2007 em punho, eis o panorama da palavra levando a sua luta, à maneira dos que não querem a guerra, mas vivem no fogo cruzado, sabendo que de uma hora para outra a vida tomará outro rumo. Quando, ninguém sabe, e nós ainda menos, porque nos ocupamos de uma atividade já quase em extinção. Desenvolvemos, como está na moda, um projeto social do qual nem os jornais se ocupam, mas que é, ainda que para esses poucos que não são tão poucos, (apenas não contemplados) uma razão maior de existir e compreender o ponto a que chegamos. Tanta cultura, tanta civilização, tanta tecnologia a nos pegar agora acuados, barbarizados pela desorganização e pelo desinteresse público. Reféns em nossas próprias casas resta-nos a escrita e o pensamento, que do resto não somos mais donos.


Tintanueva Ediciones informa de la tercera emisión del Festival Latinoamericano de Poesía Ser al fin una palabra… que se realizará en la ciudad de México del 19 al 23 de marzo y cuya finalidad primordial es nutrir la vida cultural y propiciar la continuidad del quehacer literario en Latinoamérica con motivo de la celebración del día internacional de la poesía decretado por la UNESCO el 21 de marzo.

 

 
 

Um cinturão

Graciliano Ramos

As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.

Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio à minha mãe. O culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.

Augusto dos Anjos: um poeta moderno - (1884-1914)

Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, nasceu em 20 de abril de 1884, no Engenho Pau d’Arco, Vila do Espírito Santo, Estado da Paraíba. Filho do advogado Alexandre Rodrigues dos Anjos e Dona Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos.
Até os 24 anos, Augusto dos Anjos viveu praticamente no engenho onde nasceu, propriedade dos pais, que se veriam na necessidade de vendê-la, para pagamento de dívidas. Este é um dos aspectos marcantes de sua biografia: a ruína financeira da família. Tratava-se, ao mesmo tempo, de tragédia pessoal e de sintoma da crise geral da lavoura açucareira nordestina e da economia rural brasileira.

Augusto Sérgio Bastos
23/10/2006

“Na obra de Augusto dos Anjos aparecem, não de maneira eventual, e sim como elemento constitutivo de sua linguagem, alguns traços que caracterizam a nova poesia, a que se convencionou chamar de poesia moderna [...]"

(Ferreira Gullar. “Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”. In: Anjos,
Augusto dos. Toda a poesia: Augusto dos Anjos. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1995.)

poesia sempre

poemas de

Micheliny Verunschk . Alencar e Silva
Angelica Santa Olaya . Adriano Espínola

Luiz Otávio Oliani . Gilberto Nable
Lenilde Freitas . Zila Mamede

Elizabeth Bishop . Joaquim Cardozo . Mario Benedetti
Augusto Sérgio Bastos . Joana Maria Guimarães

Oito poetas chilenos contemporâneos (Seleção, tradução e notas biobibliográficas:
Cristiane Grando) - Nicanor Parra . Gonzalo Rojas . Armando Uribe . Óscar Hahn . Raúl Zurita . Armando Roa Vial . Javier Bello . Alexis Castillo


poesia

A LUZ DO ENTENDIMENTO SÓ ACENDE NO FINAL

uma crônica de Dona Leonor

Todo final é redondo”, li certa vez numa poesia de não sei quem e exultei com essa observação, apenas porque parecia demais comigo. Não é que esteja gorda. Nem tenho tendência a engordar. Mas a verdade é que estou redonda, minha vida faz sentido pra mim, vivo a idade da síntese.

Longe de mim afirmar que tudo se transformou num mar de rosas, que desconheço problemas, que o que vem eu traço fácil. Muito pelo contrário! Se descuido, a vida chupa até meus ossinhos, sem dó nem piedade, que a vida é má mesmo, injusta, e por mais que a gente se empenhe o final não é redondo, como diz o poema, mas espinhoso, cheio de ingratidões e desencantos.


 

mais crônica

A SUPOSTA INFERIORIDADE

Joaquim Branco

CAMUS, Albert. O avesso e o direito.
Trad.Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro.
Editora Record.


“Eu vivia na adversidade, mas, também, numa espécie de gozo. Sentia em mim forças infinitas: bastava, apenas, encontrar seu ponto de aplicação. Não era a miséria que colocava barreiras a essas forças: na África, o mar e o sol nada custam. A barreira está mais nos preconceitos ou na burrice”.


Há certos artigos, poemas e trechos de livros que gostaríamos que todo mundo lesse, e nessa vontade às vezes os levamos aos amigos mais interessados.
Um desses textos que sempre me vêm à mente intitula-se “Sobre o óbvio”, e foi escrito por Darcy Ribeiro na revista Civilização Brasileira no final dos 70. Nele, Darcy dá uma aula de inteligência e massacra a velha tirania dominante que coloca a nós, sul-americanos, mestiços e descendentes de portugueses, como supostamente inferiores aos nobres habitantes do hemisfério norte. Nosso antropólogo comenta e desmoraliza a balela de que, se tivéssemos sido colonizados por ingleses, alemães ou outra raça “superior”, estaríamos hoje em pé de igualdade com os norte-americanos.

 

crítica

Tanussi Cardoso

"Da geração de poetas que cultivam a poesia desde a década de 70, Tanussi Cardoso é um dos mais atuantes. Vem do tempo em que (ainda mais do que hoje), era preciso lutar muito, correr aos bares, portas de teatro e praças públicas numa verdadeira guerrilha de afirmação do verso. Seu livro, Beco com saídas, de 1991, traz uma rascante visão do cotidiano firmada na ironia, no sarcasmo e, sobretudo, numa lírica enxuta e visceral.

Já neste Viagem em torno de, Tanussi Cardoso muda o tom. O que antes fora oswaldianamente irônico, vira elegíaco; o que era o circo da paixão fica solene, reflexivo. É o poeta diante do nada. Frente ao semblante da morte e seu olhar inconfundível."

Salgado Maranhão

"Refletindo sobre a morte, Tanussi faz um belo balanço da vida, com verdade, pungência, consciência e lucidez. Conhecendo a obra de Tanussi, acompanhada desde o seu início, eu diria que, basicamente, a diferença deste livro para os anteriores é a linguagem. Não tanto a forma, mas a maneira de dizer, sua ars-poética tem uma dicção diferente. Nos livros anteriores o poeta estranhava e se assombrava diante da vida e dos fatos. "

Olga Savary

"Exercício do olhar é o retrato sincero de um poeta demasiado livre, comprometido com a vida, do seu despertar até sua extinção, o que ajuda a compreender a recorrente abordagem da perda, presença constante em seu livro Viagem em trono de. Engana-se quem pensa tratar-se de um livro depressivo, pesado, rascante Longe disso, o verdadeiro poeta não faz gênero, tampouco precisa vestir personas na intenção de ora agradar esta, ora aquela tribo, ou, para ser mais “moderno”, abocanhar a fatia do mercado em moda."

Luiz Horácio Rodrigues

"Não tenho dúvidas em escrever que Tanussi Cardoso é o poeta que mais admiro atualmente no Rio de Janeiro. "

Gilberto Mendonça Teles

 

REFLEXÕES SOBRE O INCENTIVO À CULTURA

Helena Ortiz

Difícil escrever quando se tem de falar de uma mesma coisa que tem várias definições, mas chamemos cultura a parte ou o aspecto da vida coletiva relacionados à produção e transmissão de conhecimentos, à criação intelectual e artística.

Hoje em dia muitas pessoas vivem da chamada cultura. Poucas produzem a obra de arte, mas muitos vivem dela. O artista cria e ainda precisa saber vender-se, o que já não é uma arte, mas uma aptidão. Aquele que não tem aptidão apenas criará e não obterá retorno. Não se concretizará a segunda parte da criação, que é a comunicação. Por isso ele precisa de alguém que o faça – e aí vem a indústria.


 

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