A POESIA DE LÚCIA FONSECA

Invenções do silêncio

(Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1980)

livro

Desastre no canal

Os homens-rãs surgiram escuros e gotejantes,
um pouco de lodo na pele lisa.
Despiram as nadadeiras
e o olho de vidro,
marcas de sua realeza,
e se quedaram inermes e com frio.
Os homens-rãs chegaram de longe.
Lutaram com os ferros retorcidos,
com a porta empenada,
a água e a lama.
Mas dentro do carro só havia sombras,
rostos sem pressa e já nenhum grito.
Os transeuntes olham com respeito,
alguém lhes serve um copo de café.
Os homens-rãs olharam o avesso do espelho
e subiram mais sábios.
Agora, despido o equipamento,
retirada a armadura,
acham-se esguios e pálidos,
molhados e confundidos.



Presente


Já não te dou meu sorriso,
olha bem o que te dou:
dou-te o peso de um sorriso
depois que ele se apagou.

Já não te dou minha lágrima,
pensa bem no que te dou:
dou-te o caminho da lágrima
depois que o rosto secou.

Já nem te dou uma nuvem,
é mais leve o que te dou:
somente a sombra da nuvem
E o chão por onde passou.

Já não te dou meu agora,
pensa bem no que te dou:
dou-te o relógio de outrora
e a hora em que ele parou.

Já não te dou meu retrato,
olha bem o que te dou:
o retrato do retrato,
que atrás das lentes do tempo,
já quase que se apagou.


 


Cadernos de Geografia
(Ed. Mitavaí, Rio de Janeiro, 1985)


Oceanos (I)


Um último corpo vem dar à praia.
Carne lunar de peixe,
carne branca de afogado.
Um último brilho me acorda nessa noite
onde embarquei no vento de um presságio.
Um último corpo vem dar à praia.
E traz-me das ondas o cheiro da água – fechado segredo.
Golfinho branco, na carne alva
Traz mortas relíquias, traz versos calmos,
Traz versos mudos, veladas frases.
Miro seus olhos antigos cheios de algas,
miro seus olhos fechados cheios de luas guardadas,
onde se movem dois peixes claros.
Sob a pele sem prega, lisa,
que risos em sal dissolvera,
que sonho abrigara,
que amor se perdera, que ouro guardara?


Retrato em moldura oval

Juliana, onde andarão tuas pupilas,
viajando pelo tempo como dois faróis?
O sono alaga o pensamento, o sono
é mancha que se alarga, que se alastra
Juliana.
Onde andarão teus olhos rasos
à tona de um domingo
aflorado do tempo
de Júlias e Marianas?
E a mesa, com a faiança inglesa,
A escada, a clarabóia,
os anjos de porcelana.
Teus cabelos pretos ondulados,
as escovas de prata na penteadeira.
E esse veludo de cílios
Velando o olhar.
Penumbra de buço,
Penumbra de púbis
Entre as coxas brancas
Sob a lingerie de holanda.
Onde andarão teus olhos belos
Juliana?



Escola de Medicina – Salvador


Entre as ladeiras de pedra,
olhai o solar antigo:
o tempo escorreu seus dedos
por sobre o musgo dos muros,
colocou o seu casulo
nas órbitas das estátuas
cegas às asas futuras.
Pelas paredes das casas
traçou seu mapa de rugas,
olhai o solar e vede:
horas derrubando vigas,
horas trincando paredes,
pondo franjados de avencas
pelo bronze das estátuas,
entre tijolos e telhas;
trazendo a morte na vida
que explode por entre as pedras
nos leques das samambaias,
nas raízes de figueiras.
E chuvas pelas vidraças
baças de vento e poeira.
Rastejando nas ladeiras,
olhai a sombra dos homens,
olhai para nós e vede:
ficamos como as estátuas
cheios de limo por fora,
de líquens pelos cabelos,
e trazemos sobre os olhos
esse franjado de avencas,
essas flores entre os dedos.
Ficamos assim calados,
a chuva apagando os traços,
as pupilas desbotadas
gastas de dor e de tempo;
cheios de musgo por fora,
de morte e espanto por dentro.

 
 
 
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