ADÁGIO SEM TROMBETAS

Dona Leonor

Qualquer dia, me inscrevo nas aulas de tai-chi-chuan só de pirraça. Ando cansada dessa rotina veloz que me quer arisca e eficiente como se eu tivesse vocação para serva da modernidade. Meu tempo é meu, moço!
Quero-o na coleira com lealdade canina, escoando num prazeroso gerúndio como manteiga se derretendo sobre o pão quente de cada manhã. Do contrário, não interessa. De ansiedades e aflições, me fartei para sempre.
Já reparou? Tudo vai bem até seis da manhã, mais ou menos. Depois... Lá pelas cinco, a luz vaza a vidraça da cozinha num adágio sem trombetas. Ah, tudo macio, sem sobressaltos, um rocegar de veludo sobre cetim.
A luz prossegue. Incide na fruteira e aquenta os pomos pejados de seiva. Tudo recende a natureza e tranquilidade, mas, de repente, alguém buzina lá fora, chama a criança, diz que se apresse a escola. E, assim, sempre!
Por isso, gosto de apreciar as aulas de tai-chi lá da praça. Gestos vagarosos, de enfartar qualquer executivo, desses que andam com a pasta cheia de prazos a cumprir. Pois, devagar e sempre. Assim é que deve ser, né?
Esses apressadinhos, esses arrebitados acreditam que tanta morosidade só pode ser provocação. Chegam a rilhar os dentes, inconformados com o que supõem seja desmazelo. Enganam-se, porque afoitos e pretensiosos.
Tempo bom é o que escorre da baba do bebê até sua primeira palavra, e o que encorpa do mel da colher a boca do convalescente e sustém na memória a primeira flor no decote ... Tempo bom é o tempo que nos damos.
Também o velho que passa aqui às cinco da manhã parece saber disso. Vai num vagar altivo e imperial. No mesmo trote, volta com o pão debaixo do braço, sem alterar o ritmo, como se tivesse firmado pacto com a eternidade.
Observo o vizinho que, sem saber, me conforta. Vive com meticulosidade tibetana, com a precisão de um ourives que sabe o valor da sua jóia. Dá-se o devido valor, o respeito que a ansiedade insana pretende lhe negar.
Pra mim, não peço outra vida, além dessa alegria de trazer meu tempo sempre na coleira como objeto portátil que se encolhe e se desdobra ao gosto do freguês. Tempo sem hiato que conjuga o gerúndio na ampulheta.

 

 

 
 
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