José Paulo Paes

 


José Paulo Paes, poeta, tradutor, crítico literário, ensaísta, nasceu em Taquaritinga (SP), no dia 22 de julho de 1926. Estudou química industrial em Curitiba, onde iniciou sua atividade literária colaborando na revista Joaquim, dirigida por Dalton Trevisan. De volta a São Paulo, em 1949, trabalhou na Squibb, uma indústria farmacêutica, até o início dos anos 1960, quando foi para a Editora Cultrix, onde se aposentou, momento coincidente com a amputação da perna esquerda, em 1985. Sofria grave problema circulatório.

Sua estreia na poesia foi em 1947, com o volume O aluno, fortemente influenciado por Carlos Drummond de Andrade. A partir daí, trilhou o caminho modernista em busca da poesia condensada na forma do epigrama, e em alguns momentos, retomando a síntese formal e humorística de Oswald de Andrade. Em 1952, casou-se com Dora, a bailarina Dorinha Costa, sua companheira e musa por toda a vida, a quem dedicou seu segundo livro, Cúmplices. Em seguida vieram: Novas cartas chilenas, Meia palavra, A poesia está morta mas juro que não fui eu, A meu esmo, entre outros. Em 1986, toda sua obra poética foi reunida sob o título Um por todos. Com Socráticas, livro póstumo lançado em 2001, sua obra poética completou 14 publicações.

No terreno da tradução, verteu mais de uma centena de livros do inglês, do francês, do italiano, do espanhol, do latim, do alemão e do grego moderno. Entre suas traduções estão poemas de Konstantinos Kaváfis, Williams Carlos Williams, Hölderlin, Paul Éluard e Rilke. Em 1987, dirigiu uma oficina de tradução de poesia na UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas).

Para o público infantil escreveu oito livros.

José Paulo Paes faleceu em 9 de outubro de 1998, na cidade de São Paulo.

 

Augusto Sérgio Bastos

“Sem ter nutrido pretensões professorais, José Paulo Paes mostrou que estética e ética não rimam à toa. Morto há exatamente 10 anos [1998], o escritor paulista inventou uma literatura concisa e um comportamento discreto. Soube desprezar a soberba intelectual e exerceu a vocação democrática da cultura. Era autodidata, tradutor e crítico. “Ele manteve a cultura como uma aspiração democrática”, diz o crítico Rodrigo Naves. A arte, para JPP, nunca seria o verniz brilhoso de um cérebro oco.

[…] “Ele tinha obsessão pela brevidade extrema, é um traço de estilo com o qual manteve as verdades a igual distancia”, diz o crítico Carlos Felipe Moisés. A precisão e concisão se revelaram plenamente nos epigramas, composição na qual foi mestre, marcados pela ironia sutil.

[…] Os poetas são aqueles que ficam ali no caminho, a incomodar, e que muitos querem varrer de vista.

[…] Hoje há um poeta no caminho, a pedir calma e amadurecimento. Ele se chama José Paulo Paes.”

 

(Francisco Quinteiro Pires. “JPP, o homem sem vaidades”. O Estado de

S. Paulo, São Paulo, 9.10.2008.)

 

 POEMAS DE JOSÉ PAULO PAES

 

Passarinho fofoqueiro

Um passarinho me contou
que a ostra é muito fechada,
que a cobra é muito enrolada,
que a arara é uma cabeça oca,
e que o leão marinho e a foca...
xô , passarinho! chega de fofoca!

 

Acima de qualquer suspeita

a poesia está morta
mas juro que não fui eu

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car-
los drummond de andrade manuel bandeira murilo
mendes vladmir maiakóvski joão cabral de melo neto
paul éluard oswald de andrade guillaume appolinaire
sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada
em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro
araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece
nunca ter existido

nem eu

 

Auto-epitáfio

para quem pediu sempre pouco
o nada é positivamente um exagero

 

Lisboa: aventuras

tomei um expresso
cheguei de foguete
subi num bonde
desci de um elétrico
pedi cafezinho
serviram-me uma bica
quis comprar meias
só vendiam peúgas
fui dar à descarga
disparei um autoclisma
gritei "ó cara!"
responderam-me "ó pá!"
positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá

 

L'Affaire Sardinha

O bispo ensinou ao bugre

Que pão não é pão, mas Deus
Presente na eucaristia.
E como um dia faltasse
Pão do bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente.

Pisa: A torre
em vão te inclinas pedagogicamente
o mundo jamais compreenderá a obliquidade dos
bêbados ou o mergulho dos suicidas.


Madrigal

Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.

 

DE SENECTUTE

já antecipa a língua
afeita à alegoria
na carne da vida
o verme da agonia
já tritura o olho
no gral da apatia
o carvão da noite
a brasa do dia
já se junta um pé
a outro em simetria
de viagem além
da cronologia
já por metafísico
o medo anuncia
sua máquina de espantos
à alma vazia

 

TERMO DE RESPONSABILIDADE

mais nada
a dizer: só o vício
de roer os ossos
do ofício
já nenhum estandarte
à mão
enfim a tripa feita
coração
silêncio
por dentro sol de graça
o resto literatura
às traças!

 

SÍSIFO

hoje agora me decido
depois amanhã hesito
o dia detém meu passo
a noite cala meu grito
deuses onde? céu existe?
céu existe? deuses onde?
um eco que faz perguntas
um espelho que responde
e eu sísifo tardotriste
a tilintar as correntes
de dilemas renitentes
lá me vou sem vez nem voz
rolar a pedra dos mudos
pela montanha dos sós

 

ELOGIO DA MEMÓRIA

O funil da ampulheta
apressa, retardando-a,
a queda
da areia.

Nisso imita o jogo
manhoso
de certos momentos
que se vão embora
quando mais queríamos
que ficassem.

 

À MINHA PERNA ESQUERDA

Pernas
para que vos quero?

Se já não tenho
por que dançar.

Se já não pretendo
ir a parte alguma.

Pernas?
Basta uma.

 

O aluno

São meus todos os versos já cantados:
A flor, a rua, as músicas da infância,
O líquido momento e os azulados
Horizontes perdidos na distância.

Intacto me revejo nos mil lados
De um só poema. Nas lâminas da estância,
Circulam as memórias e a substância
De palavras, de gestos isolados.

São meus também os líricos sapatos
De Rimbaud, e no fundo dos meus atos
Canta a doçura triste de Bandeira.

Drummond me empresta sempre o seu bigode.
Com Neruda, meu pobre verso explode
E as borboletas dançam na algibeira.

 

 
 
 
 
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