Biografia

Luiz Otávio Oliani


Quisera agarrar os cabelos do tempo
sua cronologia própria
que subsiste reinando por séculos.

Quisera agarrar os cabelos do tempo
penetrando no íntimo das palavras
absorvidas pelo silêncio
e jamais ditas em vida.

Quisera agarrar os cabelos do tempo
decifrando enigmas,
revelando segredos
desconhecidos ao mundo.

Quisera, como quisera...
inda que o amanhã venha
trazendo consigo
a gastura dos ossos
porque o tempo é faca afiada
a devorar a physis
que se mostra em nós,
erva daninha
que lentamente
suga a essência do fruto
até o gomo apodrecer.


PERCURSO DA AUSÊNCIA

    Gilberto Nable
III

Para Abgar Renault

            Vejo-o ali,
frente ao muro escuro,
onde nascem escorpiões
e andorinhas.

Está ali,
descalço na rua luminosa,
sob o céu claro da infância.

Mas não sou eu.
Esse menino é um outro:
conhece trilhas, passarinhos,
e viu montanhas e lírios vermelhos.

(Nos ninhos de pedra,
as andorinhas sonham
com meninos distantes,
e doces libélulas.)

Arquivo cruel é a memória,
e nela estamos presos
como numa armadilha;

a ver por detrás das vidraças,
embaçadas pelo hálito,
as mesmas, eternas andorinhas,
mortas há trinta anos.


A Juana Ibarbourou

Lenilde Freitas

Não sofras quando me for
inúteis prantos e dores.
Aprenderei a escalar
os troncos e a retornar
na opulência das flores.



O Rio

 Zila Mamede

à Mauro Mota

Um rio há adormecido em cada infância,
rio seco ou de enchente, intempestivo
rio que não cresceu - riacho riba.
Mas o que conta em nós é mesmo o rio
correndo na memória com seu jeito
de rio, sua boca chã de rio,
a força de ser rio e ser caminho
de rio, noite assombração de rio,
chamado ser em oculto chão de rio,
ter os remorsos fluviais de rio
que afogou nas areias dois meninos
e de seu pranto fez nascer cacimbas.

 
 
 
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