Raimundo Correia
(1859 – 1911)

 


Raimundo da Mota de Azevedo Correia, magistrado, professor, diplomata e poeta, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado em águas do Maranhão. Foram seus pais o Desembargador José da Mota de Azevedo Correia, descendente dos duques de Caminha, e Maria Clara Vieira da Mota, de uma das mais ilustres famílias maranhenses. Dessa união nasceram 10 filhos; Raimundo foi o terceiro.

A sua infância foi bastante obscura. Era uma criança franzina, magra e sempre quieta, ausente das traquinagens comuns a essa fase da vida. A educação se processou de maneira severa. O pai, de formação profundamente católica e de feitio antigo, não admitia desvios naquela diretriz educacional.

D. Maria Clara faleceu em 1871, o que o abalou profundamente, pois pela sua natureza débil era ele quem merecia da mãe os maiores cuidados. No ano seguinte, dois eventos transformaram a sua vida: o primeiro foi o pai casar-se novamente, após seis meses de viuvez, o que muito o decepcionou, mas que futuramente lhe daria a alegria de mais três irmãos; o segundo foi a mudança para a Capital do Império, porque o Dr. José da Mota fora nomeado juiz de direito da comarca de Cabo Frio, Província do Rio de Janeiro. Logo ele ingressou no Externato do Colégio Nacional, hoje Pedro II, onde concluiu o curso secundário em 1876.

Em 1878, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo. Nessa cidade, no tempo de estudante, colaborou em muitos jornais e revistas. Vivia de curtas mesadas remetidas com sacrifício pelo pai, que, apesar da posição social, era homem de poucas posses.

Estreou na literatura em 1879, com o volume de poemas Primeiros sonhos, mais tarde renegado pelo poeta; são versos de adolescência, influenciados ainda pelo romantismo, já considerado, à época, como ultrapassado.

Recebeu o grau de bacharel em dezembro de 1882. No início do ano seguinte, publicou Sinfonias, prefaciado por Machado de Assis. Esse seria, dentre todos os seus livros, o de maior êxito; com ele assumiu o parnasianismo, passando a formar ao lado de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira a famosa “Tríade Parnasiana”. Quase todas as mais conhecidas poesias de Raimundo Correia pertencem a essa coletânea, entre elas o “Mal secreto”, “As pombas”, “O anoitecer”, “A cavalgada”. Depois vieram Versos e versões (1887), Aleluias (1891) e a publicação em Portugal da 1a edição de Poesias, em 1898 (seleção dos livros anteriores, com o repúdio do primeiro e alguns poemas novos). Desse último, foram publicadas, após sua morte, várias edições, seja com o mesmo título ou Poesias completas ou Poesia completa e prosa. Em prosa, sua obra é pequena; editou apenas um livro: Lucindo Filho, um estudo biográfico.

Em junho de 1883, o poeta estava no Rio, de onde seguiu viagem para São João da Barra, pois no mês anterior fora nomeado promotor público daquela comarca do Rio de Janeiro. No ano seguinte, casou-se com Mariana de Abreu Sodré e se mudou para Vassouras, onde iria assumir o cargo de juiz municipal. Tiveram cinco filhos.

O ano de 1886 foi marcado por dois acontecimentos: a alegria do nascimento de Lavínia, primogênita do poeta, e a tristeza com a publicação do polêmico artigo de Luís Murat, seu antigo amigo e colega de Faculdade, acusando-o de plagiário; este fato abalou ainda mais a sua debilitada saúde.

Em junho de 1889, foi nomeado secretário da presidência da Província do Rio de Janeiro. Após a proclamação da República foi preso. Porém, sendo notórias as suas convicções republicanas, foi solto, logo a seguir, e nomeado juiz de direito em São Gonçalo do Sapucaí, Estado de Minas Gerais, para onde se mudou com a família. Em Minas, ocupou ainda o cargo de diretor da Secretaria de Finanças, e depois o de diretor da Secretaria do Interior, que acumulava com o de professor na Faculdade de Direito, todos em Ouro Preto, na época, capital mineira.

No início de 1897, pediu exoneração do corpo docente da Faculdade e da Secretaria do Interior por motivo de doença. Contraíra o beribéri e estava muito deprimido; o clima de Ouro Preto não lhe fizera bem. Voltou para o Rio. Em 20 de julho aconteceu a sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras e entre os seus fundadores constava Raimundo Correia, que nessa ocasião estava na Europa, pois fora nomeado 2º secretário da Legação Brasileira em Lisboa. Lá permaneceu por um ano, aproveitando para fazer tratamento de saúde. Voltando ao Brasil, trabalhou como professor, vice-diretor e diretor interino do Ginásio Fluminense de Petrópolis, então capital do Estado do Rio de Janeiro. Em 1903, retornou em definitivo para o Distrito Federal, onde foi nomeado juiz da 2ª Pretoria e em seguida juiz de direito da 2ª e depois da 5ª Vara Criminal; em seu último trabalho ocupou o cargo de juiz de direito da 3ª Vara Cível.

Em junho de 1911, embarcou para a Europa, buscando melhoras para a saúde. Estava com uremia, cujos ataques o deixavam prostrado de dor. No dia 13 de setembro, em meio a um ataque mais forte, veio a falecer na pensão onde estava hospedado em Paris, França. Seu corpo foi enterrado no Cemitério Parisiense de Saint-Ouen. Anos depois, em 1920, a Academia Brasileira de Letras patrocinou a transladação dos restos mortais do poeta Raimundo Correia para o Brasil, onde repousam no Cemitério de São Francisco Xavier.

Augusto Sérgio Bastos

 

“Há três espécies de admiradores de Raimundo Correia: os que sabem de cor ‘As pombas’ e ‘Mal secreto’ e ignoram tudo o mais do poeta; os que apreciam sobretudo as poesias chamadas filosóficas e estimam que nelas reside a superioridade do poeta sobre os seus companheiros de Parnaso; há finalmente os que vêem nele o mais puramente poeta da famosa trindade, e o amam menos pelos severos poemas de inspiração pessimista do que por algumas dezenas de poemas breves, a maioria sonetos, onde encontramos alguns dos versos mais misteriosamente belos de nossa língua. Versos de uma expressão que João Ribeiro definiu como nascendo ‘imperplexa e inconsútil desde o fundo d’alma’.

Raia, sangüínea e fresca a madrugada... Quem não vê nesse decassílabo todas as celagens e orvalhos da aurora? Já morei perto do mar e muitas vezes ficava momentos esquecidos junto ao tumulto das ondas espraiadas. Nessas ocasiões nunca pude explicar bem o segredo desta conjunção de simples palavras comuns no soneto ‘Citera’: Bate aos pés dela / O coração das águas satisfeito...

Os parnasianos não gostavam do hiato. Todavia, Raimundo Correia como Camões, servia-se dele com a mais fina intuição dos valores fonéticos e rítmicos das palavras. No lindo verso da ‘Ária noturna’: A toalha friíssima dos lagos ― não há dúvida que o duplo hiato entrou como principal elemento criador do efeito mágico. No soneto ‘Anoitecer’, em cujo final a lua surge trêmula, trêmula, parece que o efeito é dado pela repetição do pé dáctilo (trêmula, trêmula) seguida do pé anapéstico (anoité). Em muitos, na grande maioria desses versos, não se sabe explicar o sortilégio verbal: tudo neles parece tão desprovido de intenção efectista. Por que, por exemplo, é tão evocativo da cena pintada em ‘Tristeza de Momo’ o verso Fauno o indigita, a Náiade o caçoa? Em ‘Green Spot’ o decassílabo o fio de água e a sombra suspirada? Eu poderia multiplicar durante uma hora essa antologia de versos que têm todos perfeição de diamantes. Em nenhum poeta brasileiro os encontramos tão freqüentes como em Raimundo Correia.”

(BANDEIRA, Manuel. Raimundo Correia e seu sortilégio verbal. In: CORREIA, Raimundo. Poesias. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976.)

 

POEMAS DE RAIMUNDO CORREIA

As Pombas

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

 

Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

 

O Vinho de Hebe

Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...

A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...

E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios,
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.

 

Fabordão

Na sisudez de D. Ana
Só o esposo se não fia:
Com ciosa mão tirana
A imbele dama oprimia.

Retida em casa, D. Ana,
Qual num cárcere, vivia;
E aí, cerrada a ventana,
Da rua ninguém na via.

Certo, inocente, D. Ana,
Tais tratos não merecia.
O esposo... Ela o não engana:
E ele por que desconfia?

Dele a suspeita vesana
No ciúme se acendia;
Mas dos olhos de D. Ana
Ciúmes quem não teria?

Felizmente pra D. Ana,
Como tudo cessa um dia,
Ele alfim se desengana
E a confiar principia.

Principia ele em D. Ana
A confiar: principia
A espairecer a leviana
Celimene à luz do dia...

Em novos ares D. Ana
Solta o voo à fantasia;
Nos bailes reina e se ufana
Dos chichisbéus que extasia.

Aos seus feitiços D. Ana,
Como cúmplices, alia
O leque com que se abana,
A flor com que se atavia...

Gira, doideja D. Ana
Incauta assim... Todavia,
A maledicência humana
Por trás da rótula espia...

A maledicência humana
Observa, espreita, vigia,
Segue os giros de D. Ana,
E descobre o que queria.

Qual mariposa, D. Ana
Cai na teia que lhe urdia
A caranguejeira humana
Com visguenta hipocrisia.

E a boquejar em D. Ana,
Ninguém despertar temia
Do Otelo a cólera insana...
Que horror, se ele o sabe um dia!

Em vez da cólera insana
O contrário... Quem diria?
(Felizmente pra D. Ana!)
O contrário sucedia.

Em voz alta, da leviana
Já muito mal se dizia:
Só o esposo de D. Ana
Era surdo, ou nada ouvia.

Toda a gente, da leviana
Os amores conhecia:
Só o esposo de D. Ana
Era cego, ou nada via!

Só o esposo de D. Ana
Nada via, nada ouvia,
Cego e surdo; e bem se engana
Quem pensar que ele fingia.

Suspeitara de D. Ana
Quando ela bem procedia,
E agora, sim, que ela o engana,
Agora é que ele confia.

 

Desdéns

Realçam no marfim da ventarola
As tuas unhas de coral – felinas
Garras com que, a sorrir, tu me assassinas,
Bela e feroz... O sândalo se evola;

O ar cheiroso em redor se desenrola;
Pulsam os seios, arfam as narinas...
Sobre o espaldar de seda o torso inclinas
Numa indolência mórbida, espanhola...

Como eu sou infeliz! Como é sangrenta
Essa mão impiedosa que me arranca
A vida aos poucos, nesta morte lenta!

Essa mão de fidalga, fina e branca;
Essa mão, que me atrai e me afugenta,
Que eu afago, que eu beijo, e que me espanca!

 
 
 
 
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