ABRIL

Myriam Fraga

Escrevo de memória.
A infância é um bolo
Na garganta
E a dor de dividir-se
Nos Espelhos.


Que foi feito de mim,
Daquela estória
Que eu me contei um dia
e que perdi?


Escrevo sempre à noite;
Pela manhã apago
E recomeço.


É tão difícil viver,
É tão de açoite
O vento nas vidraças!


É abril e chove,
E a terra morta
Onde o lilás floresce
É minha pátria agora,
Meu destino. Ínsula.



 

PARA UM RETRATO

Álvaro Mendes

o som deserto as teclas
boiando na luz clara
(deslizar de ouro e gelo
entre lâmpadas)

a angústia fibra a fibra
enquanto a noite esfria
enquanto a noite encobre
em seus fios de cidra
em seus fios de cobre
(enquanto a noite morre)
as fontes cor de cidra
as fontes cor de cobre


 

 

CERTAS PALAVRAS

Jeová Santana

Palavras duras
duram na memória
Seu talho é fundo
qual faca no peixe


Palavras duras
ferem sem piedade
Até os poetas
lidam mal com elas


Palavras duras
o vento não leva
Palavras escritas
doem na vista


Palavras duras
devem ficar no cofre
O preço da desdita
só sabe quem sofre


Palavras duras
em ouças delicadas
São tão doídas
feito marradas


Palavras duras
não têm medidas
Ditas de chofre
desmantelam vidas

 

 
 
 
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