Augusto dos Anjos: um poeta moderno

(1884-1914)

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Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, nasceu em 20 de abril de 1884, no Engenho Pau d’Arco, Vila do Espírito Santo, Estado da Paraíba. Filho do advogado Alexandre Rodrigues dos Anjos e Dona Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos.

Até os 24 anos, Augusto dos Anjos viveu praticamente no engenho onde nasceu, propriedade dos pais, que se veriam na necessidade de vendê-la, para pagamento de dívidas. Este é um dos aspectos marcantes de sua biografia: a ruína financeira da família. Tratava-se, ao mesmo tempo, de tragédia pessoal e de sintoma da crise geral da lavoura açucareira nordestina e da economia rural brasileira.

Aos 16 anos, veio para a capital do seu estado, João Pessoa, que, à época, também se chamava Paraíba, a fim de completar os estudos secundários. Foi lá, no ano seguinte, que começou a publicar seus poemas, no jornal O Comércio.
Em 1903, ingressou na Faculdade de Direito do Recife, Pernambuco. Foi no ambiente acadêmico que o poeta familiarizou-se com as pesquisas científicas incrementadas no final do século XIX, sobretudo no campo das ciências naturais. Ali, certamente, tomou conhecimento das várias doutrinas derivadas do materialismo e do evolucionismo, que marcariam sua visão de mundo. Absorveu de tal modo aqueles termos, que passou a usá-los nas conversas com amigos, utilizando-os exaustivamente em seus poemas.

Após cinco anos de estudos, concluiu o Curso, mas não exerceria a profissão de advogado. A vida inteira foi professor. No ano seguinte, de volta a João Pessoa, iniciou sua carreira no magistério lecionando Literatura no Liceu Paraibano. Em paralelo, continuou publicando poemas em jornais e revistas da região.

Em 1910, casou-se com Dona Ester Fialho, com quem teria três filhos. Nesse mesmo ano, transferiu-se para o Rio de Janeiro, lecionou no Ginásio Nacional, na Escola Normal e no Colégio Pedro II.

Em 1912, publicou, com recursos próprios e do irmão Odilon, a sua única coletânea: Eu, depois enriquecida com outros poemas esparsos em diversas edições, com o título Eu e outras poesias. O livro provocou escândalo. O público estava habituado à elegância parnasiana, poesias que se declamavam em salões. Foi considerado um livro de “mau gosto”. Até a crítica, embora considerando o talento do estreante, fazia-lhe sérias restrições. Só muitos anos após sua morte, o poeta conseguiu o reconhecimento e uma popularidade acima das expectativas. E o que mais o aproximou da massa de leitores foi exatamente seu pessimismo, sua angústia em face de problemas e distúrbios pessoais, bem como das incertezas do novo século que despontava, trazendo consigo a ameaça de uma guerra mundial. Por isso a morte é presença constante em sua obra e, depois dela, a desintegração, os vermes.

Em 1914, foi nomeado diretor de um grupo escolar, em Leopoldina, Minas Gerais, para onde se mudou. Logo depois, apanhou fortíssima gripe e devido a complicações, veio a falecer, vítima de pneumonia, em 12 de novembro desse mesmo ano.

Augusto Sérgio Bastos

“Na obra de Augusto dos Anjos aparecem, não de maneira eventual, e sim como elemento constitutivo de sua linguagem, alguns traços que caracterizam a nova poesia, a que se convencionou chamar de poesia moderna [...]

Pode-se dizer que a característica mais geral da linguagem moderna da poesia é a tendência a acentuar o caráter concreto do discurso: a busca de uma linguagem que seja, ela mesma, uma experiência nova à percepção. Daí a necessidade de dificultar o fluir do discurso e de construí-lo com palavras substantivas, carregadas de vida, sujas de vida, palavras de uso cotidiano. Isso se verifica tanto em poemas que partem de sensações objetivas como naquele que partem de sentimentos, do mundo subjetivo. No primeiro caso, o poeta procura impedir que o discurso se afaste da experiência original e a abstratize; no segundo, procura objetivar, dar contextura concreta, ao sentimento subjetivo. Em qualquer dos casos, manifesta-se na poesia a consciência ? que é moderna ? do caráter contingente, histórico, situado, da existência. Esse é um dos traços mais constantes na poesia de Augusto dos Anjos.”

(Ferreira Gullar. “Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”. In: Anjos,
Augusto dos. Toda a poesia: Augusto dos Anjos. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1995.)

 

 

O morcego


Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego!E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede...”
– Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minha´alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!


Versos íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!



Asa de corvo

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

É om essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte – a costureira funerária –
Cose para o homem a última camisa!


A idéia


De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!



Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!

 
 
 
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