MOMENTO NA PRAIA

Henrique Augusto Chaudon

As marés vivas
e suas oferendas bizarras...

Na praia de outono
enquanto a lua sobe
e o sol se esconde
pousam gaivotas e urubus.
A fímbria violeta é toalha estendida.

Bichos do mar e da terra
intumescidos
bonecas plásticas desmembradas
um pé de chinelo
garrafão de vinho barato, seringas, camisinhas
um carretel de linha 10...
Trastes patéticos:
lembram os restos de algum indigente naufrágio.

Nas margens da Guanabara
em marés de sizígia e beleza
aflora uma arte aleatória e grotesca.

Mecanizados, prestos, eficientes
os homens da Limpeza Urbana
recolhem a fina flor de uma civilização.


 

SEDIMENTOS

Alberto Bresciani

Aos poucos se apaga
o consentimento da morte

adio a noite, avanço
ao avesso do dentro

e encontro os encontros
do tempo, um gosto

de pele, um nexo
Faço oferendas

à água
ao fogo.


 

Cinqüenta ondas em uma

Alcides Buss

Se tiver à mão
cinquenta línguas de sal,
cinquenta saltos no escuro,
cinquenta frascos de sol;

se me derem a beber
cinquenta doses de absinto,
cinquenta lágrimas turvas,
cinquenta mares extintos;

se em tudo couber
cinquenta traços de fuga,
cinquenta fardos de espinhos,
cinquenta pífias luxúrias;

se de cinquenta em cinquenta
me for dada a sorte
de achar a vida, ainda que
na morte e suas firulas

distantes, poderei,
quem sabe, reinar à toa,
à maneira de pássaros nobres
que vivem de fingir-se nódoas
no avental da verdade crua.


 

POEMA NATURAL

Adalgisa nery

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

 

Eduardo Silveira

me esforço pra ser original para você,
mas tomo o mesmo café todo dia
e aperto o passo quando chove,
então, não sei.

 

tuas cartas. esses anos tudo. joguei pra cima. fiz sorteio.

 

E AINDA ME LEMBRO do dia em que inauguraram o mundo, era sábado e sentados na calçada apontávamos para os cachorros com formas engraçadas, como se nuvens à espera de um nome. carros eram monstros coloridos que nos ignoravam, e naquela noite a lâmpada que acendeu-se no quarto te meteu medo e por muito tempo admiramos aquele relâmpago que nunca se apagava, e tudo era novo, os grilos a primeira e mais importante música

 

Bénédicte Houart

nem todos os homens que
saem de minha casa saem da minha cama
nem todos aqueles que
saem da minha cama saem de dentro de mim
nem todos os que
saem de dentro de mim chegaram sequer a lá entrar
não, nada é tão líquido assim

 

Momento num café

Manuel Bandeira

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.


Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade


Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

 

Soneto do fim de caso com mágoas e ódio

Rita Moutinho

Tu me disseste pluma, docemente,
quando o sumo do caso inda ebulia,
que tinhas de serrar nossa corrente.
Meu meio aro de ferro, em avaria,
não sangrou, continuou férreo e imantando.
E havia a sina: tanto adeus falido
e tanto reencontro emocionado...
Mas era cova funda o concluído.
O ferro enferrujado por sal e águas,
que viam os calendários a se esvair,
deu tétano, fechou a glote, e as mágoas
e o odeio eram os adjetivos no exaurir.
Por pressão dela tive árduo final.
Antes houvera um crime passional!

 

A passagem

Lêdo Ivo

Que me deixem passar – eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim passarei.
Inventarei a porta e o caminho.
E passarei sozinho.

 

O poeta futuro

Murilo Mendes

O poeta futuro já se encontra no meio de vós.
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e de místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.
O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida


Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido.
O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que algo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.


O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
As que asfixiam órfãos e operários.

 

Nunca ninguém sabe

Mário Quintana

Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar.
Por isso o meu verso tem
Esse quase imperceptível tremor...
A vida é louca, o mundo é triste:
Vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor...

 

A perda

Elisabeth Veiga


Da primeira vez que me quebraram
toda
dobrei os joelhos,
caí sem joelhos,
me dobrei toda sobre
o vazio dos braços.
Os ossos tiritavam,
a cabeça estalava
um sino:
toda um estaleiro
sem navios,
só pavios de viagem,
toda uma estalagem
bêbada de sombras
e sinas,
não sabia mais
quantas primaveras
fazem um cisne,
não sabia
beber a não ser
com as mãos em cuia,
eu era um pires
com a cara
que os gatos lamberam
e fugiram
um piano com febre
em desarticulação nervosa,
uma pátina derretida
uma patavina
atarantada
com os caracóis da poeira
sumida no horizonte.

 

Coca-Cáustica

Ricardo Máximo


Desbeba
não sorva
reprove
a coca-cola
a coisa cáustica
suástica
a coca oca de purezas
a coca mouca de gases
necroses
boiadas surpresas
de falanges e falangetas
dedos laboriosos
múmias sem etiquetas
nos frascos foscos de coca


Jamais ingira
não prove
a coca-cola
a coma-cola
a coca-crassa
o necro sarope
pop-corrosivo
acre-televisivo
dos potes prenhes de cocas


Não queira
não ouse
não toque
na coca bruta
poção de cicuta
desinocente
e à moda dos pássaros
eleja as frutas
com suas polpas
requeira as frutas
com suas roupas
suas suculências.


Invada mercados
desvende pomares
imunize os lares
em advertência:
Coca Mais Nunca!
a coca ácida
a coca sádica
a coca tóxica
em forma líquida
às doses
viciando vísceras
aos goles
prodigando vítimas
aos tragos
ministrando o trágico
como se o trigo.

 

Na enseada de Botafogo

Manoel de Barros


Como estou só: Afago casas tortas,
Falo com o mar na rua suja...
Nu e liberto levo o vento
No ombro de losangos amarelos.


Ser menino aos trinta anos, que desgraça
Nesta borda de mar de Botafogo!
Que vontade de chorar pelos mendigos!
Que vontade de voltar para a fazenda!


Por que deixam um menino que é do mato
Amar o mar com tanta violência?

 

Providência

Victor Colonna


Matar é a ordem do dia
Do tenente ao traficante
Do gerente ao general:


Matar é a equação do dia
Para o equilíbrio social:
Miséria vezes maldade
Igual a negros da comunidade
Esquartejados pela facção rival.


Matar é a ordem dos guias
dos deuses, dos Orixás
Nem Jesus, nem Virgem Maria
Nem todos os santos vão te salvar.


Matar é o prato do dia:
Mata soldado, cabeça de papel
Fome de sangue, barriga vazia,
Tiro na nunca, paz no quartel

 

Caminho

Camilo Pessanha


I

Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...


Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...


Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

 

Rolando Revagliatti
Tradução de Iacyr Anderson Freitas


Eu já


Eu teria tratado de encontrá-lo no corpo
eu tivesse tratado de encontrá-lo quando era meu
quando era o meu
meu corpo


Eu tinha já tratado de encontrá-lo
era meu
quando tratei


Acudi
tratando de encontrá-lo
no corpo
quando era meu


Era-o
somente quando
ali
tratava de encontrá-lo.


Aqui não


No espelho passa
não aqui
aqui
não passa

No reflexo na água do lago passa
não aqui
aqui
não passa

É nos meus olhos cegos onde passa
não aqui
aqui
não passa.

 

Não a conheci bem


Não a conheci bem, mas em todo caso
me serviu para imaginá-la perfeitamente
tão resoluta, tão firme acercando-se da minha choça
nas escuras noites de chuva


reconhecendo-me homem ainda ali
e quedando-se.

 
 
 
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