capa de Gabriel Ortiz Voser sobre desenho de Cora Pelizzoni Voser


Guerra, terrorismo, psicopatas da política e do dia-a-dia, crises que mudam de cara e lugar, como a peste. A tudo assistimos. Mas é preciso correr contra o vento, remar contra a corrente, nadar, nadar, sobreviver como insurgentes sistemáticos para que a poesia, que se abre acima de tudo trazendo o que há de humano nesse momento histórico (sempre é histórico o dia em que nos percebemos fundamente, e nos expressamos) prevaleça.

O panorama teve um hiato de quase dois anos na rede, por razões operacionais, digamos assim, que é o que se diz quando não se consegue resolver problemas fora do nosso alcance, e volta, afinal ultrapassando a barreira dos 70, inaugurando outra fase de existência e possibilidades.

Acontecimentos, criações, nascimentos e mortes. E a poesia de ontem e de hoje, que tem por tema tudo isso, aqui está na palavra dos que a adotaram ou foram por ela adotados. Nosso papel é selecionar, mostrar as diferenças, trazer as impressões e também os testemunhos do que nos espanta, assusta até, alegra e se abre como flor, que é a inspiração. E que não nos abandone, ao escrever ou ler.

Esta edição deve agradecimentos especiais aos poetas Augusto Sérgio Bastos, Daniel Santos, companheiros de sempre, e ao também poeta Joaquim Antonio Emídio e à equipe do jornal O MIRANTE, de Santarém, Portugal, que possibilitaram a publicação do jornal.

Também a Izacyl Guimarães Ferreira, que se junta a nós a partir deste número e cuja colaboração é de grande importância para os que admiram o conhecimento, a sensibilidade e o domínio da técnica tanto na poesia como no texto crítico, a partir do olhar de quem vê e sente o mundo.


  Editorial  
 
 

Soneto, sonata e natureza morta

Izacyl Guimarães Ferreira

As três formas de arte do título tem muito em comum. Se em poesia o soneto é a forma que se erige em modelo de concisão, e ainda pede perfeição “sem exibir sua sonetice”, também assim as características da sonata em música e da natureza morta em pintura: são formas emblemáticas, nas quais o saber fazer separa os artistas dos diletantes, e em sua redondez dispensa acréscimos e desdobramentos.

ensaio

 

FORTUNA CRÍTICA DO LIVRO

“CASA DAS MÁQUINAS”,

de Alexandre Guarnieri (Editora da Palavra, RJ)
[ LANÇADO EM NOV/ 2011 ]

Não existe lirismo, na poética dessa Casa das máquinas, de Alexandre Guarnieri. Sua atitude estética é de um realismo essencialmente objetivo, e imediato. Situa-se num dos pontos extremos da vertente que se inaugura com The Rationale of verse (1848; A análise racional do verso), de Poe, passa por Baudelaire, pelo último Mallarmé e, para resumirmos esse itinerário, ilumina, na língua portuguesa, a fonte primordial d'O Livro de Césário Verde e se consolida, no Brasil, com João Cabral de Melo Neto. Mas Guarnieri tem ainda, entre suas peculiaridades, a de eleger um campo semântico exclusivo, o da paisagem industrial e sua parafernália. Nessa perspectiva, produz componentes poemáticos de pleno compromisso com o plástico e visual. Além de conceber seus poemas como blocos de escrita maciça e geometricamente delimitada (mas sem analogia com a experiência lúdica e imitativa de Apollinaire, entre outros), textos como “Uma lâmpada”, “Duas válvulas”, “Três engrenagens” são naturezas-mortas desse contexto estrito, onde os objetos posam ou agem, e interagem, sob os olhos atentos do artista que as reinventa, no mundo verbal e do espaço branco...

poeta da vez

 

MACHADO DE ASSIS: o Bruxo do Cosme Velho
(1839-1908)

Joaquim Maria Machado de Assis, jornalista, contista, cronista, romancista, teatrólogo, tradutor e poeta, nasceu no morro do Livramento, centro do Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839. Filho do mulato forro Francisco José de Assis, neto de escravos, pintor de paredes, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, portuguesa. O casal vivia como agregado à imensa chácara, que ocupava toda a colina, cuja rica proprietária, viúva de um senador do Império, viria ser sua madrinha e protetora na infância. Quando tinha seis anos, morreu a única irmã, durante uma epidemia de varíola. Aos dez perdeu a mãe, vítima de tuberculose. Cedo começou a exercer pequenos ofícios, como o de baleiro, com os quais teria ajudado nas despesas da casa. Em 1854, o pai casou-se novamente com a também mulata Maria Inês da Silva, que o criou com todo carinho. Em seguida, a família mudou-se para São Cristóvão, onde em 1864 Francisco José veio a falecer. Pouco mais se conhecendo de sua infância e início da adolescência, sabe-se apenas que era uma criança doentia, tímida e precoce, e que já sofria crises epileptiformes, certamente os primeiros sintomas do mal que o atormentou durante toda a vida. Sem meios para cursos regulares, estudou como pôde e, em 3 de outubro de 1854, publicou o primeiro trabalho literário, o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”, no Periódico dos Pobres.

Augusto Sérgio Bastos
26/05/2008

 

“No livro Ocidentais, que não teve edição autônoma mas foi incluído nas Poesias completas, estão coligidas as mais importantes e famosas composições de Machado de Assis: ‘A Carolina’, ‘Círculo vicioso, ‘Mosca azul’ e ‘Soneto de Natal’.

[...] Ocidentais é o maduro e definitivo livro de Machado: o seu testamento poético. Nele se encontram, além dos quatro poemas já destacados, as suas melhores criações. Machado demonstra, finalmente, haver atingido o domínio dos recursos poéticos disponíveis em sua época.

[...] Em Ocidentais e nos sonetos de ‘A derradeira injúria’ encontram-se, com certeza, versos que se inscreverão para sempre na história da poesia brasileira. A tarefa que se impõe aos poetas e críticos contemporâneos é a de resgatar e interpretar outros inúmeros poemas de Machado, ofuscados pelo crescente brilho do prosador inigualável de nossa literatura.

É possível afirmar que a influência da prosa atuou de duas maneiras na poesia de Machado. Uma, negativamente, enfraquecendo a voz do poeta lírico, devido ao uso abusivo de lugares comuns e clichês, que reduzem a tensão da linguagem. Outra, de maneira positiva, trazendo para a poesia uma consciência humanística, ainda válida nos dias de hoje, inclusive ao exercer uma função ética, para que a literatura não se perca apenas nos jogos fúteis das formas poéticas, autárquicas e vazias.”


[LEAL, Cláudio Murilo. Um poeta todo prosa. In: SECCHIN, Antonio Carlos; ALMEIDA, Mauricio Gomes de; SOUZA, Ronaldes de Melo e (Org.). Machado de Assis, uma revisão. Rio de Janeiro: In-Fólio. 1998.]



poesia sempre

poemas de


Paulo Henriques Britto | Joaquim Antonio Emidio | Raymond Carver | Dora Locatelli | Astrid Cabral | Jomard Muniz de Britto | Ângelo Alfonsín | Eunice Arruda | Elizeu Moreira Paranaguá | Joan Brossa | Pedro Du Bois | Emil de Castro | Álvaro Mendes | Myriam Fraga | Jeová Santana | Judith Herzberg | Ulla Hahn | Lou Viana | Lina Tâmega Peixoto

 

poesia
 

OUTRO BRINDE PARA ALICE

SÚrgio Faraco

No dia em que se decidiu levar Alice para Porto Alegre, meu pai se arreliou com o Doutor Brás e o chamou de embromador, quase deu umas trompadas nele. Coitado do doutor Brás. Que havia de fazer o doutor aqui na terra, se Deus, no céu, não favorecia?

Na camisinha de Alice, presa numa joana, cintilava uma relíquia do Santo Sepulcro pescada na quermesse do Divino. Rodeavam seu pescocinho dois escapulários, sendo um abençoado pelo bispo de Uruguaiana. E mais: desde semana mamãe amanhecia de joelhos sobre grãos de milho, implorando ao coração de Jesus entronizado que Ele desse uma demonstração, desse um sinal de que nem tudo estava perdido. E Ele nada. Alice já não se importava com os chocalhos, nem erguia o bracinho para as fitas cor-de-rosa do mosquiteiro. Na agitação da febre era preciso que ficasse sempre alguém à mão, do contrário era capaz e se enforcar no escapulário abençoado. As mamadeiras ela vomitava, não parava nada no estomagozinho dela. Já nem podia ficar sentada ou fazer cocô no peniquinho, por causa dos inchaços que a picada da agulha levantava na bundinha.

mais conto

 

PRATA DA CASA

Daniel Santos

Dia desses, dei de limpar a prataria. Abri o console da sala e fui tirando bandejas e baixelas; a maioria ainda embrulhada como presente de casamento, décadas atrás.

Só então me dei conta de que me queriam serva, gueixa, uma esposa cordata que não se importasse de massagear os pés do marido ao chegar do serviço, antes da janta.

Verdade que nunca fui dessas que se abespinham de indignação quando o homem, escarrapachado no sofá, lhes pede um copo d´água como senhor que põe e dispõe.

Se posso, pego. Entendo bem o dengo desses ogros que se preservam para, depois, retribuírem quando menos se espera. Podem ser inconvenientes, mas fazem uma falta!

Pensava nisso, enquanto a esponja de aço reavivava o brilho de outros tempos. Pensava em como o meu querido João Petra se refestelava na poltrona de vime do alpendre.

 

RITO DE PASSAGEM

Augusto Sérgio Bastos

 

Ritos de passagem para o mundo adulto são comuns em culturas primitivas. Entre nossos índios, algumas tribos obrigam o jovem ao isolamento, ao frio, sem comer nem beber, o corpo pintado de vermelho; a suportar mordidas de formigas ferozes; ou a enfrentar animais selvagens dando a estes chances de defesa, provando que são guerreiros caçadores e valorizam o inimigo. Mas algo inaceitável ocorre do outro lado do mundo, num outro país, longe da nossa terra de terceiro mundo.

mais crônica

 
 
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