calar.
Onde já se viu tamanha intimidade! Sei que a vulgaridade anda na ordem do dia, mas assim também é demais, minha amiga. Vê lá se o meu querido centro-avante do Várzea ia me faltar com o respeito. Mas néris de pitibiriba! E se fiz ou se não fiz, não interessa. De lembrar, não lembro.

Tudo o que a gente fazia fazia direitinho, dentro dos mandamentos. Agora, depois que o sono derrubava a gente de jeito, aí ... Bem, às vezes, despertava de ponta-cabeça, não sabia nem onde estava, minhas têmporas pressionadas pelos joelhos dele e coisa e tal. Mas do resto não lembro.

Minhas lembranças (e saudades) são muito melhores que o tal 69. Lembro, por exemplo, que havia naquela época certa solenidade em deitar ao lado do marido. Tive cada camisola! Cada touca, calçolão! Pois me deitava juntinho a João Petra e sonhava de não querer acordar nunca mais.

Acho que ele me virava a cabeça e eu só sonhava maluquice. Por exemplo, sonhei que era água, muita, mas muita água! Água revoltosa que se exaltava em ondas de direção vária, mas, na iminência de ensandecer, me esbatia inteira no portentoso rochedo – o maciço peito do marido.

Flancos e quadril, tudo se chocava contra ele, que não se queixava e acolhia os golpes sem se deixar ferir, muito menos me machucar. E, assim, enquanto durava o sonho, ele ia amansando o maremoto até me dar por convencida: melhor mesmo era me abandonar ao remanso das vagas.

Pois, ele ia e eu vinha, ele ia e eu vinha ... A cada encontro, ouvia um trovão ecoar dentro do seu peito, enquanto miríades de peixinhos multicores me subiam pelas pernas e as algas coroavam minha testa como se eu fora alguma potestade oceânica. E eu era a mesma Leonor de sempre.

Hoje, me pego aqui aos 69 anos e nem acredito. Já pintei e bordei, se bem, como disse, nem lembre das noitadas de farra com o meu Petra. E não lembro, porque –acho- ele me deixava tonta, sem norte, não sabia se estava de cabeça pra cima ou de cabeça pra baixo. E aí ... pois, é... 69!

Mas era sem querer, acontecia assim sem aviso e, quando a gente dava pela coisa ... Algumas vezes, cheguei a me benzer. De outras, corri a abrir a Bíblia para ler as passagens de Salomão, o meu Salomão de pulseiras de ouro e grossas tranças. E ele fazia coisas ainda bem piores!

Mas a vergonha passava logo, nunca fui de exagerar nos pudores e, acontecesse de novo, voltava a Salomão. Aí, ficava mais sossegada. Afinal, se ele podia, por que não eu, uma pobre coitada que nunca mereceu a mais leve menção na Bíbia? Ah, e depois o que se faz no escuro ninguém vê!

Porque naquela época ninguém falava disso, não. Isso era conversa dos homens, e assim mesmo nas calçadas, no botequim, na oficina mecânica ... Se alguma moça passasse, eles logo se calavam ou mudavam o tema, corteses como nunca mais se viu neste tolo mundo sem assunto.

Hoje, mesmo em rodas de mulheres (algumas delas, casadas!), fala-se de tudo, contam com a maior naturalidade seus pecadilhos conjugais, maliciosas, tagarelas, fazem até trocadilhos obscenos. Soube de uma que, muito embora entre amigas, referiu-se (ai, credo) ao próprio clitóris!

Depois, reclamam que não há mais privacidade. Ora, se elas mesmas confidenciam até com desconhecidas! Não pode ser assim, não, gente. Tá certo que os tempos mudaram, mas e a compostura, e o recato? Assim, pelo andar da carruagem, vão ficar mais faladas do que já estão!

Quando penso nas minhas saias rodadas ... uhm ... que saudade! E os laçarotes de organza! Ah, aquilo, sim! Dava gosto a gente se vestir e, depois, melhor ainda, sentir como eles tiravam a roupa da gente com os olhos, embora sem faltarem ao respeito, que respeito gera entusiasmo.

João Petra era um mestre nesse particular. Sempre pedia que me vestisse bem no final da tarde para ele ter a melhor impressão logo ao chegar do serviço. Eu, que nunca fui boba e sabia já ler nas entrelinhas, caprichava nos boleros, nos plissados, cheguei a usar uma calça cigarrette.

Daí em diante, minha filha, eram os confortos do lar, os privilégios de uma jovem senhora casada, chamada Leonor, que tinha de dar corridinhas pela casa para escapulir daquele sátiro de sobrancelhas hirsutas e eriçadas, que me fazia sentir a eletricidade na ponta dos seus dedos.

Acabava me cansando, claro. E, aí, o safadão me prendia. Às vezes, nem me deixava arrumar a cozinha depois da janta, tanta a urgência No escuro, os braços dele multiplicavam-se como um polvo, e era impossível escapulir, mas ou me falha a memória ou eu não queria mesmo escapulir.

Mas me debatia, esperneava, emitia guinchos e miasmas, dentes rilhando como num acesso de bruxismo, olhos revirados feito valquíria ensandecida ... Não me entregava fácil, não. Não tinha esse negócio de um tapinha não dói, de reivindicar o orgasmo, de ficar por cima. Eu, hein!

E, aí, é como disse lá no início da nossa conversa: de tanto pular de um lado pro outro, acabava perdendo o norte dentro do escuro e, sem noção de direção, calhava de deitar ao contrário do meu Petra. Mas simplesmente por acaso, ouviram? Ele nunca me disse que aquilo era o 69.

Se ele nunca me disse, como é que eu ia saber? Porque os homens é que ensinavam as mulheres, eles sabiam mais, ainda mais nesse mister. Se aprendi a fazer, nunca soube o nome. Fazia sem saber, entenderam? Depois, esquecia. Nunca cochichei com amigas sobre a farra nupcial.

Se foi bom? Não sei, não digo, não interessa a qualquer. Além do mais, passarei um ano inteiro com 69 anos. Aí, quando festejar os 70, é que poderei dizer alguma coisa, se gostei e coisa e tal. Mas não vão esperando grandes revelações, não. Detesto publicidade e mais prezo o recato.

Só adianto uma coisa: subi muito pelas paredes como as aranhas e fiz com gosto, não me arrependo. Foi assim que teci a teia onde prendi meu Petra e me banqueteei à tripa-forra. Ora, se!

 

 

POR UMA NOVA COLUNA

Igor Fagundes

 

Depois de muito buscar uma idéia que honrasse a palavra; depois de muito tentar a palavra que honrasse este pequeno-amplo lugar em estréia; depois de muito ensaiar um finito-infinito lugar que honrasse o espaço que lhe foi doado, precioso também de silêncio, porque de poesia (pela poesia e para a poesia), decidi deixar tudo para: depois. Nenhuma resenha de livro. Sequer as boas-vindas a um poeta, talentoso, a publicar pela primeira vez. Nem a crítica de homenagem àquele autor experiente e consagrado, que não cansa de ensinar-nos o rito eterno de aprender que toda vez é primeira a cada escrever-publicar. E mais uma vez, eu aqui, em mais uma vez. Primeira. Com direito a arrepio e a frio na barriga.

Antes, uma palavra, já aqui, desde sempre presente, por pouco esquecida, de repente lembrada, vivida, sentida, amada, a honrar a idéia, o espaço, o lugar, na mesma instância em que, a partir de agora, honra a si própria como palavra: c o l u n a. A poesia pede que a ouçamos, que lhe retiremos as mordaças e, enfim, devolvamos virgindade à linguagem para que o mundo calado de uma  c o l u n a  ganhe voz, corpo, tessitura. É a maneira mais justa e honesta de conhecê-la: permitir que ela se dê a conhecer. Deixemo-la, portanto, que se apresente e se revele no seu tempo, que não é necessariamente o nosso, pois impossível prever aquele quando em que o vigor e a verdade de um encontro, liberto dos relógios e dos calendários, se farão desencobertos.

Esta é a ocasião de nascimento de uma c o l u n a  – isto que, na graça de tantas articulações, acompanha nosso corpo desde que nascemos, para suportá-lo, apoiá-lo, erguê-lo, dar-lhe movimento e capacidade de nos unir a nós mesmos. No entanto, porque não raro somos insuportáveis, desapoiados, cabisbaixos, franzinos, corcundas, sedentários e cindidos de nossa inteireza, às vezes – ou para sempre – a  c o l u n a  acaba por gritar sua rouquidão. Entre cifoses, escolioses e lordoses, ela teima pôr-nos de pé. Entre hérnias de disco e vértebras deslocadas, a coluna resiste e nos insiste: de pé. Faz com que também pressintamos a nossa vez de suportá-la, erguê-la, uni-la a si própria, protegendo-a bravamente, da mesma forma como protege a medula que torna mente-e-corpo uma só: alma.

Uma coluna de poesia (pela poesia e para a poesia) assim se pronuncia: lugar crítico da saúde, do bem-estar, do tônus da arte e da literatura, porque comprometido com os melhores movimentos e os maiores erguimentos de vida. Cabe-lhe suportar corpos poéticos de qualquer altura, peso e porte, desde que façam sua parte, isto é, contenham-se nas gorduras e açúcares de que se alimentam. Nos excessos de uma silhueta que deve exigir de si um mínimo (ou um máximo?) de disciplina, equilíbrio, atividade física, suadouro. Do contrário, a coluna não poderá (leia-se: não conseguirá) oferecer apoio. Principalmente diante daqueles autores que desejam avidamente acentuar suas lordoses na lombar: empinados, talvez procurem simular um par de glúteos que não têm. Outros parecem possuir tanto medo de crescer, expor-se ou habitar o eixo crítico de si e de uma coluna, que se curvam numa cifose apta a encurralar-lhes a cabeça, o tórax e os ombros na redoma cega, ínfima e solitária de um umbigo. Os mais criativos (?) aproveitam a escoliose como metáfora e metonímia para o slogan roubado-ovacionado de Drummond: “Vá ser gauche na vida!”. E exigem respeito, admiração frente ao seu jeito sinistro de ser. Um tronco de poema, entortado para a esquerda por conta de uma coluna verbal imperfeita, tem lá algum charme, mas nem sempre se declarar poeticamente canhoto é garantia de mais habilidade e genialidade no auto-elogio do diferente, do esquisito, do marginal.

Amigo poeta leitor, cuide bem deste corpo que leva a público, que a coluna reflexivamente se encarregará de cuidar bem dele. Não force demais a barra, pegue leve ao desejar fazer tudo de uma vez para superar-se a todo custo antes que esteja (meta?)fisicamente preparado. Para romper os limites, necessário correr atrás. E para a frente. Cautelosamente. Com a prática e um pouco de alongamento, ninguém perderá a flexibilidade quando convertido em atleta desta... musculação? Dispensável qualquer esforço? O poema é obra das musas? Mas, cultuadas por aí, não costumam ser saradas todas elas?

Tomado por uma saudável vigorexia artística, vibraremos com a endorfina e hipertrofia dos músculos densos e tonificados de uma escrita. A coluna não quer escrever (se inscrever) sobre a poesia, mas ser escrita (desescrita, descrita, reescrita, inscrita, transcrita, circunscrita) de tal modo que a força do poético a ponha igualmente de pé. E na esperança de que o corpo de uma resenha venha a ser também e definitivamente um poema. Daí que, para agüentar o tranco, prefiro ficar, por ora, só no aquecimento.


Igor Fagundes é poeta, jornalista, crítico literário e doutorando em Poética pela UFRJ

 

 
 
 
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