MACHADO DE ASSIS: o Bruxo do Cosme Velho (1839-1908)

 


Joaquim Maria Machado de Assis, jornalista, contista, cronista, romancista, teatrólogo, tradutor e poeta, nasceu no morro do Livramento, centro do Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839. Filho do mulato forro Francisco José de Assis, neto de escravos, pintor de paredes, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, portuguesa. O casal vivia como agregado à imensa chácara, que ocupava toda a colina, cuja rica proprietária, viúva de um senador do Império, viria ser sua madrinha e protetora na infância. Quando tinha seis anos, morreu a única irmã, durante uma epidemia de varíola. Aos dez perdeu a mãe, vítima de tuberculose. Cedo começou a exercer pequenos ofícios, como o de baleiro, com os quais teria ajudado nas despesas da casa. Em 1854, o pai casou-se novamente com a também mulata Maria Inês da Silva, que o criou com todo carinho. Em seguida, a família mudou-se para São Cristóvão, onde em 1864 Francisco José veio a falecer. Pouco mais se conhecendo de sua infância e início da adolescência, sabe-se apenas que era uma criança doentia, tímida e precoce, e que já sofria crises epileptiformes, certamente os primeiros sintomas do mal que o atormentou durante toda a vida. Sem meios para cursos regulares, estudou como pôde e, em 3 de outubro de 1854, publicou o primeiro trabalho literário, o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”, no Periódico dos Pobres.

Em 1856, entrou para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo. Dois anos depois, trabalhava na livraria de Paula Brito e colaborava nos periódicos Paraíba (de Petrópolis), na Marmota e no Correio Mercantil; destes dois últimos, tirava seu sustento como revisor de provas. Em 1860, passou a pertencer à redação do Diário do Rio de Janeiro. Escrevia regularmente para a revista O Espelho, onde estreou como crítico teatral, e também na Semana Ilustrada e no Jornal das Famílias, no qual publicou, de preferência, contos.

Sua estreia em livro foi com a tradução de Queda que as mulheres têm para os tolos, em 1861. No ano seguinte, era censor teatral, cargo não remunerado, mas que lhe dava ingresso livre nos teatros. Começou também a colaborar em O Futuro, órgão dirigido por Faustino Xavier de Novais, poeta português, irmão de sua futura esposa. Em 1867, recebeu, por decreto imperial, a comenda de Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços prestados às letras, e foi nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial.

Em 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, nascida em Portugal, que viria a ser sua companheira durante 35 anos. Em 1873, foi nomeado primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, iniciando assim a carreira de burocrata que lhe seria até o fim o meio principal de sobrevivência. Nessa época, intensificou a colaboração em jornais e revistas, como O Globo, O Cruzeiro, A Estação, Revista Brasileira, escrevendo crônicas, contos, poesias; os romances iam saindo em folhetins e depois eram publicados em livros. Em 1880, assumiu o cargo de oficial de gabinete do Ministro da Agricultura. Em 1888, teve novamente reconhecido o seu trabalho em prol da literatura, sendo elevado ao grau de Oficial da Ordem da Rosa. Como funcionário público ocupou ainda, no ministério em que servia, os cargos de diretor da Diretoria do Comércio, diretor-geral da Viação e diretor-geral de Contabilidade. Em 1891, morreu Maria Inês, madrasta de Machado.

Em 28 de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia Brasileira de Letras, foi eleito presidente da instituição, à qual se devotou até o fim da vida.

A obra de Machado de Assis abrange, praticamente, todos os gêneros literários. Na poesia, inicia com o romantismo de Crisálidas (1864) e Falenas (1870), passando pelo indianismo em Americanas (1875), e o parnasianismo em Ocidentais ‒ esse último um livro ainda inédito quando foi incluído em Poesias completas, o volume que reuniu sua obra em 1901. Paralelamente, apareciam as coletâneas de contos (Contos fluminenses, Histórias da meia-noite, Papéis avulsos, Histórias sem data, Várias histórias, Páginas recolhidas e Relíquias da casa velha), os romances (Ressurreição, A mão e a luva, Helena, Iaiá Garcia, Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires), ensaios, crítica e várias peças para teatro. As crônicas só foram publicadas em livro após a sua morte.

Machado de Assis morreu em 29 de setembro de 1908, no Rio de Janeiro, na casa da Rua Cosme Velho 18, onde viveu com Carolina por 24 anos.

Augusto Sérgio Bastos
26/05/2008

 

 

“No livro Ocidentais, que não teve edição autônoma mas foi incluído nas Poesias completas, estão coligidas as mais importantes e famosas composições de Machado de Assis: ‘A Carolina’, ‘Círculo vicioso´, ‘Mosca azul’ e ‘Soneto de Natal’.

[...] Ocidentais é o maduro e definitivo livro de Machado: o seu testamento poético. Nele se encontram, além dos quatro poemas já destacados, as suas melhores criações. Machado demonstra, finalmente, haver atingido o domínio dos recursos poéticos disponíveis em sua época.

[...] Em Ocidentais e nos sonetos de ‘A derradeira injúria’ encontram-se, com certeza, versos que se inscreverão para sempre na história da poesia brasileira. A tarefa que se impõe aos poetas e críticos contemporâneos é a de resgatar e interpretar outros inúmeros poemas de Machado, ofuscados pelo crescente brilho do prosador inigualável de nossa literatura.

É possível afirmar que a influência da prosa atuou de duas maneiras na poesia de Machado. Uma, negativamente, enfraquecendo a voz do poeta lírico, devido ao uso abusivo de lugares comuns e clichês, que reduzem a tensão da linguagem. Outra, de maneira positiva, trazendo para a poesia uma consciência humanística, ainda válida nos dias de hoje, inclusive ao exercer uma função ética, para que a literatura não se perca apenas nos jogos fúteis das formas poéticas, autárquicas e vazias.”


[LEAL, Cláudio Murilo. Um poeta todo prosa. In: SECCHIN, Antonio Carlos; ALMEIDA, Mauricio Gomes de; SOUZA, Ronaldes de Melo e (Org.). Machado de Assis, uma revisão. Rio de Janeiro: In-Fólio. 1998.]

 

 

 

À Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

 

Uma criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável,
que a si mesma devora os membros e as entranhas,
com a sofreguidão da fome insaciável.


Habita juntamente os vales e as montanhas;
e no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
espreguiça-se toda em convulsões estranhas.


Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
parece uma expansão de amor e de egoísmo.


Friamente contempla o desespero e o gozo,
gosta do colibri, como gosta do verme,
e cinge ao coração o belo e o monstruoso.


Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
e caminha na terra imperturbável, como
pelo vasto areal um vasto paquiderme.


Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
vem a folha, que lento e lento se desdobra,
depois a flor, depois o suspirado pomo.


Pois esta criatura está em toda a obra;
cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
e é nesse destruir que as forças dobra.


Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
começa e recomeça uma perpétua lida,
e sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

 

Soneto de Natal

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

 

Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- Pudesse eu copiar o transparente lume, 
que, da grega coluna à gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- Mísera ! tivesse eu aquela enorme, aquela 
claridade imortal, que toda a luz resume !
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

- Pesa-me esta brilhante auréola de nume... 
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

 


 
 
 
 
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