NA MAIS COMUM DAS MANHÃS

                       Dora Locatelli

A mais comum
das manhãs cinzentas de chuva
e este desejo de paraíso
sem rosto sem hora e sem lugar.

O tempo corre mais rápido
mais que os rios para o mar
como esta enxurrada
para os bueiros.

Engana quem diz
da sabedoria colhida
nos maduros dias:
eu não conheço tal premiação.

O corpo pesa o chumbo do tempo.
Tenho todos os mapas desenhados
na geografia do rosto e das mãos.
Por estas marcas meu Pai me reconhecerá.

Mas hoje, o espírito é leve leve
e irrequieto como um infante.
É mais um anjo simplório.
O mais simplório
que um anjo poderia ser.

 

A POESIA ME PEDE A MÃO

Astrid Cabral

A poesia me pede a mão
sussurrando ao pé do ouvido:
pega caneta e folha. Tira
a roupa que te atrapalha.
Joga fora a máscara diária.
Vamos ao recôndito reino
lá pelas ínvias estradas
do soterrado labirinto
onde ardem tuas fogueiras
e tristes se amoitam sombras.
Liberta, vem desbravar
matas afundar em rios
penetrar grutas e estrelas.
Depois contempla o papel:
lá estarão em palavras
teus infernos e teus céus.

 

 

Por QUEM escreveremos poemas de amor?

                     Jomard Muniz de Britto

Qual a diferença entre a Boa Vista do
Recife e a Bela Vista de SãoPaulo?
Recantos familiares de igrejas, bares,
pensões e padarias. Entrelugares do ócio,
teatralidades e oficiosos negócios.
Além do simbólico, sua JANGAda nem partiu
pro mar nem desencantou nosso bem querer.
Todas as coisas AINDA estão cheias de
deidades que não (a)guardam nem
desesperam pela ressalva das palavras.
Para QUEM escreveríamos poemas d'amor?
Florbela Espanca e Fernando Pessoa
continuam TROCANDO OLHARES esquecidos
dos visgos do virtuosismo.
Boa Vista, Bela Vista: sem o azul do ar
sobrevoando azulejos em ruínas e mofos.
Pode ser mais fértil sair dos armários
da intelectualidade do que mendigar
versos simulados da beleza sublime.
Por que poetizar cidades-enigmas
reencantando corações solitários?
Poetas da sagração da primavera tremem
diante de Lady Gaga, enquanto renegamos
nossa mental e metálica gagueira.
Bela Vista, Boa Vista dos Beatles e
Aves Sangradas. Versos perVERtidos.
Cidades cheias de fome nos becos, mares,
avenidas, manguezais, oceanos, auroras
longe de João Cabral e Josué de Castro.
Por que , QUEM continuar escreVIVENDO
poemas de amor e indignação?
Tão inúteis quanto chupar picolé de
frutas cítricas e depois ir ao cinema
São Luiz libidinando em câmera alta.
Tudo já revisitado?
Entrelugares de fumaça, vapores,
paradas e tabloides para QUEM
confundir est'ética da crueldade
com narcisismo falocrático e ou
vômito dos egolombrismos.

 

 

 

 
 
 
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