Edição 61 – mês de novembro de 2006 – e o ano quase passou, enquanto nos debatemos entre trabalho, expectativas e utopias. Com mais ou menos humor. Com mais ou menos paciência. Já há um ano aguardando que a burocracia pare de entravar projetos que anseiam por se concretizar, que são viáveis e têm tudo para se tornarem mais um estímulo aos novos escritores, além de servirem para divulgação da nossa grande poesia.

 

 
 

Tentativa

Paulo Rogério Diniz

Quatro narrativas atrás ou adiante perceberam e se tornaram inúteis, acompanharam e ficaram sórdidos, uma estupidez.

E assim, no meio desta coisa toda e, parcialmente estranhos, olharam aquele relógio parado, há trinta anos naquela parede azul ao lado da cortina escura de veludo grená, oito horas, manhã gelada, ano passado, por aqui mesmo.

 

 

Assim ficou melhor pra todo mundo

Wander Pirolli

Um mulato enxuto fazia a linha de ônibus aqui do bairro. Tinha o cabelo de brilhantina, bigodinho, um dente de ouro e os lábios rasgados. Simpatizava com ele. Sentava sempre na frente. Volta e meia virava e sorria pra mim com seu bigodinho e aquela boca. Logo a gente começou a conversar. Ele falava e ria com seu dente de ouro. Às vezes eu ia até o ponto final. Comprava pra mim laranja na bitaca, me deu um pacote de bala, me contou que era casado, tinha três filhos. A menina mais velha combinava com minha idade. Um dia ele largou o serviço mais cedo, tava quase escurecendo, e foi andando na frente e eu atrás. A gente não tinha combinado nada. Só falou a hora que ia sair da garagem. E eu tava lá esperando. Olhou pra mim com aquela boca rasgada e o bigodinho fino e foi andando. Vi o jornal dobrado no bolso dele e sabia para o que era. Sabia, sim. Quando chegamos no campo de futebol, ficou parado. Acho que ele tava com um pouco de receio por causa dos meus catorze anos, ou talvez por causa de pai, que era conhecido dele. Aí eu entrei na frente, segui a trilha e deitei na grama e falei "vem logo". Ele se chamava Davidson, um nome engraçado, me fazia rir.


Afonso Felix de Sousa: um poeta aos pés de Deus
(1925-2002)

"Aqui estou, um pássaro exilado’ é o primeiro verso do primeiro poema do primeiro livro de Afonso Felix de Sousa e já sinaliza, de certa forma, as três grandes direções que sua poesia iria perseguir. De um lado o ‘estar aqui’ sublinha o pertencimento a um espaço; de outro o ‘pássaro’ é símbolo e repositório imemorial do lirismo; finalmente o ‘exílio’ aponta a perda ou a fratura de uma unidade primordial, que apenas a fé na transcendência promete recompor. Telúrica, lírica e mística ? assim é a poesia de Afonso Felix de Sousa. A terra, a mulher e o divino formam o eixo em torno do qual gira a criação de Afonso.”

(Antonio Carlos Secchin. “A poesia de Afonso Felix de Sousa”. In: Antonio Carlos Secchin. Escritos sobre poesia & alguma ficção. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003)


poesia sempre

poemas de

Lúcia Fonseca

Alphonsus de Guimaraens . Augusto Sérgio Bastos
Mário Quintana . Vania Azamor

Bruno Serrano . Jorge Montealegre . Sergio Rodríguez Saavedra
Mario García . Sergio Ojeda

poesia

PELOS MAIS SIMPLES GESTOS, AGRADEÇO A DEUS

uma crônica de Dona Leonor

Acordo, às vezes, com vontades que nem te conto. Se o sol ainda não raiou, tenho ímpetos de tomar uma chuveirada de água fria. É ótimo para reorganizar o esqueleto. Aí, dou umas sacudidelas, solto uns guinchos e desando a rir sozinha de pura satisfação de mim com a boba que eu sou.

Depois, comadre, abro a porta dos fundos e o primeiro espectro de luz adentra pelos azulejos da cozinha com a solenidade de uma noiva. As rolinhas já estão esperando lá fora e lhes atiro a rapa de arroz que sobrou da janta. Expeditas, ligeirinhas, amontoam-se umas sobre as outras na disputa pelos grãos.

 

mais crônica

A SUPOSTA INFERIORIDADE

Joaquim Branco

CAMUS, Albert. O avesso e o direito.
Trad.Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro.
Editora Record.


“Eu vivia na adversidade, mas, também, numa espécie de gozo. Sentia em mim forças infinitas: bastava, apenas, encontrar seu ponto de aplicação. Não era a miséria que colocava barreiras a essas forças: na África, o mar e o sol nada custam. A barreira está mais nos preconceitos ou na burrice”.


Há certos artigos, poemas e trechos de livros que gostaríamos que todo mundo lesse, e nessa vontade às vezes os levamos aos amigos mais interessados.
Um desses textos que sempre me vêm à mente intitula-se “Sobre o óbvio”, e foi escrito por Darcy Ribeiro na revista Civilização Brasileira no final dos 70. Nele, Darcy dá uma aula de inteligência e massacra a velha tirania dominante que coloca a nós, sul-americanos, mestiços e descendentes de portugueses, como supostamente inferiores aos nobres habitantes do hemisfério norte. Nosso antropólogo comenta e desmoraliza a balela de que, se tivéssemos sido colonizados por ingleses, alemães ou outra raça “superior”, estaríamos hoje em pé de igualdade com os norte-americanos.

 

crítica

A POESIA DE LUIS BACELLAR

"Se o Brasil não fosse um arquipélago cultural, todos certamente conheceriam a poesia do amazonense Luis Bacellar.

Nascido em 1928, Luiz Bacellar cresceu na Manaus da decadência, da vida provinciana acanhada e retrógrada, da falta de perspectivas para a juventude.  A inexistência de uma universidade ( contava-se apenas com  faculdade de agronomia e  de direito) levava ao êxodo grande número de jovens cujas vocações não se coadunavam com  a oferta restrita e que muitas vezes acabavam se radicando em outras paragens ao concluir a formação profissional.  Por sorte, Luis Bacellar, ainda adolescente (dos 11 aos 17 anos)  cursou o Colégio São Bento  em São Paulo,  além de mais tarde permanecer  quatro anos no Rio de Janeiro como bolsista  do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Tais temporadas  certamente contribuíram para suprir a falta de contato com a literatura que se produzia nos grandes centros. Outro fator relevante na promoção do  necessário intercâmbio com a vida cultural do  resto da nação, foram  as duas caravanas de jovens escritores amazonenses, viajando ao Sul do país em 1951 e  ao Norte e Nordeste em 53.  Valendo-se de todos os tipos de transporte e abertos à aventura e aos conhecimentos, o grupo travou contatos  fecundos e decisivos com a juventude de outros estados. As conseqüências não tardaram."

 

Astrid Cabral

“Três séculos se passaram desde a partida de Bashô, e o desafio do reencontro e conciliação do ser humano com sua essência e o eterno persistem. Luiz Bacellar faz parte dessa linhagem de poetas comprometidos com a revelação dos mistérios do mundo, com a essencialidade das coisas e dos seres. Tendo na musicalidade uma de suas marcas definidoras, sua poesia é prenhe de imagens, de ressonâncias filosóficas e espirituais.  A acuidade no tratamento dos temas e apuro da linguagem  são expressivos da excelência do seu fazer poético.”

(Tenório Telles
Professor de literatura brasileira e ensaísta)

 

 
 
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