Hundertswasser


Cansados de editoriais achamos melhor ocupar o espaço com o que é maior e mais necessário, que vocês já sabem que é a poesia.
Como nosso país tem um grande contingente populacional negro, predominantemente pobre, preferencialmente maltratado pelos poderes constituídos, aproveitamos a leitura de um livro organizado por Oswaldino Marques com a poesia dos Estados Unidos, que selecionou alguns poetas negros, para ocupar o espaço tradicionalmente destinado ao editorial. O livro, no entanto, não indica ano de publicação. É antigo e bom, com traduções de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Orígenes Lessa, Ribeiro Couto, Abgar Renault, Jorge de Lima, Machado de Assis e outros igualmente celebrados. Edições, literalmente, de Ouro.
Em época de eleições ou fora delas, o melhor é constribuir para a formação da consciência e se possível para o desenvolvimento de algum senso estético.
Agradecemos aos colaboradores pelo panorama possível, que alcança a 70a. edição.
E esperamos que tenham boas leituras.

Eu também canto a América

Langston Hughes
(Trad. de Orígenes Lessa)

Eu também canto a América.

Eu sou o irmão mais escuro.
Eles me mandam comer na cozinha
Quando chega visita,
Mas eu rio,
E como bem,
E vou crescendo.

Amanhã,
Eu me sentarei à mesa,
Quando houver visita.
Ninguém se atreverá
A me dizer:
"Vai comer na cozinha",
Dessa vez.

Além disso,
Eles verão como sou belo
E ficarão envergonhados.

Eu, também sou América.

 

 
 
 

LÉLIA COELHO FROTA
(1937-2010)

Lélia Coelho Frota, escritora, historiadora e crítica de arte, etnógrafa, museóloga, antropóloga e poeta, nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 11 de julho de 1937. Iniciou seus estudos no Colégio Jacobina, e os concluiu, em nível superior, com o curso de museologia na Universidade do Rio de Janeiro, UNIRIO.

É considerada uma das maiores especialistas em cultura popular que o Brasil já teve e como historiadora e crítica de arte possui inúmeros livros publicados, entre os quais destacam-se Mitopoética de 9 artistas brasileiros; Roberto Burle Marx; Guignard, arte e vida e Pequeno Dicionário da Arte do Povo Brasileiro. Foi diretora do Instituto Nacional de Folclore, do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro e presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Augusto Sérgio Bastos

 

[...] "Sua poesia é tributária de merecidas admirações, magistrais: de Cecília Meireles; de Murilo Mendes; de João Cabral de Melo Neto. Além de Carlos Drummond de Andrade [...]
Lélia Coelho Frota bebe das melhores fontes, desde sempre, desde as cantigas d'amor. É fora de dúvida que ela conhece a arte de versejar, além de outras artes. Todas as artes, de resto, as maiores e as menores, convocam o seu espírito inquieto. Poeta, Lélia encanta-se com as palavras, que maneja a bel prazer. Há mesmo uma ponta de deslumbramento na maneira como ela caça palavras raras, para lhes soprar novo hausto, ou dar-lhes colocação pessoal na ordem sintática. Malabarista, Lélia é lúdica: brinca, hábil e travessa; diverte-se, volteia: dançatriz, sempre na corda tensa da palavra. Nisto, como no mais, vem ajudada por sua boa formação literária, por sua abrangente cultura. [...]

[LARA RESENDE, Otto. Jóia sofrida (Prefácio). In: COELHO FROTA, Lélia. Menino deitado em alfa. São Paulo: Quiron; (Brasília): INL, 1978]



poesia sempre

poemas de

jacinto fábio corrêa | Augusto Sérgio Bastos | Adele Weber |
Lou Viana | Lina Tâmega Peixoto

Astrid Cabral | Izacyl Guimarães Ferreira | Emily Dickinson | Adelaide Crapsey
Countee Culler | Bento Nascimento | Lasana Lukata

 

poesia
 

VELOCIDADE DA PELE

Dona Leonor

Apalpo debaixo da saia a carne fremente entre as coxas. Estou velha, e tal nem Deus negocia. Tanto o amargor que quase recorri a promessas para recuperar a cútis de pétala de rosas. Mas não. E pensei nas vadias louras da televisão, nas cirurgias plásticas e demais procedimentos que tornam qualquer velha numa boneca inflável. E pronto. Perderia minha pelanquinha.

Depois, fiquei com pena de mim. Não por envelhecer sem alternativas, mas porque me humilhava a impossibilidade de ser como as demais. Porque não sigo junto, nunca me filiei a hordas, nasci já desgarrada. Vai daí, a tristeza foi mudando.


mais conto

 

PRÊMIO NOBEL PARA O BRASIL?

Igor Fagundes

A morte do escritor português José Saramago e a Copa do Mundo de 2010 são dois acontecimentos recentes que, aparentemente desvinculados, se revelam oportunos para pensar a pergunta: O que falta para o Brasil ganhar o Prêmio Nobel?
Em entrevista a um programa de televisão dedicado a João Cabral de Melo Neto, no mês de maio deste ano, fui pego de surpresa com a indagação: O que falta? Depois das tentativas com Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e Jorge de Lima, João Cabral teria sido o escritor brasileiro que mais chegou perto da conquista. Por três vezes, a inteligência nacional e internacional cogitou o nome do poeta pernambucano.

 

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