Oito poetas chilenos contemporâneos

Seleção e tradução dos poemas:
Cristiane Grando

Agradecimentos a Leo Lobos.

Pai Nosso

Pai nosso que estás no céu
Cheio de toda classe de problemas
Com o cenho franzido
Como se fosses um homem vulgar e corrente
Não penses mais em nós.

Compreendemos que sofres
Porque não podes solucionar as coisas.
Sabemos que o Demônio não te deixa tranqüilo
Desconstruindo o que tu constróis.

Ele se ri de ti
Mas nós choramos contigo:
Não te preocupes de suas risadas diabólicas.

Pai nosso que estás onde estás
Rodeado de anjos desleais
Sinceramente: não sofras mais por nós
Tens que te dar conta
De que os deuses não são infalíveis
E que nós perdoamos tudo.


Nicanor Parra (Chillán, 1914)
(Anti-)poeta, matemático e professor universitário. Prêmio Municipal de Poesia (Santiago, 1937), Prêmio Nacional de Literatura 1969 e Prêmio Juan Rulfo de Poesia (México, 1991), entre outros. Publicou: Poemas e Antipoemas (1954), Obra gruesa (1969) e Artefactos (1972), entre outros.



Ao silêncio


Oh voz, única voz: todo o oco do mar,
todo o oco do mar não bastaria,
todo o oco do céu,
toda a cavidade da formosura
não bastaria para te conter,
e ainda que o homem calara e este mundo se fundira
oh majestade, tu nunca,
tu nunca cessarias de estar em todas as partes,
porque te sobra o tempo e o ser, única voz,
porque estás e não estás, e quase és meu Deus,
e quase és meu pai quando estou mais obscuro.

Gonzalo Rojas (Lebu, 1917)
Poeta, diplomata e professor universitário (EUA, Alemanha, Venezuela e Chile). Prêmio Nacional de Literatura 1992, Prêmio Reina Sofía de Poesia Ibero-americana, Madrid, 1992 e Prêmio Miguel de Cervantes 2003. Autor de La miseria del hombre (1948), Contra la muerte (1964), Materia de testamento (1988) e Oscuro y otros textos (1999), entre outros.



Vive; que não é o morrer o heroísmo
maior. É o viver com as feridas
toda a vida e mais todas as vidas
sangrando a cada dia no abismo
e poderia seguir mas dá no mesmo. 

Armando Uribe (Santiago de Chile)
Poeta, advogado, diplomata e professor universitário (Sorbonne-Paris e Chile). Publicou: Transeúnte pálido (1953), No hay lugar (1971), Odio lo que odio, rabio como rabio (1999) e Verso bruto (2002), La inquietante extrañez (livro de poesia e colagem, em co-autoria com Cecilia Echeverría), entre outros.


Nascimento do fantasma
Entrei no banheiro
coberto com o lençol de cima

Desenhei teu nome no espelho
brumoso pelo vapor da ducha

Saí do banheiro
e olhei nossa cama vazia

Então soprou um vento terrível
e voaram todas as linhas de minhas mãos
as mãos de meu corpo
e meu corpo inteiro ainda morno de ti

Agora sou o lençol ambulante
o fantasma recém-nascido
que te busca de dormitório em dormitório



Óscar Hahn
(Iquique, 1938)
Poeta, professor universitário (EUA). Autor de Esta rosa negra (1961), Arte de morir (com prólogo de Enrique Lihn, 1977), Mal de amor (com ilustrações de Mario Toral, 1981), Imágenes nucleares (1983), Versos robados (1995) e Antología virtual (1996), entre outros.

Escritos nas falésias

Verás um mar de pedras
Verás margaridas no mar
Verás um deus de fome
Verás a fome
Verás figuras como flores
Verás um deserto
Verás o mar no deserto
Verás teu ódio
Verás um país de sede
Verás falésias de águas
Verás nomes em fuga
Verás a sede
Verás amores em fuga
Verás o pouco amor
Verás flores como pedras
Verás seus olhos em fuga
Verás cumes
Verás margaridas nos cumes
Verás um dia branco
Verás que se vá
Verás não ver
E chorarás

* Escrito sobre as falésias da costa do norte do Chile. Longitude total: 1.500 metros.

Raúl Zurita (Santiago de Chile, 1951)
Poeta, diplomata, professor universitário. Bolsa Guggenheim 1981, Prêmio Nacional de Literatura 2000. Publicou: Purgatorio (1979), Anteparaíso (1982), La vida nueva (1994) e Poemas militantes (2000), entre outros.

Invocação a Georg Trakl

Te glosaram à morte
entre revelações e caídas.
Ninguém sabe a quem temias:
se ao amortalhado beijo da irmã
ou ao esquálido sussurro dos aldeões
que enterravam ao sol nas profundidades.
Salpicavas uma e outra vez
o barro desesperado da tua vida:
destruído o poema,
a palavra era só casca seca,
o gris escombro de um bosque
desgarrado do crepúsculo.
No país da loucura
tua memória revivia a intervalos
a vacuidade do desejo,
esse hóspede imóvel que cifrava
a tipografia do silêncio
entre cantos de aves e soluços de campesinos.
Nada corta tua obscuridade,
a conspiração de tanto fantasma
arranhando a paternidade das prostitutas
que suportavam o peso de tuas noites entre lençóis azuis.
O horror ao cadáver insepulto da linguagem,
a mordida de saber-se na palavra
enquanto a tarde emudecia num velho campanário
precipitou o fim; lembra-te bem: cocaína e veronal,
o bebedor solitário encolhido na sala de moribundos,
esperando a bendição de Helián,
sem desvanecer a guarda,
buscando afanosamente as negras águas do Leteo.

Armando Roa Vial (Santiago de Chile, 1966)
Poeta, ficcionista, crítico, tradutor e professor universitário. Prêmio Pablo Neruda e Prêmio Nacional de Crítica em Poesia. Autor de Hotel Céline (2003), El Apocalipsis de las Palabras (2001), Zarabanda de la Muerte Oscura (2000), Ezra Pound. Homenaje desde Chile (em co-autoria com Armando Uribe, 1995) e La invención de Chile (em co-autoria com Jorge Teillier, 1994), entre outros.

A jaula da sentença

Cuida-te das viagens, filho meu,
cuida-te das viagens e dos trens
e do balanço dos barcos na batalha do amanhecer.

Cuida-te dos trens
e da terra onde dança sepultada uma chama,
cuida-te dos barcos e dos fogos fátuos
como escondes teus joelhos do tormento da tempestade.

Nunca entenderás o recorrido dos animais
pelas calçadas e parques,
os animais maus que se devoram com veemência.
Nunca entenderás os olhos dos cachorros
que desaparecem após o silvo dos caçadores.
Não me digas que não tem visto
os animais negros que têm cara de anciões.
Não me digas que não tem visto
os cavalos cansados que cruzam com suas patas a verdade.

Tem cuidado com as viagens,
tem cuidado com os trens e as potências malignas
e de te perder entre as tuas próprias águas.

Não deixes teu chapéu fora de casa,
não deixes tuas luvas longe do amanhecer,
porque as formigas te golpearão com suas antenas até causar-te dano,
porque as pedras arderão em teus sapatos negros,
para que aprendas a não brincar com as linhas das tuas mãos,
para que se lembre, filho meu,
que o norte das bússolas é como a cabeça do teu próprio animal.

Cuida-te das viagens,
cuida-te das viagens e dos trens
e do balanço dos barcos nos mares sem lei,
porque nas viagens vai a morte falando-te no ouvido,
porque nos trens vai a morte sentada
e nos barcos vai a morte em pé.

Javier Bello (Concepción, 1972)
Poeta e professor universitário. Bolsa Pablo Neruda (1992) e Juegos Florales Gabriela Mistral (1994). Autor de La noche venenosa (1987), La huella del olvido (1989), La rosa del mundo (1996) e Las jaulas (1998), entre outros.

Sei que os campos não se mancham de estrelas

Sei que os campos de trigo não se mancham de estrelas
e que o mar sacode o grave sorriso da terra.
Também que as loucas sabem o que fazem
e que alguns fantasmas gemem pelos tubos de um velho edifício.

Sei que as ondas e o vento não espalham laranjas
e que a noite não é o sapato de um morto
e que as raízes da árvore são a única verdade
e que o tempo não é uma caixa de música
e que algum dia meu corpo já não falará
porque estarei escondido no nada, no nada.

E que serei mais o silencioso habitante da tarde
e perderei o costume de beber com amigos
e já não tentarei amar a vida porque sei muito bem
que tudo o que nasce deve morrer algum dia.

Alexis Castillo (Linares, 1975)
Poeta e estudante de literatura. Editor da revista Pájaro Verde. Tem poemas publicados na revista Ginebra Magnólia 2/3. Panorama contemporáneo de la poesía del Sur. (Lima-Peru, 2003).


 

 
 
 
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