Anéis de Saturno, foto da NASA.


Passadas as eleições, eis aqui novamente o panorama para dissipar qualquer dúvida de que a literatura é o único caminho para a salvação. Infelizmente não temos processo eletivo para votar nos melhores, mas podemos, por exemplo, fazer uma seleção deles (uma pequena seleção, face à quantidade de talentos), como a que se oferece nesta edição. Se houvesse eleição, com certeza seriam votados escritores de todos os rincões, sem que precisassem de campanhas. Ao contrário dos políticos, o escritor só se torna escritor a partir da sua obra. Já o político não precisa disso. Na literatura, a invenção se chama ficção; na política, é pura mentira.
Escritores de todos os estilos, com abordagens diferenciadas, em contextos diferentes, de origens várias, vivos ou mortos, aqui são acolhidos e amados.
Você leitor, que tem escritor ou livro preferido, colabore com o processo de seleção. E mais uma vez teremos certeza de que há escritores para todos.  Se A é maior que B, isso é só uma questão de opinião. Cada livro está destinado a um leitor. E um dia eles se encontrarão.
Agradecemos a participação dos colaboradores permanentes, sem os quais o panorama não seria tão abrangente: Augusto Sérgio Bastos, Daniel Santos, Izacyl Guimarães Ferreira, e a partir deste número Igor Fagundes.
Também ao poeta Joaquim Antonio Emídio, que à frente do jornal O MIRANTE disponibilizou sua equipe para a atualização do jornal. E a todos os poetas, neste mundo ou no outro, que nos surpreendem, deliciam, e sobretudo marcam para sempre nossas vidas.


  Editorial  
 
 

PALAVRA E SILÊNCIO NA POESIA DE ASTRID CABRAL

Lina Tâmega Peixoto

Transcrevo as palavras de Leo Spitzer ao iniciar o ensaio sobre “El conceptismo interior de Pedro Salinas”: “Es posible que el estudio que sigue sea leído com algún prejuicio: se trata de un poeta contemporáneo que, por añadidura, es um viejo amigo mio...” 1. Prossigo junto ao pensamento de Spitzer. Espero, “salir triunfante” da tarefa a que me proponho, por saber que, como ele, não confundo a admiração e a amizade que sinto por Astrid Cabral com sua extraordinária obra poética.

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DA POESIA COMO HABITAT

Igor Fagundes

Porque muito se fala sobre poesia, por cima da poesia, fora da poesia, já sem ela. Porque, falando sobre poesia, a muitas teorias se chega, mas quase nunca ao poético nas obras. Poema, música, dança, tudo capturado por alguma formulação, ciência, equação. Porque o pensar, tornado sinônimo de raciocinar no Ocidente, entendeu que arte não é pensamento e, por isso, necessita de algum, a priori, a posteriori, que a legitime, a autorize, a reconheça, a justifique, a fundamente, a deixe existir desde que com tal lugar definido, pré-definida lógica. Um papel, uma função, uma utilidade. Um porquê!

 

 

ensaio

 

A RAIZ DO TAMBOR

de Dora Figueira Locatelli (Editora da Palavra)
[ LANÇADO EM 2011 ]

Ingressa na poesia uma voz singular. O timbre afinado, o tratamento fino dado aos temas, a delicadeza de abordagem de objetos sob uma perspectiva sempre inventiva, todos os fatores somados ao peculiar misticismo engendrado pela poeta ao lidar com o cotidiano diferenciam seu modo de estar entre as pessoas e as coisas.

Dora Locatelli estréia com um livro de poemas intitulado A Raiz do Tambor. Não é propriamente uma estréia porque tarimbada em concursos com alguns dos poemas aqui reunidos, tendo lastro crítico no currículo, este chancelado por Afrânio Coutinho, mostrando que não é uma ingênua, uma artista intuitiva, mas alguém abalizada pela vivência intelectual, sem a perda do entrosamento emocional para a realização poética.
O livro pratica uma religação entre as coisas da terra, a fisis da construção poética da autora, com as coisas inefáveis, o som do tambor que se entranha aos demais objetos que constituem essa outra vida praticada por ela, que remonta sua relação com o mundo em novas releituras do que ele oferece e possibilita. Nisto está um ponto forte desta poesia. Ela amplia o que o mundo oferta, aponta o transcendente no iminente de cada coisa.

 

poeta da vez

 

José Paulo Paes

José Paulo Paes, poeta, tradutor, crítico literário, ensaísta, nasceu em Taquaritinga (SP), no dia 22 de julho de 1926. Estudou química industrial em Curitiba, onde iniciou sua atividade literária colaborando na revista Joaquim, dirigida por Dalton Trevisan. De volta a São Paulo, em 1949, trabalhou na Squibb, uma indústria farmacêutica, até o início dos anos 1960, quando foi para a Editora Cultrix, onde se aposentou, momento coincidente com a amputação da perna esquerda, em 1985. Sofria grave problema circulatório.

Sua estreia na poesia foi em 1947, com o volume O aluno, fortemente influenciado por Carlos Drummond de Andrade. A partir daí, trilhou o caminho modernista em busca da poesia condensada na forma do epigrama, e em alguns momentos, retomando a síntese formal e humorística de Oswald de Andrade. Em 1952, casou-se com Dora, a bailarina Dorinha Costa, sua companheira e musa por toda a vida, a quem dedicou seu segundo livro, Cúmplices. Em seguida vieram: Novas cartas chilenas, Meia palavra, A poesia está morta mas juro que não fui eu, A meu esmo, entre outros. Em 1986, toda sua obra poética foi reunida sob o título Um por todos. Com Socráticas, livro póstumo lançado em 2001, sua obra poética completou 14 publicações.

 

poesia sempre

poemas de


Izacyl Guimarães Ferreira | Lila Maia | Lígia Dabul | Lucia Fonseca | Luiz Bacellar | Mário Faustino | Iracema Macedo | Marize Castro | José Inácio Vieira de Melo | Maria do Rosário Pedreira | Emily Dickinson | Sophia de Mello Breyer Andresen | Gilka Machado | Daniel Farias | Hector Rosales

 

poesia
 

A ÚNICA VEZ

Victor Giudice
(in O MUSEU DARBOT E OUTROS MISTéRIOS - Leviatã Publicações, 1994)

Meu pai morreu há quarenta e quatro anos, no dia 30 de outubro de 1950. Estava beirando os sessenta. Todas as manhãs, ia para o trabalho num Ford cupé 1946, verde escuro, de duas portas, placa 22152. Nosso apartamento, em São Cristóvão, não tinha garagem e o carro dormia na rua. Meu pai se preocupava com a pintura: o sereno desbotava o verde escuro etc.
Mas isso tudo ficou lá.

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O TORCEDOR

Fausto Wolf
(in O homem e seu algoz, Bertrand Brasil, 1998)

Eduardo Marín é uruguaio. Tem 28 anos, mas parece ter mais de 50. As unhas dos pés e das mãos já quase não existem. Seu corpo está cheio de equimoses e queimaduras. Os dentes foram rebentados a golpes de cabo de fuzil. Eduardo Marín é virgem e já não lembra o rosto da única namorada que teve, nem dos pais e dos irmãos. Lembra do seu cachorro, talvez porque os detalhes não sejam tão importantes num animal. Sonha que à noite, nas poucas vezes que consegue adormecer, Capitão América vem lamber seus ferimentos. Dera esse nome ao cão quando ainda adolescente; antes de saber o que o Capitão América fazia com os pobres do Continente.

 

mais conto

 

ADÁGIO SEM TROMBETAS

Dona Leonor

Qualquer dia, me inscrevo nas aulas de tai-chi-chuan só de pirraça. Ando cansada dessa rotina veloz que me quer arisca e eficiente como se eu tivesse vocação para serva da modernidade. Meu tempo é meu, moço!

Quero-o na coleira com lealdade canina, escoando num prazeroso gerúndio como manteiga se derretendo sobre o pão quente de cada manhã. Do contrário, não interessa. De ansiedades e aflições, me fartei para sempre.

 

 

mais crônica

 
 
poeta da vez
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