AVESSO DAS EXPECTATIVAS

Dona Leonor

Fui à feira e comprei um arquinho novo para os cabelos, desses de plástico, com florezinhas coloridas. Coisa boba e barata, que não sou de esbanjar. No entanto, o que para os outros seria trivialidade me deixou acesa como debutante na véspera do baile!

Sim, ando feliz da vida, até mais que umas amigas que ganharam TV de plasma no Dia das Mães. Ah, o meu arquinho! Acho mesmo que rejuvenesci. Pelo menos, me olho no espelho e percebo certa coqueteria (coque teria com pundonor) no canto dos olhos.

Agora, acordo de manhã, penteio os cabelos para trás e os prendo com o arco. Tomo café sem delongas de desocupada e pego logo na vassoura para deixar a casa em ordem. Espanco tapetes, passadeiras e travesseiros com tal disposição que dá gosto ver!

Depois, vou às compras. Coisinha pouca, bobagem, mero pretexto para saber das últimas das redondezas. Noutro dia saí de amarelo, toda de amarelo, um escândalo de se ver. Mas e daí­? No fundo me divertiam os que se escandalizavam com minha ousadia.

Porque imagino - pensam que as velhas devem ser bem comportadas, pobrinhas, infelizes, solitárias, carentes... Ora, isso pode acontecer em qualquer idade! Como também em qualquer idade pode suceder justo o oposto, o avesso das expectativas.

Dessa maneira vivo agora: pirracenta, rebelde, espevitada - dizem-me os mais chegados. Pode ser. Pelo menos, assim parece. Mas que mal há em sair por aí com roupas provocativas, saltitante como pardalzinho feliz e vulgar no inicio da primavera?

Ridícula? De jeito nenhum! E peça a Deus clemência a quem torce o nariz desdenhoso à felicidade alheia. Desses, quero distância. Não dou nem bom-dia. Porque rejeito o rótulo que me impingem: sou égua velha, não nego, mas com galope de alazão.

 

 
 
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