Fina Ficção

Lou Viana

Fina Ficção é o livro em que a poesia de Lou Viana encontrou seu caminho mais denso: a compresença de múltiplas camadas na lua minguante de seus versos, e sua fina ironia, iniciada desde O céu do lençol.

São acciaccaturas, mordentes, semitons que evocam algo dos fragmentos de um Sandro Penna e de um Reiner Kunze. O universo e a miniatura. E a força de mil demnônios. 

Marco Lucchesi

 

 

Fragmentos de Maria

Maria Dolores Wanderley
72 páginas
R$ 20,00

            Depois de Rumores de azul (2001), Mar espesso (2003), A duna intacta (2006) e este Fragmentos de Maria, Maria Dolores Wanderley já não é uma promessa, e sim uma presença singular de grande interesse dentro do caldeirão da poesia brasileira contemporânea, no qual totalmente novas experiências de linguagens poéticas (como aquelas que desmantelam mais radicalmente um sentido discursivo ao mesmo tempo em que apagam as fronteiras entre gêneros literários, filosofia e ativismo) são cozidas ao lado de inteligentes e frequentemente irônicas releituras que dão continuidade à nossa herança modernista e concretista, entre outras tendências. Mais próxima da tradição – ou melhor, de sua releitura e atualização – e do sensível, a poesia de Maria Dolores Wanderley – que nasceu e cresceu no Rio Grande do Norte e parece embeber e transformar de forma salutar suas raízes nordestinas – tem como uma de suas características formais mais marcantes o emprego de uma imagética lírica e natural, uma visão que perdura e se impõe mesmo nos poemas que falam sobre a cidade, como fica evidenciado no belo poema “Aqui”:

 Onde os relógios são nuvens/e os minutos esticam-se/- interminável carretel -
/Para incluir um café/outra conversa,/no meio do dia/Onde os relógios se movem a sol /e nos regulam/como bromélias, heras /jequitibás/ipês/espalhados pelos muros/paralelepípedos/asfalto

            No entanto, se há um lirismo e um certo desejo utópico na poesia de Maria Dolores Wanderley, eles convivem e dialogam de uma forma intensa e ao mesmo tempo harmônica – e talvez esta seja a característica estilística mais singular e potente de sua poesia – com o desencanto e, principalmente, com uma dilacerante experiência de isolamento e não-pertencimento. Como o próprio título do livro já indica, Fragmentos de Maria alude de forma potente, mas sutil – e por isso mesmo mais eficaz e surpreendente – à esta alienação, que pode ser trágica e radical, como atesta o belíssimo “Poema em linha torta”, que faz menção a remédios, eletrochoques e silêncio, e que abre a seção “Maria”. Assim como o mundo natural, desmesurado, imprevisível e avassalador (embora superficialmente sereno e positivo) pode apagar a cidade e suas marcações, em poemas extraordinários como “Consolo” e “O Arcano Treze”, a poeta tenta lidar com esta visitação desestruturante. Neste último, pela menção aos nanofósseis (a poeta é geóloga), sabemos que é a própria Maria quem fala:

A qualquer hora ele pode chegar/sem rosto, sem nome/solerte, traiçoeiro/Tento me concentrar nos nanofósseis/Chego a preparar aulas, liberar boletins, /responder mensagens ao computador /Desligo o rádio /Me empenho nos problemas amorosos/sabendo que não há solução/Tomo um café /falo sobre música, cinema, poesia/coisas que aliviam/mas não o desnorteiam

            Com estes poemas Maria Dolores Wanderley realiza sua intensa vocação poética e revela a (ainda) trágica condição do poeta. Para além das bem-sucedidas estratégias formais e estilísticas de Fragmentos de Maria, tal condição (tal possibilidade de inesperados abalos sísmicos) é o tema último deste comovente livro. Como deixa claro o poema “Poetas”:

           
Que subam morros/atravessem túneis/viajem para Bangladesh/Que cruzem pontes/aprendam/idiomas /ofícios/Que vão para a festa/para a praia,  para o mar/Vejam cardumes, anêmonas, corais/Se encontrarão num fosso/estranhos/sós/Aí pescarão palavras/para extrair-lhes a carne,/ o óleo/o osso

Renato Rezende

 

 

Prefácio de vida

Lina Tâmega Peixoto

            Prefácio de vida desenha o traço e o contorno das eternidades, se os leitores comigo evocarem os escritos de Jorge Luis Borges. Matéria viva do tempo transitado em diferentes geografias do imaginário, a palavra navegante de Lina Tâmega Peixoto compõe ressonâncias e reverberações, em todas as edições poéticas precedentes. E agora, é eternidade que configura-se como una cosa más sencilla y más mágica: es la simultanied de esos tiempos.

            Na geometria de seus versos, um susto amoroso surpreende o leitor pelo inusitado, inesperado momento em que se pensa que a síntese poética ficou perfeita; prende-se a respiração, em compasso de espera, de inquieta indagação, porque aquele instante subjetivo, fugaz, é só aparentemente efêmero: sem ponto final ou reticências, cada verso contém a beleza que faz o corpo estremecer, cada poema encena sem pejo ou censura uma infinitude de compartilhamentos, que continuam dentro da gente, companheiros enamorados, entrelaçados no entretempo do viver é ser inadvertida.

            E é por essa ousadia com o signo ( - O signo tem duas margens/ uma na despedida, outra, no desencontro-), transmudado dos sentidos sempre diferentes daquele para o qual foi criado, que permite ao leitor descobrir, encantado, a parte de poeta que até então escondeu-se nos recantos de seu desejo de eternidades.

            A viagem do poeta ao leitor, em Prefácio de vida, consegue preservar algo da singularidade do momento de criação do poema. É forte a marca estilística e o cunho de originalidade do poeta que o concebeu: essa mineira de Cataguases, cujo olhar sem fronteiras promete horizontes que sejam o de ver segredo e inflama o vórtice da poesia, enquanto dorme o anjo/ no gume divino de suas asas. Sua obra poética reacende o poder da poesia, quando poetas ‘’interpelam uns aos outros’’ e, tomando de empréstimo As artes da palavra, de Leandro Konder, ‘’os poemas [ de Lina ] se articulam num movimento de vocação dialógica’’, onde oscila em claro-escuro a voz/ que temove no meu verso. O leitor ecoa o poeta, em reinventado encontro: alcanço o atemporal instante / dos sentidos/ onde me abrigo e me transformo / em preclaro símbolo.

            Em Prefácio de vida, descobre-se que existe mais que a função poética e a ambiguidade da arte, pois de forma definitiva e duradoura, Lina Tâmega Peixoto se insere, histórica e culturalmente, na comunidade de poetas que constroem leitores de vida e de palavra.

Sandra Vivacqua von Tiesenhausen

                                                                                                        Brasília, outubro de2009

 

 

Corpo Estranho

Roseane Carneiro
90 páginas
R$ 18,00

           Neste seu pequeno livro-corpo “indevido”, Rosane Carneiro não presume a fatal destinação dos seres, desde o “ovo” condenados a uma vita breve. Evoé, ruge a poetisa, convidando homens e mulheres ao renascimento de Dionísio, seja nesta existência  bailarina, seja em outras de um aquém-túmulo. E se a vida pode ser “memória do corpo” ou “carne da história”,  por um lado indica aquilo que resiste, por outro o que sacia a fome de si e do alheio. Ou seja, a fronteira entre o corpo inibido e o corpo desejante: “Ao alcance dos olhos a cura /o que não se procura / não se prescreve /
receita em descoberta”.

Leonardo Vieira de  Almeida


As modulações de Eros, tão presentes em Prova, livro anterior de Rosane Carneiro, ressurgem ainda mais intensas e bem trabalhadas neste Corpo estranho. Na busca de palavras que digam a força da matéria, Rosane defronta-se com a  “carne da aurora”, deseja a “embriaguez da luz”. Na sua poesia, transforma-se estranho em entranha, pois o outro já surge sob o signo da interioridade: “germine em mim /a pele do homem amado”. Sorver o corpo da paisagem (“os músculos do vento”) ou perder-se na paisagem do corpo são movimentos que apontam para a mesma direção: a da palavra poética entendida como a prática de uma erosgrafia.

Antonio Carlos Sechin

 

 

O silêncio das xícaras

Helena Ortiz

           Alguns contos de Helena Ortiz são de tirar o fôlego. A velocidade vertiginosa de que consegue dotá-los resulta da supressão primária de pontuações, conectivos e de tudo que poderia engordá-los. A ilusão de urgência torna-se homóloga àquela da sucessão ininterrupta de imagens, em vinhetas e videoclipes, mas só na rapidez. Em significado pode aproximar-se do fluxo de consciência, que buscava a representação do ponto de vista do indivíduo através do monólogo interior perdido, ou em conexão com outras ações. Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, passeia pelas ruas de Londres desenvolvendo monólogo interior contendo personagens, tempos e espaços vários que fazem a estrutura do enredo. Nos contos vertiginosos de Helena o resultado é aturdir o leitor e despertá-lo para o mistério que está ali dentro, escondido, no turbilhão de palavras superpostas. É o caso de “Peluda”, um conto de meia página no qual, com pouquíssimos signos ou símbolos gráficos, conta uma bela história de amor entre uma mulher e seu gato e o prazer que os dois desfrutam em estar juntos. Gato real, mesmo, bichano de pêlo farto e sensualidade exaltada que se transmite ao texto sinuosamente, até molhar toda a página com o prazer que os dois desfrutam por estarem juntos, mulher e gato / gato e mulher, numa maravilhosa e farta, considerada transgressão, que deveria ser muito natural, pois que afinal somos todos animais. Tudo isto contado de um só fôlego, mas conservando a malemolência visceral dos felinos. Considero-o um dos contos mais eróticos que já li. Aliás, esse estilo descarnado de pingentes é a maneira dos cegos verem a realidade. E Helena, de certo modo, trabalha essa idéia como um depoimento sobre sua própria expressão literária, também veloz e instantânea, no conto a que deu o título de “Diagnóstico”, uma narrativa sobre alguém que, progressivamente estaria perdendo a visão. Ao contrário de Saramago, que mostra o drama coletivo vivido por uma sociedade de cegos, esta cegueira individual progressiva parece até uma benção, pois permite ao ser humano aprimorar novas formas de conhecimento da realidade e da sobrevivência. Uma circunstância que promove descobertas, até mesmo no processo criativo da literatura: “Nas retinas, o teclado permite certa contemplação para o único. Os olhos abertos não vêem as palavras, mas a clareza delas se espraia pelos dedos, pelos pulsos, impulsiona um exercício novo... Branco papel palavras precisas. Vão-se os acentos maiúsculas aspas travessões importa que escrevo e me entendes. O esforço não é mais para as palavras, que elas chegam claras e ainda são acariciadas ao som do dicionário. O esforço é a forma do registro. Hoje em dia você pode falar com o computador. Mas acontece que eu não falo. Escrevo.”
Não é um conto de amor, mas uma metáfora de recusa ao prosaico, ao banal da realidade de uma vida sem surpresas. Cultiva a clarividência a que se pode atingir através do escuro, da renúncia ao real, um dos enigmas que a autora persegue em sua trajetória poética.

           Outro conto, desta vez não de amor, de terror, também representativo desse poder de transmitir o mistério que existe por detrás de palavras reunidas de maneira peculiar, invenção formal da narrativa de Helena, chama-se, não por coincidência, “Milagres”. O milagre da recuperação do amado perdido para a morte, e devolvido à vida pelo sonho, alucinação, fantasia ou coisa que o valha, maravilhosa sensação que transforma em natural um fenômeno impossível de acontecer no plano do real. É o que acontece à protagonista deste conto insólito, que concede ao leitor o privilégio de com ela compartir toda a alegria inicialmente desfrutada: quando ao abraçá-lo em pensamento, “primeiro como se fosse imaterial, mas na medida em que o ia acariciando se tornava cada vez mais palpável e nítido e de repente falou e então era como se fosse e até já era mesmo porque levantamos e começamos a viver nossa vida de antes.
Até que vieram as baratas.”

           Deste momento em diante a narrativa transforma-se em legítimo exercício de terror e crueldade até o seu final , que não é muito longínquo, pois como todos os outros, o conto é curto e verossímil, e traz a marca de implacabilidade de muitas outras estórias de Helena Ortiz, uma contista que transfere para a prosa muito do seu estilo poético, curto, enxuto, mas profundo, não no que diz de maneira explícita, porque seu texto nunca é explícito, e nisto está a sua força. Em relances de clarividência atinge os mistérios que só podemos ver com olhos semicerrados. Assim como Sylvia Plath via a realidade sempre através de epifanias, milagres no ato de ver.

 Márcia Cavendish Wanderley

 

 

Cabeça, tronco e versos

Victor Colonna

            Em nossos dias, ninguém ousaria negar que a poesia constitui um reduto de resistência contra a acelerada desumanização promovida pelo mundo tecnológico. Se o poeta se envolve de modo abrangente com as questões universais e atemporais da condição humana, por outro lado sempre enfatiza o que o distingue como indivíduo, testemunhando sua experiência histórica única, ressaltando sua singularidade emotiva através de linguagem própria, enfim, expressando sua presença em meio à multidão anônima e silenciosa.
             Assim sendo, a atividade literária da poesia prima por se insurgir contra a massificação da sociedade, submetida à ditadura da maioria, do comportamento padronizado imposto de fora e, portanto, contra a linguagem de natureza objetiva, moeda corrente que visa apenas o coletivo denominador comum capaz de atingir a todos, deixando de lado o importante e sutil particular.
             Diante das circunstâncias que o rodeiam, a estratégia de sobrevivência e manifestação de cada poeta difere bastante. Victor Colonna constrói sua poesia mobilizando uma tática de protesto contundente, cortante ironia e certa irreverência ao explicitar sua inserção no mundo.
             Em Cabeça, tronco e versos, o leitor vai encontrar rara intensidade passional, sério envolvimento com a questão da linguagem, forte senso crítico e certa oscilação formal face às tradições literárias vigentes.
             O título é o primeiro indício do desmonte que ele opera nas estruturas gastas da linguagem. Ocorre uma espécie de rasteira na expectativa do leitor, surpreso com a substituição do último termo no lugar-comumque o acompanha desde a anatomia aprendida na escola primária: cabeça, tronco e membros.
             São muitos os recursos de interferência na linguagem congelada de que se vale  esse poeta  para sublinhar realidades novas. Lembre-se “a página de silêncio”, em homenagem aos versos natimortos, que parodia os minutos silenciosos reservados aos mortos pela praxe social. Ainda no limiar da obra lê-se: Meu livro é uma vida aberta/à faca, onde a familiar expressão minha vida é um livro aberto ganha extraordinária carga emotiva visto a inversão anexar o complemento à faca. Se na sentença de origem esta palavra aludiria à antiga prática do leitor diante das páginas de extremidades cerradas, agora, com o deslocamento contextual, adquire pungência por se referir à própria vida e sugerir sofrimento.
              A estrofe inicial de “Moeda de troca”, além de expor o ceticismo realista, faz a caricatura do romantismo obsoleto, valendo-se de expressões chapadas com que são classificados os afetos: Não há amores perfeitos/Nem caras-metades/Somente moedas de troca/ E meias-verdades. Afinal, mais adiante, num momento de reflexão profunda ele recolhe o sarcasmo e reconhece em “Inominável”, que Amor não se exprime em palavra, pois, Amor é da ordem do silêncio.
             Victor Colonna não é poeta de meios tons. Sua dicção carrega cores definidas. Suas idéias comportam conflitos e arestas. Sua crítica intensa é muitas vezes lâmina cortante. Ele está sempre promovendo subversão na bem comportada maneira de encarar o cotidiano. Em muitos poemas surge um forte antilirismo, espécie de sarcasmo demolidor da atmosfera romântica presente no bom-mocismo poético.
             Em “Negócio arriscado”, o envolvimento amoroso é friamente tratado como operação de compra e venda comercial, reduzido a objeto passível de ser adquirido à prestação, ou serviço de hotelaria por semana/temporada/estação. Aquele ingênuo sonho de felicidade, consubstanciado na imagem da casinha de colina em cidade pequenina, vai se transformar em espaço impossível, subestimado pelos diminutivos e dinamitado pela sentença final, pois fica na puta que pariu. Tome-se o poema “Providência” em que, ao tratar da violência urbana diária, Colonna parodia a popular canção Marcha soldado/cabeça de papel, se não marchar direito/vai preso no quartel. A canção vai perder o confortável humor e leveza das brincadeiras infantis para adquirir a força de contundente protesto: “Matar é o prato do dia: Mata soldado, cabeça de papel/ Fome de sangue, barriga vazia/Tiro na nuca, paz no quartel”.  No poema “Genitora”, Colonna ousadamente se encarrega de promover a desmistificação de um sagrado valor social. Em vez djuntar-se ao coro dos costumeiros louvores em torno da instituição mãe, ele se dirige às mães de aborto, expondo sem complacência acerba reprovação “às traidoras/que usam a máscara-mater/ como ordem divina.” E vai além em sua revolta. Nem mesmo Deus escapa a seu amargo descontentamento: Deus pecou por ser ausente/Deus pecou por ser distante/Por se fazer diferente/Por nos querer semelhantes.
             O jovem poeta Victor Colonna, como se vê, destaca-se pela rebeldia, o desprezo das convenções sociais. No longo poema “Anti-establishment” ele enuncia, em múltiplas anáforas de negação, suas convicções mais profundas, realizando o auto-retrato de suas idiossincrasias e estabelecendo de maneira nítida o pessoalíssimo perfil, totalmente afastado da maioria popular brasileira. Note-se que nessa análise está concentrado em si mesmo, em atitude bem diversa daquela com que Mário de Andrade em “Ode ao Burguês”fulminou a sociedade paulista do começo do século passado, marcando seu afastamento dela. A declaração oficial do não-alinhamento de Colonna, reiterada ideológica e formalmente no poema “1969, ano que não começou”, parece dar continuidade ou exemplificar o soneto “Ímpar”que antecede a ambos. Declara, neste belo poema de notável entrega emotiva, a presença da solidão, sentimento natural  De um ímpar à procura de seus pares. Ao longo da obra, a solidão há de aparecer inúmeras vezes, além de resumida no verso: Há muito sou deserto. Poemas como “In memoriam”,  “Sexta-feira”, “Palhaço”, “Soneto do filho perdido” são pungentes variações no constante tema da solidão, bem como do desagradável isolamento dela decorrente. Embora em algumas passagens Colonna extrapole a intensidade, manifesta em “Curto-circuito”e “Metamorfose”, chegando a ceder ao fascínio macabro do gótico como no “Soneto do vampiro”, e deliciar-se com aexplosão das palavras emancipadas de estrofes, em geral readquire o equilíbrio no trato com o verbo, vivenciando forte segurança no reino artístico de que é poderoso senhor. Sobressaem relevantes as composições em que o autor examina aspectos inerentes à linguagem, seu instrumento de ofício. “Sujeito oculto”, desfila considerações de grande pertinência sobre elementos lingüísticos e estruturas sintáticas, explorando paronomásias e seqüências esdrúxulas portadoras de  humor. Também comporta  leitura de  protesto contra a prática didática dos professores de língua portuguesa que subutilizavam a poesia clássica e barroca com o intuito simplista de  identificar categorias gramaticais. Outro exemplo de serena concisão e racional simetria é “Contrato de risco”.  A relação ontológica entre criatura e criador, recebe aí memorável reformulação: O poema é sujeito/o poeta objeto. Fica assim definida a vassalagem existencial que o autor mantém com a criação poética, eixo e fundamento de sua vida. De tal paixão pela arte da palavra dão testemunho, entre outros, os poemas “Faxina”, “Metamorfose”, “Palhaço”, “Roda viva” e “Post scriptum”. Neste último, vazado em tom de testamento, após listar as características pessoais que deixará por herança, menciona como seu mais visceral legado: Minha alma seca e minha poesia.
             Talvez em conseqüência de sua inegável rebeldia, Colonna demonstre, na execução dos versos de forma fixa, relativo descaso pelas normas vigentes. Se nos onze sonetos do livro emprega rimas consonantais perfeitas e estrofação petrarquiana, permite uma oscilação métrica pouco ortodoxa, tanto nos versos longos como nos curtos, e nem sempre respeita os acentos típicos do decassílabo heróico e sáfico. Isso, porém, não chega a comprometer a altura de sua voz.
             Extraio de “Contrato de risco”, o dístico: O poeta é inepto / O poema é impacto para discordar do primeiro verso e concordar com o segundo. O poeta Victor Colonna transborda inegáveis aptidões criativas e produz uma poesia de impacto, destacando-se positivamente em meio à rica produção contemporânea dos jovens.

Astrid Cabral

 

Espiral

Luiz Otávio Oliani

Palavra artística, tempo e condição humana são temas que se entrelaçam neste livro de rara coerência formal.
Luiz Otávio Oliani distingue-se ao optar pela essência, criando versos marcadamente substantivos. Daí forte grau de despojamento, total ausência de adjetivos, rejeição de jogos musicais gratuitos ou de qualquer recurso retórico que soe retumbante ou excrescente.

No poema “Transformação”, manifesta o severo rigor que mantém com a palavra. Abraçado à extrema economia verbal, Oliani parece adotar o famoso lema estético less is more que orientou a revolução da Bauhaus. Graças à atitude apolínea, consegue o máximo de significação com o mínimo de vocabulário, extravasando-lhe os limites pelo poder sugestivo.

Desenvolve, portanto, poética de autêntica parceria com o silêncio. Ao contradizer a afirmação heideggeriana da linguagem como morada do ser, dizendo “faço do silêncio / a morada do ser”,  apenas aponta para a eloqüência que a contrapelo habita o silêncio, o complementar e rico avesso do verbo, que também se constitui em enigma do Mundo
A consciência do silêncio permeia Espiral e é em sua busca que se lança Oliani, tentando revelá-lo, perguntando pela chave da palavra. Afinal, segundo ele, “a poesia é grito / feito em surdina”, isto é, palavra que reverencia o silêncio e dele participa.

Astrid Cabral

 

O paraíso era antes

Lucia Fonseca

Formada em História Natural, Lucia Fonseca  trabalhou alguns anos em pesquisa, com artigos publicados na área de genética humana. Entre 1980 e 2000, atuou em administração de ciências, na Financiadora de Estudos e Projetos – FINEP. Começou a escrever regularmente no iínício da década de 70, publicando poemas em suplementos literários de alguns jornais.
Em 1980 aparece o primeiro livro, Invênões do Liêncio, pela Livraria José Olympio Editora.Nesse mesmo ano recebe o Prêmio Emílio Moura da Secretaria de Cultura do Estadode Minas Gerais, comRede Fluvial, publicado em 83, tambémpela José Olympio. Publicu outros livros em poesia, romance e memórias, participando ainda de antologias e livros de contos.
O paraíso era antes é o seu oitavo trabalho e o primeiro em que aparece como  ilustradora.

 

Diário Brasileiro

Armindo Blanco
Crônicas publicadas desde 1995 no jornal “O Dia”.
Editora da palavra
408 páginas

Armindo Blanco foi uma alma viajante. Os seus olhos estiveram sempre atentos para a indicação do movimento da vida ao redor. Não a vida refestelada e cômoda, esquecida dos compromissos mais profundos, que todo ser humano precisa honrar, mas a vida que pergunta pelo hoje, pelo amanhã, pelos sentidos dos atos que presenciamos e que irão ecoar para sempre, como se fosse um tambor metafísico ensandecido. O que importava, o que movia a sua sensibilidade e a sua pena, não era a oportunidade de viver e de anunciar a própria vivência, mas sim o impulso fervoroso de conclamar a todos para a mudança do mundo. Ou, pelo menos, para a modificação da visão de mundo de cada um. Um convite para desconfiar da própria ingenuidade. 

Tânia Brandão

 

Cantares

Lucia Fonseca

Lucia Fonseca estreou na poesia com Invenções do silêncio, pela Editora José Olympio em 1980, ano em que recebeu o Prêmio Emílio Moura, pro-movido pela Coordenadoria de Cultura do Estado de Minas Gerais com Rede Fluvial, editado em 1983, também pela José Olympio. Em 1985, publicou Cadernos de Geografia pela Editora Mitavaí, quando Ivan Proença, autor da orelha do livro, elegeu, sem hesitar, sua produção entre o que de melhor se fez em poesia no Brasil pós-22.

Na década de 90 publicou dois livros em prosa: Outono, Primavera, Coração (Ed. Artes e Contos, 1995) e Confissões de Penumbra (Ed. Rosa dos Tempos, 1997); em 2003, A última grande dama, em homenagem à sua mãe, Yolanda Brasileiro Madeira, pela Editora Jobim Music.

De lá para cá, muitas autoras surgiram no cenário poético brasileiro e se tornaram grandes. Maiores até quando se sabe que a poesia é para poucos poucos, e decidir escrever, decidir publicar é ato de coragem. Assim mesmo elas transpõem as dificuldades e se mostram íntegras e livres.

Em 2007 a Editora da Palavra celebra com seus leitores o retorno ao livro dessa poeta que é tão carioca quanto Ipanema. É possível dizer que cresceram juntas, que uma colhia as conchas jogadas na praia da outra, num tempo em que ainda havia arrastões e tudo era simples.

Com formação em História Natural, Lucia Fonseca tem olhos para observar o que é cada coisa, estudá-la, dissecá-la até conhecê-la intimamente, e de-pois encantá-la para sempre. Esse é o mesmo movimento que se observa na sua poesia.

Cantares é o livro de uma vida e tudo o que ela encerra: atitude e domínio artesanal, impulso e alta dosagem de lirismo. É obra de indiscutível quali-dade literária: poema.

 

Fora de Moldura

Elida Escaciota

            Em seu livro de estréia, Elida Escaciota apresenta uma poesia multívoca, multifacetada, permeada por um lirismo ora grave, ora irônico que se debruça principalmente sobre o mistério da escrita, do fazer poético. O que fazer, como fazer, o que é o poema enquanto objeto estético parece ser o letimotiv de suas palavras. No meio do caminho tematiza a infância, a força da juventide, recados da natureza e da grande cidade em quase haikais.
            Poemas mais longos, poemas mínimos, ora com um rítmo de redondilha, ora soltos, brancos, mais descompromissados com uma forma específica.
            Tudo isso seria mera descrição técnica que serviria a qualquer poética, não fosse a sinceridade, a universalidade dos versos, pedra de toque de seus textos.
            Assim, nos vemos diante de uma poeta enternecida com os fatos da vida e do verso para quem "Quem confere/ se ferra com ferro e aço" - é o que nos avisa de saída, apesar de reconhecer que tudo o que nos cerca passa por outra dimensão: "Hoje, a ventania é por dentro / lá fora, a tarde // brisa,". Constrói desse modo uma temperatura interna plena de imagens simples e profundas. Não veio para brincar ou brinca, parodiando Cabrera Infante, sério dentro da brincadeira.
            No universo ainda confuso da poesia do século XXI, Elida se apresenta com uma grande inteireza. Inteireza de quem começa uma caminhada sabendo que muita coisa ainda está e sempre estará fora de moldura, dentro da maior tradição lírica do Ocidente. Sem grandes vôos, maquinações ou construções sofisticadas seu livro se apresenta na sua integridade de obra inicial. Que sejam muitos seus caminhos porque verdadeiros.

 

 

Fora de Órbita

Luiz Otávio Oliani

"Estamos diante de um livro maduro, que sugere profunda reflexão. Necessário se faz, pois, sairmos da "órbita" que nos impõe o"confinamento"e nos "impede a vista / da liberdade". Nada de versos românticos, melosos. Olhos atentos para o que está ao redor. Indignação. Uma possibilidade de atravessar o tempo. Tempo-hoje, cotidiano, que está sempre correndo, inconformado. Tempo que transita no ir e vir, onisciente. Tempo que limita o ser humano entre o naser e a morte. Vida que "pulsa em hiatos". Morte que "não é daltônica". Crença na eternidade que tem como "passaporte" o verso. "Verso / a burilar os homens". Vers-soco-no-estômago. Verso-arte. Arte que aproxima o artista de Deus, por participar "ainda mais claramente do Poder Criador do Pai", como disse Dom Hélder Câmara, em "O deserto é fértil". Mas se o poeta está sentado à "sombra de Deus", seria mesmo, para o autor, uma "inútil tentativa / de ser Deus por um minuto"? Luiz Otávio Oliani faz sua "oferta de palavras / e não de peixes". Impregnadas de poiesis, fortes e concisas, as palavras saltam dos versos, sacudindo o leitor: "a eternidade tem pressa / enquanto o homem // nunca sabe esperar", mas" quem se indigna / diante de quem sangra?","carpediem / enquanto há tempo / os coveiros nem se importam / em repetir o seu ofício". Até a sensualidade tem"efêmero prazer / fundido em pedra". Mas é tarefa difícil desfazer/ a mó de pedra".

A poesia deve ser alinhavo, sem pontos definitivos, pronta para novas costuras interpretativas. Assim, "Fora de órbita" convida a uma viagem em torno da palavra, percorrendo o universo de signos e significados. Uma obra rica, digna de atravessar os próximos séculos."

Teresa Drummond

 

 

Jaula

Astrid Cabral

"O bestiário da Astrid Cabral começa singelamente nesta declaração de princípios: "o bicho é meu amigo." Pois é pelo reatamento da amizade com os bois, a onça, o cavalo marinho, a ararajuba, transfigurados em sua sedução e seu mistério pela imaginação lírica, que vamos reencontrar nossa animalidade, resgatar nosso pertencimento à natureza. O que se mostra decisivo para a celebração de um novo contrato natural, numa época de grandes devastações. Os versos de Jaula trabalham pela liberdade e o respeito aos animais, remetendo-nos ao encatamento que em outras eras unia homens e bestas num só teerritório mitopoético."

Jair Ferreira dos Santos

 

O Terceiro Jardim

Marcia Cavendish Wanderley

"Antes ser tamarineira". É com essa aparente simplicidade que a poesia de Márcia Cavendish Wanderley tece sua teia de versos originais e inesperados. Há neles uma visitação ao passado, segundo um álbum de lugares, rostos, leituras, mas é pelo devir, pelo desejo de ser ou ter sido outra coisa que seus poemas pousam no presente, para nos seduzir com apelos aos sentidos, à imaginação do tempo, à ambigüidade entre usufruto e perda. "

Jair Ferreira dos Santos

 

A Duna Intacta

Maria Dolores Wanderley

Por contar com um talento poético genuíno, Maria Dolores Wanderley conseguiu extrair grande poesia do amálgama dessas matérias tão avessas como os elementos do mais puro lirismo (a areia, o vento, a luz, o tempo), e o reconhecimento, moderníssimo, de todo o anti-lirismo de nossos tempos difíceis.

Não há como não manter corações e mentes abertos para esta que vem se tornando uma das mais interessantes alquimias poéticas desta hora.

Carlito Azevedo

 

Sol Sobre o dilívio

Helena Ortiz

"Econômica no dizer, pungente no sentir, competente ao transmitir: três qualidades marcantes desta poeta que se reafirma aqui em linguagem inconfundível e unidade expressiva integrada de voz, características exclusivas de poetas prontos. Com este livro, no meu entender, Helena Ortiz ingressa definitivamente na categoria de poeta de nascimiento sin poder remediarlo."

Márcia Canvedish Wanderley

 

Contramão

Alcir Henrique da Costa

" Mais de vinte anos depois, Alcir Henrique ressurge literariamente com esses primorosos contos de Contramão. De imediato há de se notar que agora o apuro artesanal chega a tal ponto, que dir-se-ia desenhar agudas, bem lapidadas arestas de um reto-diamante, construído não somente na luz, mas também em muita sombra, delírio e pesadelo. Os diálogos se mostram exemplares e o livro revela uma unidade estilística que impressionou a todos os que puderam ler de primeira mão, como foi o caso do poeta Álvaro Mendes, entusiasta da obra. Ao lado do esmero formal, os temas das narrativas são bastante variados, o que torna o livro vivo, surpreendente, bom de ler. "

Afonso Henriques Neto


 

Campo de pouso

Joana Maria Guimarães

A Poética do Silêncio

Igor Fagundes*

Após algumas passagens por coletâneas de literatura, Joana Maria Guimarães, com seu primeiro livro solo, Campo de Pouso, finalmente aterrissa no flutuante cenário da poesia brasileira contemporânea. Se, em outra ocasião, foi Cecília Meireles quem nos lembrou que as palavras voam / às vezes pousam, hoje é Joana Maria quem nos prova que as palavras permanecem a voar, mesmo quando em pouso.

No campo de vôo das páginas, tudo é movimento: do título dos poemas, em geral reticente e sugestivo, ao último verso de cada um deles (quando a autora, fazendo uso de cortes lancinantes de efeito, busca dar continuidade e alargamento semântico ao que poetiza, por meio da valorização do não escrito), como em “Sanatório”: da memória salta o rosto: / olhar liso /riso oblíquo / é o irmão / a dar adeus atrás / das trincheiras.

Poder-se-ia dizer que a fanopéia de Joana Maria Guimarães (conforme classificaria Ezra Pound, autor epigrafado no livro, o verso imagético) é um convite a uma poética do silêncio, para além das imagens apontadas pela palavra. Avessa ao jogo pelo jogo, a autora cultiva uma poesia não derramada, enxuta e predominantemente visual, assim sugerida já no primeiro poema do livro, “O engenheiro”, em que faz uma não gratuita alusão ao poeta João Cabral de Melo Neto: constrói o poema / de carnadura mineral / diz um canto / lavado.

Como se em pintura, a dialética entre verbo e silêncio de Joana Maria se assemelha a pinceladas de luz e sombra, figura e fundo, embora no poema, a imagem esteja sempre por se construir. O poema é um ser vivo e, como tal, a cada dia/releitura se faz outro e de um outro prescinde para se manter vivo: o leitor. E para incorporar, no subliminar do discurso, a voz destes que almejam se escrever no que lêem, a escritora não apenas dá chance e brilho ao mutismo, como também preferência ao verso referencial (em terceira pessoa), ainda que reserve um bloco inteiro para a conjugação de um eu, no caso, não particular, mas plural: sei somente das vozes / pelas esquinas do meu corpo.

Que o leitor não a acuse, contudo, de zelar por uma pasteurização poética, comum entre os plástico-minimalistas do verso e influenciada pelo viés construtivista-racionalista, abastecido primordialmente em João Cabral: Joana Maria Guimarães conserva a delicadeza do lirismo na contenção substantiva (um céu sem nuvens / onde me deixo estar / corpo ancorado em azuis), a emotividade na fotografia do cotidiano (ficar à porta / da Catedral é o seu desejo / permanecer ali: /mendiga), a musicalidade no verso branco e livre (que o filho venha / com o cheiro de mato / ruído das ruas / riso dos loucos), sem que cante em tom confessional.

Na busca por um timbre próprio, a poeta viabiliza uma fala jamais neobarroca ou neo-simbolista acerca do divino, dado seu compromisso (de algum modo, cabralista não ortodoxo) de trabalhar pela coisificação do imaterial e humanização da coisa, conforme prega também a poética de Rilke – autor, não por acaso, da primeira epígrafe do livro. Em “Sobre todas as coisas”, Joana Maria, à semelhança de águas / ao sopro de navios / ao Teu sol se abre. E, até quando em diálogo com a morte, é capaz de voar em territórios solares e livres de um romantismo anacrônico, fazendo-se pousar na leveza de um “Lá” (onde não mais se aprende / ainda seremos estrangeiros) ou na criatividade de um “Arcano XIII” (palavras alçam vôo / vão /aonde papoulas não fenecem).

Se a transgressão da linguagem deu-se, ao longo da História Literária, ora pelo tempo, ora pelo espaço, o escrito aqui, em consonância com a pós-modernidade, desfaz os limites entre espaço e tempo (em descompasso alguém / engole dia a dia / a massa espessa dos minutos), tornando transversais o horizontal e o vertical da travessia humana (em desafio à rotina /na parede /o relógio parado).

Em Campo de Pouso, o onde e o quando se subvertem mutuamente e, por isso, ainda que invocado, o passado é apenas um contraponto (e não o foco) para se versar o presente – ambos elementos de um mesmo espaço chamado casa ou corpo, casa e corpo, o dentro e o fora do homem em sincronia com o antes e o depois: seu tempo é agora / deseja desfrutá-lo sem receio / olhar atento / navega ao largo.

Ao permeabilizar essas fronteiras, Joana Maria permeia-se de outras vozes (penetram a pele / impelem à escrita), de agora e ontem, entre os quais se citam Augusto Sérgio Bastos, Dora Locatelli, Ferreira Gullar e Luiz Otávio Oliani, e mais algumas eternamente presentes em nossa memória: Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Ezra Pound, Gaston Bachelard, Hilda Hilst, João Guimarães Rosa e Nicolas Guillén.

Nossa poeta-aprendiz (como prefere ser chamada e como são, na verdade, todos os artesãos da palavra) sabe que seu campo de pouso não se limita a estas páginas e nos deixa ansiosos por novos vôos. Por ora, bebo à beleza de seus versos / ciosamente guardo o marfim /na concha de minhas mãos /vazias. Peço mais. E parafraseando os versos rilkeanos transcritos no livro, respondo-lhe sem qualquer favor: Que faço, poeta? Eu te celebro.

Igor Fagundes é poeta, dramaturgo, jornalista graduado em
Comunicação Social pela UFF, mestrando em Poética
na UFRJ e autor dos livros Transversais (2000),
Sete mil tijolos e uma parede inacabada (2004)
e Por uma gênese do horizonte (2006).

 

 

Sete mil tijolos e uma parede inacabada

Igor Fagundes

"Igor Fagundes abre as portas de sua casa em construção e nos convida a contemplar os jardins suspensos, a forma dos corredores inacabados e as janelas que dão para outro tempo e espaço, por onde se move o ainda-não. Livros. Sonhos. Tijolos. Palavras. A poesia de Igor se ressente de uma estranha alegria de viver. Não terminar a casa talvez represente uma vontade de futuro e de transformação, um apelo, uma demanda de coisas secretas e indefiníveis que só um percurso de silêncio, e mais silêncio, e mais e mais, poderá deslindar dos vários materiais e palavras. Uma casa por dizer. E habitar".

Marco Lucchesi (poeta, tradutor e doutor em Teoria Literária)

 

Invenção de Eurídice

Iracema Macedo

Este livro é notícia de uma travessia existencial, amorosa. Adotando uma linha órfica e reunindo suas fontes nordestinas, solares e dionisíacas, às vivências mineiras, lunares e órficas, aqui está o dilaceramento lírico, sem o qual a poesia não se derrama nem se condensa.

Affonso Romano de Sant'Anna

 

Sete Vozes

Coletânea de poemas
Org. Helena Ortiz

"Sete vozes é uma boa surpresa no campo das edições de antologias de escritoras que aos poucos vão tecendo a rede de um novo cânone literário feminino brasileiro. Todas as sete trabalharam e a maioria já coleciona prêmios e obras publicadas.

O que impressiona neste livro é a incidência de certos motivos que dizem muito da poesia de mulheres do início deste século XXI e que caracterizam o contexto de sua escrita, de um modo geral erótica, emotiva, autobiográfica e carregada de uma preocupação existencial, buscando uma definição para seus atos e escolhas na vida. Estes não são isentos de contradições, como tudo que é novo, ousado e independente neste universo feminino agora autônomo com relação ao autoritarismo e à orientação da sociedade patriarcal, que ficou para trás."

Luiza Lobo

 

Mar Espesso

Maria Dolores Wanderley

Pablo Neruda no poema "Enigma": Perguntaste-me que fia o crustáceo entre as suas patas de ouro e eu vos respondo: O mar o sabe. E foi justamente em alto Mar Espesso com seus encantos e mistérios (todo encanto é um mistério mas raríssimos mistérios têm encantos) que a poeta Maria Dolores Wanderley decidiu mudar, sair da rota da sonolenta poesia brasileira, afogou a solidão, matéria prima de 9 entre 10 falsos poetas, confessou e cantou o amor, o amor sem limites, o amor compartilhado que nada tem de submisso, o amor que não permite sequer a possibilidade da trsiteza, da derrota como você comprovará no poema "Canção": Quando ia dizer-te/ do meu amor cativo/ pássaros voaram/ do meu coração/ Quando ia confessar-me/ inadequada para viver/ uma feroz infelicidade/ me porcorreu.

Luiz Horácio Rodrigues
jornalista

 

Tinto

Nilzanira Reyes

"Ao apresentar aos leitores o livro de estréia de Nilzanira Reyes, Tinto, a Editora da Palavra dá mais um passo na direção do que considera fundamental em poesia: primeiro a expressão de uma voz original, a sua percepção do real, depois a tradução do sentimento, procura minuciosa das palavras, o trabalho, o respeito ao tempo em que o poema repousa, não sem cuidado, não sem um trabalho paciente e persistente, até que passe a existir, natural, como se tivesse nascido pronto.

A poesia de Nilzanira Reyes é fruto desse trabalho e da observação do mundo em que vive, não para julgar ou posicionar-se, mas para humanizá-lo com delicada compaixão. A força da memória está presente na maioria dos poemas, já que 'Toda poesia nasce da devoção das lembranças', conforme Heidegger.

Estão presentes também devoção e amor, esse em primeiro lugar, porque é nesse universo que a autora se coloca, sem nenhuma pretensão, apenas porque ocupa um lugar destinado.

Enquanto isso, vive e escreve como quem degusta."

As Editoras

 

Em Par

Helena Ortiz

"Com Em Par, de Helena Ortiz, nasce a Editora da Palavra, dando continuidade a uma utopia para o século XXI, que levou a poesia ao palco, criou um jornal para divulgá-la e agora passa a registrá-la em livros. A Editora da Palavra, exercendo o direito à diferença, apresenta-se aos autores e leitores com um diferencial que não é novo; um diferencial simples porém raro: nós gostamos de livros."

Os Editores

 

Olhar descalço

Paula Padilha

"Em seu livro de estréia, Paula Padilha realiza uma aparente viagem aérea, na medida em que divide a obra em três partes: 'Pouso', 'Decolagem', e 'Vôo'. Por um lado, podemos dizer que sua poesia é grave, produzida por ondas densas e discretas. Por outro, temos a sua cosmovisão do fazer poético indicando-nos que as palavras constróem a tensão de um arco cujas extremidades estão arraigadas na terra firme, no real visto sem camuflagem - visto por um olhar descalço. Não há excessos: a linguagem é econômica e precisa, apesar de densa em efeitos líricos, como metáforas muito adequadas e uma sonoridade que enleva o leitor. Essa necessidade de buscar a essência do fato lírico demanda certa paciência e persistência, mas todo o livro indica que Paula Padilha acaba por ser tocada pela tempestade que é necessária ao poeta enfrentar antes do 'raio afiado tocar a nuvem' e dar origem aos poemas, momento em que se registra o "estado de susto" ."

Rita Moutinho

 

 

 
 
 
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