Oito dias de nojo

Lucia Fonseca

O sol se levantou mais uma vez.
Procurei não pensar
que já te desfazias.
Afastei de mim os pensamentos – morcegos
que teimavam em voltar. Nuvens de moscas.
Mas como não pensar no corpo?
Dizei: como não pensar?

Aguardei a missa em silêncio.
Por uma semana, telegramas, visitas,
afastei-os todos,
morcegos que teimavam em voltar. Nuvens de moscas.
Agora é suportar a missa, os cumprimentos,
e depois abandonar essas escuras roupas de morte.
E só, vestido de linho branco,
pensar em ti em silêncio.
Não suportei.
Novamente abraços, choros, fugi.
Fugi, fugi, cego, fugi. Criança no fundo do quintal
escondida da colher de xarope. Silêncio de árvores altas,
anoitecia. Morcegos cegos.

Hoje amanhece uma vez mais sobre mim.
E sobre ti, ai, sobre o que resta de ti,
sobre tudo que não quero, não quero lembrar.
Os morcegos voltam ainda a cada dia. Será assim por muito tempo.
Afasto-os com as mãos. Nuvens de moscas.
Levanto os olhos para o céu
buscando ar.
É domingo.  A praia está cheia de gente, eu sei.
Em casa, na tua casa,
sobre a cama desfeita,
é inútil tanto azul.

 

NOTURNO DO BAIRRO DOS TOCOS

Luiz Bacellar

Há tanta angústia antiga em cada prédio!
Em cada pedra nua e gasta. E agora
em necessário pranto que demora
o amargo verso vem como remédio

pelos sonhos frustrados em cada hora
da ingaia infância. Madurando o tédio
nos becos turvos, porque exige e pede-o
inquieta solidão que assiste e mora

em cada tronco e raiz, calçada e muro:
Chora-Vintém, O-Pau-Não-Cessa. Impuro
se derrama um palor de lua morta

nas crinas tristes, no anguloso flanco:
memória e angústia fundem-se num branco
cavalo manco numa rua torta.

 

 

Balada
(em memória de um poeta suicida)

Mário Faustino

Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o facto
da Vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)

Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim.
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com

Tanta violência, mas tanta ternura!

 

 
 
 
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