PRATA DA CASA

Daniel Santos

 

Dia desses, dei de limpar a prataria. Abri o console da sala e fui tirando bandejas e baixelas; a maioria ainda embrulhada como presente de casamento, décadas atrás.

Só então me dei conta de que me queriam serva, gueixa, uma esposa cordata que não se importasse de massagear os pés do marido ao chegar do serviço, antes da janta.

Verdade que nunca fui dessas que se abespinham de indignação quando o homem, escarrapachado no sofá, lhes pede um copo d´água como senhor que põe e dispõe.

Se posso, pego. Entendo bem o dengo desses ogros que se preservam para, depois, retribuírem quando menos se espera. Podem ser inconvenientes, mas fazem uma falta!

Pensava nisso, enquanto a esponja de aço reavivava o brilho de outros tempos. Pensava em como o meu querido João Petra se refestelava na poltrona de vime do alpendre.

Vinha suado do futebol do Várzea, time do coração, de uma vida inteira, e caía sentado. Depois, gemia, esticava as pernocas musculosas e fazia aquele olhar de pidão.

Nunca me pediu nada. Mas que talento para insinuar! E eu, agachada com uma bacia de água morna, cuidava de suas dores nos pés, sem jamais me sentir menor, servil.

Pelo contrário, era eu no comando: bastava um aperto bem dado e o grande atleta gemia todo melindres. Ademais, meus dedinhos de Messalina se aproveitavam daquele corpão.

Ambos no regozijo, soubemos aproveitar o tempo a nós concedido assim bem encaixados: um servindo ao outro. Essa é a melhor política, a da sincronia de espíritos.

No espelho da prata, vi como tal me fez bem. Não que esteja esticadinha como as arrebitadas que fazem pose de gostosonas, mas, em casa, se franzem de vacuidade.

Não, não. Também estou sã, mas, em vez daquela curva de amargura na boca, preservo lábios que ainda sabem beijar. E beijo! Beijo sem economias, de jeito estalado mesmo.

O que vi emergir dos espelhos foi uma Leonor sem ressentimentos, agradecida a vida e a si própria pela capacidade de entender que, servil é ser vil, sem real serventia.

Trabalho terminado, me vi resplandecente na superfície das bandejas. Depois, pra lá de satisfeita, voltei a guardar tudo no console da sala. Lá, no fundo, onde devem ficar.

 

RITO DE PASSAGEM

Augusto Sérgio Bastos

Ritos de passagem para o mundo adulto são comuns em culturas primitivas. Entre nossos índios, algumas tribos obrigam o jovem ao isolamento, ao frio, sem comer nem beber, o corpo pintado de vermelho; a suportar mordidas de formigas ferozes; ou a enfrentar animais selvagens dando a estes chances de defesa, provando que são guerreiros caçadores e valorizam o inimigo. Mas algo inaceitável ocorre do outro lado do mundo, num outro país, longe da nossa terra de terceiro mundo.

Nas ilhas Feroe, os jovens são alçados à maturidade de um modo diferente do que fazem os “selvagens” brasileiros. Eles também ficam pintados de vermelho e não é com urucum. O mar se tinge de vermelho, mas não devido aos efeitos climáticos. Deve-se à crueldade com que seres humanos matam centenas de dóceis e inteligentíssimos golfinhos Calderon, que, como quase todas as outras espécies de golfinhos, se aproximam do homem unicamente para interagir e brincar, em gesto de pura amizade.

Em uma pequena baía, os pobres animais são encurralados por dezenas de embarcações, obrigados a nadar em direção à praia e à morte. Lá, são aguardados por jovens e adultos armados. Depois de esfaqueados, o pescoço cortado de fora a fora, são golpeados mais uma ou duas vezes com grossos ganchos, que fazem enormes buracos na barriga. Nesse momento, produzem um som estridente bem parecido ao choro de um recém-nascido. Não há compaixão. Sofrem até perder a “consciência” e morrem envolvidos no próprio sangue. O mar de sangue.

Isso acontece ano após ano. Por quê? Para demonstrar que estes jovens já chegaram à idade adulta, estão maduros. Em tal celebração, nada falta para a “diversão”. Todos colaboram de uma maneira ou de outra, matando ou apoiando como espectadores. Nesse dia, crianças costumam ser dispensadas das escolas para acompanhar a matança e usam os animais agonizantes como se fossem cavalos de brinquedo.

Os golfinhos são deixados apodrecendo na praia, e os heróis das ilhas são então adultos racionais e cidadãos reconhecidos por sua comunidade.

As ilhas Feroe não ficam na Polinésia ou em algum esquecido país africano. Seus habitantes são louros, altos, com prováveis olhos azuis.

Essas ilhas estão situadas na Dinamarca, o orgulhoso e civilizado país europeu.

 
 
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