FORTUNA CRÍTICA DO LIVRO

“CASA DAS MÁQUINAS”,

de Alexandre Guarnieri (Editora da Palavra, RJ)

[ LANÇADO EM NOV/ 2011 ]

1. POSFÁCIO “Uma poética industrial e suas máquinas fatais, por Mauro Gama*:

Não existe lirismo, na poética dessa Casa das máquinas, de Alexandre Guarnieri. Sua atitude estética é de um realismo essencialmente objetivo, e imediato. Situa-se num dos pontos extremos da vertente que se inaugura com The Rationale of verse (1848; A análise racional do verso), de Poe, passa por Baudelaire, pelo último Mallarmé e, para resumirmos esse itinerário, ilumina, na língua portuguesa, a fonte primordial d'O Livro de Césário Verde e se consolida, no Brasil, com João Cabral de Melo Neto. Mas Guarnieri tem ainda, entre suas peculiaridades, a de eleger um campo semântico exclusivo, o da paisagem industrial e sua parafernália. Nessa perspectiva, produz componentes poemáticos de pleno compromisso com o plástico e visual. Além de conceber seus poemas como blocos de escrita maciça e geometricamente delimitada (mas sem analogia com a experiência lúdica e imitativa de Apollinaire, entre outros), textos como “Uma lâmpada”, “Duas válvulas”, “Três engrenagens” são naturezas-mortas desse contexto estrito, onde os objetos posam ou agem, e interagem, sob os olhos atentos do artista que as reinventa, no mundo verbal e do espaço branco. Essas distinções são imprescindíveis para se assinalar a presença do autor, pois estamos num momento em que se polemiza estéril e histericamente em torno da concisão e da racionalidade ou, em outro plano, se induz a poética, algo pateticamente, a certo lirismo esteticista e elaborado de perito para perito, versão hodierna de uma “arte pela arte” crivada de pruridos e sanhas pessoais (havendo ainda quase trinta ou mais tendências que disputam o obscuro foco, ou a “luz negra”, da poesia na precária cena da literatura no Brasil). No entanto, o que logo sobressai no trabalho de Alexandre Guarnieri não é a coerência “genealógica” de sua posição, mas precisamente a liberdade com que a ela se dá e vai consolidando suas opções. Como Flávio Castro, outro notável poeta de sua geração, sabe como as birras são burras, como a competição, as contendas, nesse terreno, ou não levam a nada ou só ao atraso e à infecundidade, então é preciso ler e considerar a obra dos irmãos Campos, como ler e considerar a contribuição de Chamie, do pessoal do poema-processo e de tantos outros marcos individuais ou coletivos (mesmo porque todos, afinal, são isso e são aquilo: alguns dos que se gabam de uma dourada e suposta independência trouxeram suas raízes dos EUA, ou as importaram de lá, de Portugal, da França, da Inglaterra, da Alemanha). Vê-se, portanto, que Guarnieri percorreu todas as trilhas de seus antecessores e informou sua compulsão expressiva com a tradição que o precedeu; com a tradição, esclarecemos, naquele sentido histórico e dinâmico em que Eliot insistiu e pelo qual sugeriu “a concepção da poesia como um todo vivo de toda a poesia já escrita”. Na verdade, esse é um árduo aprendizado, o oposto ao da grande maioria dos ditos literatos, já que se pauta, fundamentalmente, pela “extinção contínua da personalidade”, na lição do mesmo, e ultralúcido, Eliot. É curioso como toda “originalidade”, sem isso, raramente ultrapassa a impostura ou o carreirismo, e como o novo, para ser autêntico, só se pode alcançar a partir da inteira competência no lastro da cultura assimilada. Outro aspecto decisivo, nessa ótica, e sobretudo num quadro de produção estética dentro dos limites do Terceiro Mundo, é a superação ativa e consciente de todos os resquícios do romantismo. O romantismo quase sempre mela, e afrouxa tudo. Mas insiste: é como certos surtos e sustos de alienação religiosa; de quando em quando se reanima, suspira, arrebanha os desavisados e se camufla (ou não) numa poesia que, longe de se identificar com o nosso tempo, e com o processo histórico que veio modelando-o, mergulha no próprio umbigo ou foge para um nicho qualquer de fuga ou idealização medieval. De uns anos para cá, o viés romântico anda travestido de um estilo algo nostálgico e evanescente que virou o estereótipo “médio” das receitas de oficina literária, em que pululam pretendentes de todos os matizes. Alexandre Guarnieri, na formulação de sua frase, ainda trabalha com a sintaxe lógico-discursiva, com uma mecânica de abordagem prosística da matéria-prima poética, com símiles explicitamente sustentadas, mas não apresenta, de fio a pavio, sequer um traço da articulação romântica: em enunciados metafóricos como “tubos lúbricos”, “o inchaço inerente ao eixo”, “a carapaça aparafusada” ou “intestino eletro-técnico”, seus referenciais emergem do real concreto em que se entrançam o industrial, o anatômico, o zoológico, oferecendo-nos a recriação pós-moderna – e desconstrutiva – de um universo desumanizado, ferozmente entretecido de informação e tecnologia. Guarnieri, no entanto, não nos diz o que sente ou pensa a seu respeito: reinstala verbalmente sua matéria viva, e uma denúncia por isso mesmo mais demolidora. No “Urbi et Orbitron” sobretudo, seu trabalho mergulha no cerne, e na guerra (civil), da vida urbana, envolvendo ao mesmo tempo a visualidade e a movimentação de várias camadas de comunicação poética essencialmente contemporânea, que se edificam como o vir (à tona) e devir cíclico da cidade e sociedade em que se inserem, reafirmando uma síntese de expressão verbal ao mesmo tempo nuclear e relativa, traumática e cambiável, da instável existência humana de hoje. Destaquem-se, no conjunto, poemas como “Claustros”, “Funcionário” ou “Repartição”, pela agudeza crítica e intensidade do trato existencial. Em sua organicidade espaciotemporal, o texto retoma (e renova) uma linha de experiências formalistas e concretizantes que vêm desde a “Apoteose” de Sá-Carneiro e passam pelos vetores mais expressivos da vanguarda brasileira na década de 1960. Experimentalismo? Uma ala da nossa crítica passou a rotular de “experimental” toda literatura que não vai ao encontro de suas noções acadêmicas. Ora, experimental é tudo: desde o que, como no “daemon-endo-machina” de Guarnieri, se reprocessa no múltiplo projeto que remói todo o presente e salta deste para o futuro, até qualquer soneto “neoparnasiano” em que um sujeito (e objeto) reescreve melancolicamente em conformidade com o padrão consagrado, preferindo dar as costas para o presente e submergir tranquila (ou desesperadamente) no passado. Ora, “o consagrado, numa língua, como lembra o romeno Cioran, constitui sua morte: uma palavra prevista é uma palavra defunta; só seu emprego artificial lhe insufla um novo rigor (...)”. E o rigor, com relação à palavra, é o próprio ofício do poeta. Ciente disso, o jovem Guarnieri trabalha sua linguagem com uma consciência integrada não propriamente de suas qualidades e resultados “literários”, mas físicos e fisionômicos, indissociáveis do desenvolvimento interno e concreto, gráfico de sua escrita. São exemplos inequívocos, desde o início do livro, o hábil tratamento das consoantes em tr e gr nos “Três engrenagens”, que de tal modo incorporam a interrelação, o atrito, as marcas do desgaste, que o deslizar da graxa ou a aridez de sua falta se tornam quase palpáveis; assim também os tês que percutem o ritmo dos “Quatro motores” ou, na segunda das “Duas válvulas”, a tensão crescente feita de eles e tês, que chega a inquietar, a ameaçar a atmosfera da leitura nos vês das últimas linhas. É, porém, no segmento da “Alameda da indústria” propriamente dita, em que algarismos e letras se mordem e se atropelam, que se dá todo o enlace funcional e definitivo dos significantes e significados de Alexandre Guarnieri: como se de suas estranhas naturezas mortas passasse decididamente para “ambientes” de amplo arcabouço material e social, em que o espaço se alarga ao mesmo tempo que se fecha e asfixia, implode e explode, destrói de dentro para fora e de fora para dentro; quando “autômatos se somam/ na linha de montagem aos últimos funcionários com rostos” (“Casa das máquinas”, 4). O poema, então, assume o clima e o mal-estar da indústria, a persistente doença de sua segmentação, seu fracionamento de esforços desindividualizados, suas dilacerações em que produto e produtor se confundem, e o homem (e a mulher) deixam de existir: “são senhoras, estes tristes aríetes em riste” (“Rouparia”); ou “a rota do corpo é sem volta, único sintoma rumo ao subterrâneo ômega da mortalidade sem retorno” (“Ferro-velho”). Ao encerrar sua primeira coletânea, o poeta instala o leitor entre paredes a um tempo gráficas, fonológicas e semânticas sem saída, sem horizonte além do que, inquietantemente, pode estar sendo gerado na seção terrificante da “A ânima da máquina”: sua esperança centrífuga é o desastre final, ou a energia libertadora? Há algo de esmagador e apocalíptico em seu “Blecaute”. A propósito, não esqueçamos o Brecht capaz de nos ensinar, como ninguém, que “de um rio que tudo arrasta/ se diz que é violento,/ mas ninguém diz violentas/ as margens que o comprimem”. É como no texto de Guarnieri: ali se consubstancia, na recriação de um universo verbal, a maior violência dos nossos dias: a da perda de qualquer sentido das atividades humanas emocionalmente dissociadas e em condições de crescente sociadas e em condições de crescente confinamento.


* Mauro Gama nasceu em 1938, no Rio de Janeiro. É poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário. Foi redator em várias revistas, jornais, enciclopédias e dicionários. Publicou Corpo verbal (1964), Anticorpo (1969), Expresso na noite (1982) e Zoozona seguido de Marcas na noite (2008). Traduziu sonetos de Michelangelo (2007).


2. APRESENTAÇÃO: “casa das máquinas – uma invenção”, por Helena Ortiz*:


[http://integradaemarginal.blogspot.com.br/2011/10/casa-das-maquinas-uma-invencao.html]

Caros amigos, dei-lhes folga no mês de outubro. Terá sido porque não aconteceu nada? Aconteceu muita coisa, mas como são as coisas de sempre, me abstive de comentá-las. O mundo vai ficando muito repetitivo, e segue no caminho da mediocridade - é possível? Venho, no entanto, com uma novidade formidável. Trata-se do livro de estréia de Alexandre Guarnieri, CASA DAS MÁQUINAS, que a Editora da Palavra revela aos leitores que querem, antes de tudo, acreditar que sim, o novo é possível, embora cada vez mais raro. Anos atrás, quando li pela primeira vez a poesia de Alexandre Guarnieri fiquei impressionada. Talvez não tenha nem entendido, de pronto. Mas me valeu a intuição. Por algum motivo que nem eu sabia, tinha certeza de que estava diante de uma coisa nova, bem construída e, além de tudo, (fui ver depois) absolutamente poética, profunda, bela e terrível. Não é leitura para quem pensa que conhece tudo. Há que seguir. Vai aqui a instrução do autor, contida na contracapa: tome o livro ao alcance do olhar (a leitura é o combustível), tome-o pois, à mão,/ o tal dispositivo, livro (é no bunker de/ neurónios o mistério, à senha), que ninguém sabe, ainda, ao certo, ao torque/ da chave na ignição , se ligará ou não O livro de Guarnieri impressiona não só pelo conteúdo, mas também porque o objeto livro é também uma criação do autor. Não só a Casa produz poesia como cada engrenagem foi observada, detalhadamente azeitada para que tivéssemos a chance de ver a máquina, várias máquinas, cada compartimento de cada uma delas, em pleno funcionamento. A organização, seleção, as imagens, o projeto gráfico - tudo é obra do poeta. E ainda traz às páginas temas, palavras e procedimentos que poucos ousam utilizar, dando-lhes nova face, despertando-lhes novo sentido. Outros já fizeram? Tudo o que fazemos é feito do que os outros já fizeram, se formos inteligentes o bastante para captar o que nos salva ou o que apenas nos serve. Guarnieri soube fazer, e não sou eu, uma diletante, que garanto. Poetas e conhecedores indiscutíveis, Marcus Fabiano Gonçalves, autor do texto da orelha e Mauro Gama, poeta e crítico, autor do posfácio, me dão razão. Eis o que escreve Marcus Fabiano Gonçalves: "Das esferas celestes ao computador, de Ptolomeu ao robô, o homem pensa o mundo como máquina. Mas como pode a máquina, que é morta, servir de metáfora da vida? Parte dessa resposta está no livro de Guarnieri: pertencendo ao domínio do movimento, a máquina empenha-se em aproveitar a energia, tal como o corpo humano. Recém as mão do hominídeo deixavam o solo e já estavam dadas as condições para a aparição da ferramente e da linguagem: o gesto, a ostensão, a figura rupestre, ímpetos de comunicação da técnica e das coisas, dos sentimentos e das sensações. De fora o homem se inventava um dentro e não tardaria para que o artesanato forjasse arranjos cada vez mais complexos, capazes de moldar a matéria em sistemas de partes combinadas pelo acúmulo de sucessivas conquistas da inteligência e sensibilidade. A máquina subrodinou o mundo à transformaçao pelo homem, que, mudando o seu entorno, mudou também a si mesmo. Da lança à alavanca, do utensílio ao aparelho, as idéias de causa e finalidade aperfeiçoam-se na noção de funcionamento, esta espécie de vida das máquinas que, à diferença do homem, nascem na eureka e morrem no ferro velho desde sempre sabendo do seu para quê. Há nos poemas de Guarnieri uma insólita capacidade de maravilhamento com essa argúcia dos engenhos, mesmo quando não possamos compreendê-los completamente. Há um fascínio perscrutante, uma atenção agudíssima vislumbrando por entre parafernálias a eclosão daquele instante em que a mão, a mente e a circunstância juntas inventaram ou descobriram a ferramenta. (...) Hoje, entretanto, as máquinas colossais também se tornaram mais que minúsculas: nanométricas, moleculares. A química e a física são as novas engenharias dessas máquinas mínimas. Aparentemente sólidas e tão suavemente tácteis elas doravante em nada lembram a pesada empunhadura do machado de sílex. Do botão à tecla e desta ao ícone digital (e logo à voz, ao olho e quiçá ao pensamento) nossas bugigangas de efêmera elegância envelhecem tão rapidamente que suas carcaças obsoletas soterram a memória da graxa dos motores e do carvão que tisnava o rosto dos mineiros no alvorecer da Revolução Industrial. Tudo isso parece já pertencer a um passado remoto e longínquo. Todavia, apenas parece. Enquanto o homem tiver corpo, a máquina não morre nem se torna virtual. Ela somente se oculta, prolonga-se em próteses, protege-se em caixas e carenagens, aloja-se em compartimentos no ventre da urbe ou circula subterrânea por suas artérias tubulares. Ela enfim sobrevive na Casa das Máquinas, recinto de acesso restrito ao qual somos agora convidados por esse formidável livro de Guarnieri. Em poemas de sofisticado alcance rítmico e imagético, ele revela parte desse enigma das máquinas a nossos espíritos tão precariamente fascinados por mecanismos e automatizações, signos maiores da própria inconsciência nossa da cada dia. Afinal, é do paradoxos de uma robusta e delicada maquinaria da linguagem que Guarnieri nos fala. E como ela é blindada por um invólucro viscoso contra as investidas de decifração pela reflexividade, só mesmo à poesia ela porderia entreabrir-se assim, majestosa e circunspecta... E Mauro Gama: "(...) Guarnieri percorreu todas as trilhas de seus antecessores e informou sua compulsão expressiva com a tradição que o precedeu: com a tradição, esclarecemos, naquele sentido histórico e dinâmico em que Eliot insistiu e pelo qual sugeriu "a concepção da poesia como um todo vivo de toda a poesia já escrita". (...) Guarnieri trabalha sua linguagem com uma consciência integrada não propriamente de suas qualidades e resultados "literários", mas físicos e fisionômicos, indissociáveis do desenvolvimento interno e concreto, gráfico, de sua escrita. Ao encerrar sua primeira coletânea, o poeta instala o leitor entre paredes a um tempo gráficas, fonológicas e semânticas sem saída, sem horizonte além do que, inquietantemente, pode estar sendo gerado na seção terrificante de "A ânima da máquina": sua esperença centrífuga é o desastre final, ou a energia libertadora? Há algo de esmagador e apocalíptico em seu "Blecaute". A propósito, não esqueçamos o Brecht capaz de nos ensinar, que " de um rio que tudo arrasta/ se diz que é violento,/ mas ninguém diz violentas/ as margens que o comprimentem". É como no texto de Guarnieri: ali se consubstancia, na recriação de um universao verbal, a maior violência dos nossos dias: a da perda de qualquer sentido das atividades humanas emocionalmente dissociadas e em condições de crescente confinamento". Eis aí: Casa das Máquinas terá lançamento no dia 08 de novembro [2011], no Centro Cultural Justiça Federal,às 18 horas [Av.Rio Branco, 241 - Sala de Leitura da Biblioteca - 2º andar]


* Nascida em Pelotas-RS, Helena Ortiz é jornalista e taquígrafa, radicada no Rio de Janeiro. Poeta e contista, criou e dirigiu, entre 1999 e 2002, o projeto Panorama da Palavra, uma mostra semanal de poesia. O projeto deu origem a um jornal mensal homônimo, que tem edição em papel e na internet, e também à Editora da Palavra, seu braço editorial. Helena já publicou cinco livros de poesia. Estreou em 1995 com Pedaço de Mim. Em seguida, vieram Margaridas (1997); Azul e Sem Sapatos (1997); Em Par (2001); e Sol Sobre o Dilúvio (2005).


3. ENSAIO: “Nostalgia da forma na poesia contemporânea”, por Izacyl Guimarães Ferreira*:

[http://riomovedico.blogspot.com.br/2012/04/nostalgia-da-forma-na-poesia.html]

Todo gênero de arte procura uma forma própria para expressar-se. Assim a música e a poesia procuram um ritmo, o retorno de um som, uma frequência em busca de um módulo. Sem irmos longe demais, pode-se dizer que é do homem, do animal, de toda a natureza, a necessidade de um padrão. Cor, cheiro, qualquer sentido vivo quer é sua família, seu gênero, seu espelho natural, da raiz ao fruto. Repetir-se é perpetuar-se. Assim a palavra em suas formas matrizes, do som ao sinal, à escrita, à poesia. Por ser espelho ou recriação ou correção da vida, a arte, mais que ser cópia ou imitação, quer alguma perfeição, como a do círculo, a clareza, quando não seu contrário destrutor de toda identificação, pois a tal ponto se chega pela negação da forma como nos extremos das artes plásticas contemporâneas, na decomposição sonora pós-atonal e, hélas, nesse silêncio gráfico que pretendeu ser poesia, o concretismo. Um vôo brevíssimo sobre as formas da poesia, que desde sempre se apoiou no som, na constância de algum jeito de retorno, como o pulsar do coração, a marcha, nos levaria à série de invenções formais que até hoje são - que glória - contemporâneas. Como essa maravilha que é o soneto, que vem de Jaocopo de Lentini ou Guittare D´Arezzo e chega a Petrarca e daí a todos nós. Ou as décimas de Vicente Espinal e Lope de Veja, que em Jorge Guillén atinge a perfeição moderna. Ou os tercetos de Dante. Sem multiplicarmos os exemplos, chegamos à “retranca” de Alberto da Cunha Melo. Um despretencioso vôo sobre a poesia que se fez desde as rupturas do século XIX viria mostrar-nos como toda tentativa de revolução formal resultou em poucas obras primas, como as de Rimbaud, Whitman, Mallarmé ou nos equívocos de Cummings, Tzara, e que Pound e Eliot precisaram balizar com boa teoria e uma prática quase sempre exemplar. Entre nós, desde Mário, tanto Bandeira quanto Drummond foram melhores quando, após as demolições dos anos bélicos do modernismo escreveram seus grandes poemas, já então libertos de todo intento destrutivo. Ouso dizer que nossa melhor poesia contemporânea deixou no limbo a reinvenção da roda e buscou algum caminho de fazer arte, pois disso é que se trata:arte. Vemos que João Cabral é um construtor até mesmo quando fugindo da música reinventa o octossílabo e cria formas como as estrofes duplas, nos poemas mais maduros. Assim Lêdo Ivo, tão versolibrista quanto sonetista. Ou mesmo o rebelde Murilo será melhor na contenção italiana. Enquanto Cecília sempre fez poesia. Mais recentes, vemos um Gullar que após sonetos exemplares deu à dispersão absoluta do Poema Sujo uma suprema confissão de dor humana e se apresenta já agora como um falso liberto de regras, num modo pessoalíssimo de por ritmo em linhas desestruturadas que são poesia entre as melhores que se faz no país. Vemos o rigor de Ivan Junqueira, também o de Reynaldo Valinho Alvarez, o controle multiforme de Astrid Cabral e de Alexei Bueno. Paremos, pois exemplos não faltam, para mostrar que há e se procura “acabamento”, arte poética, se já não é mais de escola é pessoal, donde nossa riqueza expressiva. Tomemos como exemplo dessa busca a poesia de Alexandre Guarnieri, em seu recente livro “Casa das máquinas”, onde se expressa com rigor um exemplo dessa nostalgia da forma. De pronto, o livro impacta como objeto gráfico impecável, a capa em seu branco e preto de engrenagens que vão à contra-capa e se desliga, máquina posta em repouso após a leitura tão instigante e múltipla, tal como terá desejado o autor. Entre a juventude e a maturidade, pois nos altos trinta a quase quarenta anos, o poeta se apresenta dono de seu texto, sua machine a émouvoir. Poesia composta, lúcida, programada como desejaria Valéry ou fez Ponge, aqui citado, entre tantas e pertinentes epígrafes baseadoras de uma poética explícita, oposta a todo discurso prosaico e sem tentar subornar o leitor com distraídos prantos. Em correspondência comigo o poeta fala de “concretude buscada, status mesmo, de coisa, escultural, de design gráfico, de organização do espaço gráfico, de uma dimensão plástica a considerar” como sendo seu projeto, sua poética. Saíssemos de seu texto em busca de raízes, com as numerosas epígrafes, mas também além delas, encontraremos toda uma armação que como leitores contumazes nos leva às origens de sua poética visivelmente culta. Pensemos. A poesia é historicamente um campo de batalha entre fundo e forma, em teorias e práticas de múltiplos matizes que sempre contrapõem o quê e o como dos versos, privilegiando ora uma ora outra cara dessa moeda de tantos e discutidos valores. Se o sonho da forma pode resultar no parnasianismo ou no gongórico, o desprezo dela pode cair no excesso de prantos e dores do mais juvenil romantismo. No entanto, no difícil equilíbrio está quase sempre o melhor do que se escreveu em qualquer língua. Escolha cada leitor suas preferências, mas cabe recordar Camões, San Juan de la Cruz, Dante, Shakespeare, Goethe, para termos paradigmas. Mais: Pensemos na beleza gráfica do soneto, sua singeleza arquitetônica, dir-se-ia grega ou clássica, ou na terza rima do Dante. Todo poeta quer dizer sua visão de mundo de forma “perfeita” ou irretocável, embora Valéry nos diga que não se terminam poemas, que eles são abandonados... Tal como não temos um corpo, sim que somos nosso corpo, assim creio que quase todo poeta desejaria a sua obra uma perfeição de esfera, mais que de círculo, uma sonoridade de Nona ou de Cantata de Bach, redonda e completa entre dois silêncios. Vejo em Guarnieri essa busca, bem expressa nas palavras acima. Busca de concretude, design gráfico. Creio que ao caçar essa forma ele a expõe se com excesso eventual, em poemas quase esculturais, blocos de palavras que aqui e ali requerem espacejamento para caberem nos limites retos, verticais, da composição. Sim, composição como tipografia, composição, antes, temática. Mestre em Tecnologia da Imagem como profissional, seu texto espelha sua tecnologia poética, ainda que na aparente frieza do esculpido poema lateje uma paixão, contida mas visível no seu declarado amor pelos “assuntos” que compõe. Desde o interruptor , poema que abre o livro, até o último, post-scriptum, o controle da máquina do poema é ininterrupto, formalmente contido mas plenamente expresso, se uma ou outra vez algo obscuro. Sem citarmos na íntegra, começa seu livro dizendo “o funcionamento central desta escrita/ guiada desde engrenagens gerais, do complexo centro decisório (no miolo,o código)/ aos simples acessórios do chassi ( da capa dura às páginas d´alguma gramatura); clara/ aqui, uma gramática das máquinas, caixa/ de palavras [...]/ ninguém sabe, ainda, ao certo, ao torque/ da chave na ignição, se ligará ou não”. Eu diria que sim, ligou, funcionou. O livro se fecha com estes versos: “haverá uma máquina intacta, ainda,/ entre ossários e cadáveres; extinta/ a vida biológica, haverá ainda [...]/ a máquina anônima, total, renomeando/ com números o que restar do mundo”. Por certo os espaços entre as palavras, aqui, diferem do original, mas ilustram de algum modo a grafia do poeta, cujo livro é todo um minucioso trabalho de composição também tipográfica. Titulei este texto remetendo o leitor a pensar na suposta nostalgia da forma que vejo na poesia contemporânea, extendendo o termo às décadas finiseculares do XVIII. Retomando daí, cabe lembrar o constante ir-e-vir dessa aparentemente inacabável guerra estética privilegiando ora o fundo ora a forma da poesia. Talvez se possa pensar que já não se guerreia assim, mas duvido, pois os apresentadores do livro recolocam a questão e o próprio poeta, no seu visível esforço de contenção do texto, nos limites dos blocos tipográficos, espaceja aleatoriamente as palavras, como acima vagamente exponho. Tal esforço é válido se o poeta quer pela forma explicitar sua poética, na qual o rigor formal é essencial. Embora não rime, há sonoridade em seu texto. Não isomorfo no conjunto, seu texto é sempre fiel ao que quer dizer, longa ou brevemente. E é clara a metáfora geral do livro, de ser máquina a poesia. Toda forma de arte pode ser vista como máquina, um mecanismo engrenando fundo e forma, quês e comos. Assim a linguagem, assim os recursos técnicos do poeta, da língua natural aos efeitos que a colocam em movimento. Nostalgia da forma, pois as destruições a que se submeteu os leitores com fraudes e fracassos de toda ordem pediram restaurações e elas vierem por muitos mestres, muitos ainda vivos, por sorte, e produzindo. Tolices destrutivas sempre aparecem, não há licença de motorista para os autores do que pretendem seja poesia o que escrevem, inócuas palavras soltas no espaço que permanece em branco, carência de sintaxe e sentido, hermetismos vários. Assim como não temos um corpo, somos nosso corpo, a poesia não tem uma forma, ela é sua própria forma, existente como formato ou buscada como faz Guarnieri nestas máquinas vivas e rumorosas. Se é certo ver com Mauro Gama, no posfácio, que não há o lirismo choroso de tantos poetas na obra de Guarnieri, há sim, se contida pela arte, compaixão. E exemplos de sua compaixão (paixão com) são os textos, entre outros, da página 111, de título “sonho acordado”, na 99, “música de trabalho”, das “rotinas” de 137 e seguintes. Só exemplos. Por certo não há pranto, lamentos. Mas na frieza aparente, há compaixão. Se Guarnieri rejeita “dar-se em espetáculo” como dele fugia e criticava João Cabral, por certo faz da dor geral seu tema, sua matéria, indo atrás da frágil e ininterrupta vidraça do real.Criando essa forma compacta, quase dura e de difícil controle, esses blocos maciços de linhas descritivas, o poeta foge do formalismo do verso contado em sílabas, mas demonstra em sua busca de uma forma, o que considero uma nostalgia dela, da consagrada, ao alcance de todos. Não foge é de sua condição de poeta e quero crer (ou desejar...) que se renda à nostalgia que vejo neste seu esforço de originalidade ao rejeitar as formas fixas, de todos, e tentar criar a sua exclusiva maneira de dizer a que veio, pondo a girar as máquinas de sua casa.


* Nascido em 1930 no Rio de Janeiro, Izacyl Guimarães Ferreira foi adido cultural e diretor de centros culturais para o Itamaraty no Uruguai, na Costa Rica e na Colombia, entre 1984 e 1999. Antes, de 1953 a 1983 foi publicitário em agências no Brasil e no exterior e na Rede Globo; estreou na poesia em 1950 e desde então vem mantendo produção regular. Em 1980, reuniu no volume Os Fatos Fictícios toda a obra anterior. Depois disso já publicou cerca de uma dezena de livros, entre os quais os citados Memória da Guerra (2002) e Discurso Urbano (2007, com o qual ganhou o prêmio da ABL). Ensaísta e divulgador de poesia, o autor publica com frequência artigos em jornais, revistas e sites especializados.


4. RESENHA: “A casa das máquinas”, por Milton Torres*:

[http://www.musarara.com.br/a-casa-das-maquinas]

O poeta Alexandre Guarnieri declara que levou l5 anos no seu poema. Tempo bem gasto, grande livro. Esmagador até, nestes dias de tanta leveza. Não vou perder-me no repetir mal o bem dito, por ele próprio, em entrevista concedida a Adriano Lobão Aragão, e pela excelente resenha de Elvira Vigna, que eu não conhecia. Uma, das tantas qualidades, é a organização, já examinada por outrem. E esta agora: a garra rítmica do poeta, óbvia desde a primeira página. Nem é caso dar exemplos. O poeta é longo, mas hígido. E usa de aliterações e de assonâncias, mas fá-lo modernamente, no rouage da sua enorme fábrica. Mas o que é, enfim, a Casa das Máquinas? Para mim, novíssima Arte Poética. E o juízo demanda o exame do discurso poético. Salto, por já tão bem revistos, epígrafes e titulações autorias. Sistemáticas e pertinentes, aliás. E parto para o casus. Desde o início, a mecânica do autor é vitalista. E particularmente genital nestes começos: "há pinos limpos sob a carnadura de úteros eletrônicos, em suas trompas, duas válvulas ovulam em sincronia, pois que uma só, avulsa, é inofensiva" (pág. 21). Aqui, já o postulado da sincronia, pois a válvula avulsa não tem sentido. Isso, em harmonia com o que se transcrevera de João Cabral, à página 16. Vale para a Sintaxe, quanto vale para a Poética. A modernidade de Guarnieri lembra, nas referências mecânicas, a de Marinetti e dos pintores italianos dos novecentos e poucos; é nova atualização em avanço à eletrônica. E "três engrenagens se desgastam no trabalho de engatarem suas áreas:" (pág. 25), ou "se desgastam do contrato entre seus encaixes: se desencontram" (pág. 27). Pois tudo, que já foi bom em algum tempo, está sujeito à universal usura; a engrenagem gasta, e gastam as formas poéticas. Persiste a álea, "a falha inexplicável" (pág. 33) da humana obra. A funcionalidade dos meios, explicitada: "...motores são apenas os escravos, meios para um fim nas mãos do proprietário" (pág. 35). A página 30 enfileira os riscos – água, óleo, um visgo, o cloro, qualquer produto químico – que podem, inchando-os, danar os delicados cilindros (todos os 6 versos da pág. 39). Ou inflados os cilindros com gás tóxico (pág. 41). O moderno alegorismo de Guarnieri lembra-me, guardadas as diferenças do tempo e do objeto, o alegorismo do Roman de la Rose, em que a virtuosa castelã, fechada no seu jardim, não se furtava a percalços. A alegoria religiosa da Idade Média é cheia de tais alarmas; o mundo do amor e o mundo de Deus são biunívocos, senão mesmo antitéticos. E não só na literatura, mas também na música e na arquitetura, em que Deus, com seus anjos, e o diabo, com as gárgulas e monstros, dividem o espaço ornamental dos pórticos e dos tímpanos. Tudo, ou quase tudo isso, chega em vária forma e diverso objeto à contemporaneidade. O vitalismo erótico reentra na sextina interna, de pés muito curtos, à página 43: "tubos lúbricos". Mas os cilindros rombudos são incríveis pela sua capacidade de resistência (págs. 45-47). E que cascas serão essas? (pág. 45). Confrontação à idéia do palimpsesto de Gérard Genette? Porquanto as "cascas" dos cilindros de Alexandre Guarnieri resistem à raspagem; e almejam à fortitude! E os rebites “quase parafuso(s), sem rosca, sem fenda”, entrando à pancada (pág. 49). Duplicação, ainda aqui, do princípio ativo da força e da rudeza – o que entra é à pancada. Mas se não há as raspagens do palimpsesto, há a fusão, que aceita o molde (pág. 51). E o rebite, como tudo o mais, entra ereto e encrava; caso contrário não serve... A formatação da coisa é à mão, ou pela força calibrada de outra arma (pág. 61), então o homem completa a mecânica, e esta aquele. Mas a força é calibrada ou medida. E a relação é explícita entre o rebite e o poema! (pag. 67). Novamente, estatui-se que tudo é medido e pensado (pág. 69). Temendo alongar-me, ou ser tedioso, paro aqui. A outrem a Máquina Datilográfica (pág. 71), com a bela imagem do leque das letras, pois lembro, nas antigas máquinas, o leque verticalizado do alfabeto a ferir a fita bobinada contra o papel tão alvo. Estou persuadido de que a CASA DAS MÁQUINAS, poema longamente amadurado, veio para ficar.


* Milton Torres foi cônsul-geral do Brasil em Houston, Texas. Reside atualmente no Rio de Janeiro. Como poeta, publicou No Fim das Terras (2005) e Andaimes (2007), ambos pelo Ateliê Editorial (SP).


5. RESENHA: “Casa das máquinas, de Alexandre Guarnieri”, por Elvira Vigna*:

[http://vigna.com.br/divjorn09/]

[http://aguarras.com.br/2012/03/02/casa-das-maquinas-de-alexandre-guarnieri/]


Li o “Casa das máquinas” de Alexandre Guarnieri (Editora da Palavra) como quem se depara com uma ação de arte contemporânea. Inclusive, quando eu aqui citar um trecho que outro estarei abusivamente interferindo no que é proposto pelo autor, já que o texto é um bloco, um retângulo, perfeitamente desenhado e é para ser assim. O que me leva à primeira constatação. Vou precisar fazer uma digressão. A da questão da obra fechada em si mesma, orgânica, do modernismo, versus a obra aberta, contextualizada e nunca resolvida, da contemporaneidade. Porque Guarnieri põe suas palavras, já disse, em um bloco, e tem mais. Há epígrafes, às vezes tão longas quanto suas próprias palavras , a fazer outro bloco, este em itálico, na página ao lado. Há fotinhas de peças mecânicas, em igual PB a estabelecer uma ligação monocromática, visual, com as letras. E há os títulos/legendas, do conjunto todo. Então, estou frente a uma autoria convidativa, abrangente e múltipla, que começa por incluir o autor da epígrafe, este nomeado. E mais o não-autor de uma peça de máquina, e mais o autor, também não individualizado pois não expressivo, não subjetivo, das fotos dessas peças de máquina. O que acaba, é claro, dentro de tanta autoria, por incluir a do leitor/fruidor. Ainda nesse primeiro quesito, o da obra inorgânica, “instalada” por assim dizer, há as letras minúsculas que começam/ não começam, os textos de Guarnieri. Eles já começaram. Antes. Ou ao lado. Em outro livro, outra instalação, outra performance, outra ação. As peças de máquina também nunca se bastam. Parafusos, válvulas, porcas. Sem uma existência suficiente. A depender de outras, ausentes. Como as palavras, que também dependem de um processo não apresentado, para existir: “variadas as máquinas da gráfica gravando palavras à força, algumas grafadas à faca, a máscara da fala, capturada: tipo por tipo, a aparição inerente a cada caracetere garfado do alfabeto, letra por letra(..)”. Paro a citação, relutante. Os poemas são belíssimos e minha vontade é transcrevê-los inteiros. Eles têm um quê encantatório, e não só eu não deveria transcrevê-los aqui, fora de sua “instalação” em blocos retangulares, como também eles não deveriam ser lidos, mas ouvidos. E ouvidos no ritmo repetido, viciante, de uma máquina que faz sempre o mesmo movimento. Não faz. Não há repetição total em serializações. Há uma criação radical inclusa em repetições supostamente fiéis. (Quando não é a ação que se modifica ao ser repetida, seremos nós que nos modificamos ao recebê-la ou dela participar.) E aqui entro no segundo aspecto de arte contemporânea que Guarnieri dispõe, joga, espalha, no seu livro. O da repetição. Se dá em dois níveis. Primeiro, aquele a que já aludi: ele repete o que já existe. Epígrafes já escritas em outro lugar, fotos já impressas em algum catálogo. E ao fazer isso, é claro, questiona o conceito da originalidade, de início. O que é um “original”? O que vem “primeiro”, se a cada atuação o significado muda? O segundo nível da repetição é que ele de fato se repete. Uma olhada no sumário: três engrenagens, pg. 25; onze rebites, pg. 49. Não se trata de um poema a respeito de três engrenagens. São três poemas. Onze para onze rebites. Se você soma a serialização com aquilo que falei primeiro, o de se tratar de obras abertas, você tem uma situação de temporalidade muito rica e que é a seguinte: As frases em minúsculas, que já começaram antes, que têm uma existência “fora do quadro”; que se compõem em autoria múltipla ao se somar, entre outras coisas, às frases de outra autoria, nomeada, nas epígrafes; as peças de máquinas como que em um catálogo, também mantendo uma existência cotidiana, banal, “fora do quadro”,  não só por serem fotos (sempre indiciais de um “real”) mas também por se apresentarem sem expressividade subjetiva alguma; a titulação/legendagem do conjunto, a integrar uma ação única, a da página, não repetível em outra situação a não ser por simulacro (o que abre todo outro leque, do qual não falarei aqui). E eis que tudo isso me coloca diante de dois tempos. O tempo da “instalação” na página. E o tempo que se mantém presente e que vem da existência cotidiana, banal, de cada um dos componentes dessa “instalação”. Sendo que esses dois tempos estão trocados. O tempo que se mantém da existência “fora do quadro” de cada um dos componentes é um tempo automático, por assim dizer, no sentido de partícipe de uma rotina real, previsível, cotidiana, repetida, e que não sofre a interferência e o deslocamento oferecido pelo artista/escritor. O tempo da “instalação” desses componentes na página, por ter essa repetição forçada, estabelecida pelo artista/escritor, é um tempo, ele também, duplo. A repetição pelo artista aponta para o tempo sustenido de sua obsessão. As modificações inerentes à repetição apontam para a impossibilidade de se sustar o tempo. Então, repetindo (dessa vez eu): há um tempo de diegese que os componentes mantêm de sua vida “fora do quadro”. E o tempo “dentro do quadro” é duplo: o tempo sustenido da obsessão que obriga à repetição forçada, fabricada pelo artista/escritor; e as pequenas diferenças que derrubam esta estabilidade. Assim, o tempo vivo é o tempo “morto”, preso nas páginas. E o tempo “morto” é o tempo da vida cotidiana, previsível e chata. Bem. Agora, o terceiro aspecto contemporâneo da ação proposta por Guarnieri. Mas antes, uns exemplinhos altamente elogiosos, e não oriundos da arte contemporânea, mas de estratégias históricas que a arte contemporânea repete. E uso o termo repetir com o mesmo significado criativo que usei antes. Os Prelúdios de Bach. Um para cada uma das sete notas musicais mais seus estágios intermediários. Bach repetiu a estrutura musical em cada um dos Prelúdios. Intérpretes repetem há quase três séculos os Prelúdios de Bach, obedecendo sempre rigorosamente sua partitura, que já era repetida. Em cada época ou para cada intérprete, a música muda. Ivens Machado repete seus sacos escrotais cheios de entulho. Jac Leirner repete coisa à beça. Guarnieri, já falei, repete seus poemas. Não repete. Não repetem. Outro exemplo elogioso. O Dom Quixote de autoria de Pierre Ménard. Borges também não é contemporâneo. É modernista. Mas oferece seu personagem/autor de bandeja para nossa época de pastiches e fetiches. Ao terceiro aspecto, agora. O mole e o duro. Acho que Guarnieri (terceiro exemplo elogioso) faz o caminho inverso de Duchamp. O modernista que inaugura a contemporaneidade sai de umas pinturinhas à la Cézanne para suas máquinas duras. Mais uma digressão. Mole é o corpo. Duras são as estátuas. Mole é o que está vivo. Duro são os objetos. Uma das estratégias da arte contemporânea é inverter esse pressuposto. Há um artista brasileiro contemporâneo de que gosto muito, o Camille Kachani. Cobri para o site Aguarrás uma de suas exposições na Galeria Ana Maria Niemeyer no Rio, em abril de 2007. Ele faz umas caçambas de lixo, uns engradados de cerveja, tudo em pelúcia, molinho, gostosinho, coloridinho. Ao pôr em mole o que é duro, Kachani induz a que eu continue a inversão: que me depare com a possibilidade de que o corpo vire máquina, dura. A vida, uma engrenagem. Duchamp sai de suas pinturas cezanianas para as máquinas. Seu pensamento se automatiza. Suas pessoas viram máquinas. Sua Noiva, de gente, mantém apenas um rosinha cor-da-pele aqui e ali. O erotismo vira o automatismo manual de uma masturbação, a partir de um objeto-fêmea entrevisto por uma fresta de porta. Kachani e Guarnieri, como bons contemporâneos que são, denunciam o delírio modernista. Partem das máquinas e chegam na vida. A “instalação” chamada Casa das máquinas, proposta por Guarnieri, tem uma progressão. Começa mais máquina. Acaba mais vida. Para evitar mais um assassinato de suas páginas, reproduzo como imagem um dos primeiros e o último poema do livro.

Guarnieri escreveu uma peça de teatro. Não é uma substituição, in absentia, de nada. É uma ação. Existe. Modifica o entorno e quem dele participa.

[VIGNA, Elvira. “Casa das máquinas” de Alexandre Guarnieri. Aguarrás, vol. 7, n. 36. ISSN 1980-7767. Rio de Janeiro, MAR/ABR 2012.]

* Elvira Vigna é uma escritora, ilustradora e jornalista brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro em 1947, hoje mora em São Paulo. Tem vários livros publicados e alguns prêmios, como o de ficção da Academia Brasileira de Letras e um prêmio Jabuti de literatura infantil - setor a que se dedicou no início de sua carreira.


6. RESENHA: O poeta antipatético”, por Máxino Lustosa*:

[http://www.desenredos.com.br/bloco_de_notas_158.html]

[http://entrenosaderiva.blogspot.com.br/2012/04/casa-das-maquinas-de-alexandre.html]

Antes de ir ao que interessa, o texto, é importante parabenizar o poeta pela beleza ‘estética’ deste livro. Sua apresentação é de uma organização que encontrei poucas vezes, num excelente diálogo entre o título do livro, sua estrutura e seus poemas. Saber que o poeta é também o idealizador deste projeto (gráfico), que o integra como uma bela peça, como que já anuncia que o trabalho a seguir é fruto de uma engenharia refinada e pensada nos mais mínimos (também não gosto, mas é necessária a redundância) detalhes. Se o principal fosse menor, a primeira impressão já advogaria para engrandecê-lo. Eu sei, você sabe (e o Mauro Santayana também), vivemos a era da embalagem. Aproveito o grande preâmbulo (quem perambular – eu sei, eu sei – por aqui, já percebeu que me agradam as digressões), para dar a desculpa de praxe. A produção de um livro com o título deste e a primeira impressão que me causou fizeram que eu ficasse com a habitual preocupação de que lê-lo rapidamente seria o erro rotineiro (eu sei, eu sei) de quem não sabe degustar um trabalho detalhista. Os tempos, porém, estão mais mesquinhos na modernidade e justificam a leviandade com que os críticos se dedicam atualmente para fazer suas conjecturações rápidas. Peço, portanto, desculpas, certo de que relíquias me escaparão. O sumário já é um quebra-cabeça que solicita atenção – já é a máquina, já é o poema. Fala de uma contagem (?) na primeira parte (mecanophrenya) e obriga o resenhista inculto a ir ao google, tão inculto quanto neste assunto. Pensei em “latim”, na antiguidade dessa engrenagem (a palavra), talvez uma pequena olhada nos radicais, mas... Sigamos em frente. Não é bom que tudo se dê, prontamente. Também uma presença numérica parece apontar para uma montagem... A simpática segunda parte (?) tem o belo nome de “alameda da indústria” e o primeiro “poema” aceita a presença dos números para corrigir uma deficiência de uma possível máquina de datilografia – que inclusive se apresenta no último poema da primeira parte, que é também “um”. A terceira, “Urbi et Orbitron”, tem um poema que salta, por seu nome, aos olhos: “guerra civil” – interessantíssimo título para um poema. O google socorre o meu latim e faz referência à cidade e ao mundo. A quarta, “a anima da máquina [...]”, oferece uma noção dos recursos linguísticos (som, sentido, intelecto) de que dispõe o poeta Alexandre Guarnieri. É uma excelente carta de visitas, não!!? Ligada. O livro apresenta uma maturidade raríssima nos tempos atuais, onde poetas nascem e publicam quase que simultaneamente, onde, sabemos, tudo quer ser arte e todos se sentem capazes de arte, sobretudo da poesia, sobretudo, mais uma vez, de uma tal poesia instantânea. Alexandre Guarnieri vai na direção oposta a essa onda e, já na presença de João Cabral de Melo Neto, abrindo os trabalhos, está totalmente de acordo com a construção milimétrica do livro – trabalho de um engenheiro, para ficar na máquina; de um ourives, para juntar a máquina e a poesia. João Cabral, ao contrário do que fazem os marinheiros apaixonados por si mesmos, não está aqui para ajudar a vender o livro. Está aqui para ser justamente homenageado e lembrado como o poeta da máquina-pedra. Enquanto lia o livro, ia sentindo falta de um outro nome (nosso). Bem, mantendo a coerência, o nome de Ferreira Gullar surge no último “caderno” do livro. Perfeito. A luta para fugir ao patético levou nossos poetas ao radicalismo concreto e seu hábito do silêncio da palavra levada ao seu aspecto mais vazio, ou seja, destituída de seu vínculo exterior, de seu significado – os estetas me contestarão dizendo que, ao contrário, ela, desprovida assim, atingiria a plenitude de ter qualquer sentido. O texto é melhor do que o fato. Pois bem, durante quase metade do livro, Alexandre Guarnieri nos apresenta sua capacidade de ficar fora dos assuntos patéticos (e é evidente, afinal a “máquina é sem lágrima”), tão queridos aos poetas. Não o vemos amando, sofrendo solidões (talvez, alguma solidão metafísica, aquela que sujeita também a máquina... talvez). Seu exercício é descritivo e, com isso, a busca por enriquecer o objeto observado – e o fato de consegui-lo tantas vezes me impressiona. Quase o vejo estudando a máquina X (que tal a nave máquina de escrever?) e elaborar as metáforas que podem vincular seu funcionamento e sua falência ao funcionamento e à falência do homem. Quase o vejo apertando o verso para encaixá-lo, impondo (excessivamente) os efeitos sonoros de aliteração, assonância etc. Ocorre que o poeta antipatético não comove e, penso que, talvez, para um público que busca a emoção fácil, a sua poesia não encontre os devidos aplausos. Daí, chegar àquela tolice que certa vez ouvi, é um passo: Alexandre Guarnieri é um poeta para poetas, sobretudo, os poetas doutrinadores da forma – daí, a reclamação que lhe fizeram de não impor ao seu poema rigoroso o rigor do soneto. O poeta antipatético é um disciplinado. É também um virtuose das imagens e alcança momentos de genialidade (sim, eu sei que essa palavra está um tanto vilipendiada), mas, também arrisca entediar o leitor em longas sequências de metáforas. É um risco, mas creio que o saldo é positivo, com sobras. Quando o poeta assume um discurso (ou seria um panfleto comunista), abandonando rapidamente o antipatetismo, a poesia decai e recuperar-se novamente nos poemas finais, aonde o tema da falência (e o falecimento) retorna. A verdade é que é um belo livro, de grandes poemas e bela poesia. Sim, ligou, respondendo a pergunta indireta do interruptor (veja, quantas conexões nessa engrenagem – grata palavra – estão aqui). Queria citar os poemas, entretanto, o problema é que, nesse tipo de literatura, parece, que cada poema tem uma joia – quando, mais raro, não é ele todo a perfeição – e por estarem conectados ficam “juntos, disfarçando um a fraqueza do outro, caso ocorra, rara, falha inexplicável”. E quando o poema (rosqueado) todo não fica – considerem a caducidade do resenhista –, ficam as “letras crespas, sem cosméticos”. Gosto de pensar esse poema (que é o livro todo, pois o poeta nos orienta a entender o projeto como um todo) se realizando da seguinte forma: a pequena peça (que tal um interruptor?), os outros elementos até a máquina grande (a casa das máquinas), a indústria (ou outra casa das máquinas), e se amplia para a cidade (outra, que vai para as suas zonas). No meio disso, há um animal-máquina que funciona tal o ponteiro de relógio e que se encaminha para a sua extinção. Porém, a sua extinção (do animal-máquina, da máquina, da indústria, enfim, de tudo) não é o termino, pois, evidentemente o leitor já percebeu, uma máquina maior, caótica (tudo o que não organizamos), prossegue funcionando... Uma análise poema a poema seria interessantíssima! Tentei-a. Mas, o tempo é mesquinho. Porém, ainda achando um pecado (visto a unidade citada), creio que “Cosmogonia sonora da indústria” pode dar ao leitor uma ideia dos recursos do poeta Alexandre Guarnieri. Tomo a liberdade de transcrevê-lo. “cosmogonia sonora da indústria/ são trompas de foguete incendiando o expediente,/o som do reator. Reproduzir sua sucessão de/ estrondos, dos mais indômitos, o imbróglio por/ sobre o qual se arvora sua trilha sonora, exigiria o/ colossal esforço sinfônico, uma orquestra montada/ com instrumentos de sucatas monumentais,/ a tuba da mais absurda largura, um quilômetro/ de carrilhão de sinos, o tímpano no tamanho/ de um comboio ferroviário; na hierarquia de/ tal regência irreal, emprestada da mitologia,/ Thor, o deus da solda, o mais sério funcionário de/ Hefestos, ferreiro épico do núcleo terrestre e/ chefe da metalurgia telúrica; manejam centelhas/ nas fornalhas da caldeira do planeta, liberando,/ pouco a pouco, o combustível que sustém, prisioneiro,/ um incêndio de milênios; Hermes ou Mercúrio/ (patrono da indústria) trabalha bem atrás, último/ na tuba; um nos tímpanos, outro nos sinos, e todos/ na funilaria de uma poderosa conjunção de metais;/ de suas fidalguias de sangue e trovões escorrem/ folhas de flandres; vê o som do reator tem o peso/ ensurdecedor deste enérgico conjunto de martelos”. Claro que um livro com o nome de “casa das máquinas” não pretenderia isso (eu sei, eu sei, alguns dirão “justamente o contrário”), mas seria bom ver o poeta Alexandre Guarnieri, com todos os seus recursos, trabalhando dentro da temática patética e mantendo-se antipatético. Eis o desafio.


*Máximo Lustosa é professor de línguas portuguesa e espanhola do Estado do Rio de Janeiro e mestrando em Literatura Hispano-americana da Universidade Federal Fluminense. Desde 2005, mantém o blog Ideias à Deriva, onde apresenta alguns de seus textos.


7. RESENHA (EM PORTUGAL): “Alexandre Guarnieri, Casa das Máquinas”, por Helder G. Cancela*:

[http://contramundumcritica.blogspot.com.br/2012/03/alexandre-guarnieri-casa-das-maquinas.html]

Casa das Máquinas (Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2011) é o livro de estreia de Alexandre Guarnieri. Poeta e arte-educador carioca, Alexandre apresenta-nos uma poesia marcada por um intenso labor estético-descritivo, explorando as inusitadas possibilidades e rearranjos da linguagem. A seguir, apresentamos uma conversa com o autor, na qual discorremos sobre seu livro e sua poética.

« c4s4 d4s má9uin4s/ tod0s os m3canismos servis, entre es5es/ exibindo eficiênc1a às avess4s: assín-/ cronos, p4líndromos, contár1os, limitados ao az4r de funcionare3m/ ao revés, inv3r5os, de trás pra frent3. » 1

Com a predominância na poesia portuguesa contemporânea de orientações informalistas e de uma abordagem tendencialmente prosaica do quotidiano ou das identidades, é fácil esquecermo-nos da fundamental herança artística e literária das últimas décadas: a afirmação da investigação conceptual como via de produção artística e literária. Se a herança conceptual é claramente assumida ao nível das artes plásticas, o mesmo não acontece na literatura. Primeiro, porque o seu peso nunca foi o mesmo: a literatura é por natureza conceptual, pelo que a investigação conceptual não pode deixar de produzir uma reiterada remissão para uma identidade que é a sua — desembocando frequentemente num exercício tautológico e gratuito de progressiva homorreferencialidade. Por outro lado, à distância de algumas décadas, é possível verificar que muita da chamada poesia experimental (nomeadamente aquela que procurava assumir e articular o texto com a sua dimensão figural) se revela algo pobre, quando não ingénua. Isto não significa que não permaneça um vasto campo de exploração para a literatura e em particular para a poesia. Permanece, rico e amplamente aberto: aberto à exploração das relações com a imagem, aberto à dimensão oral, aberto à subversão dos sistemas de signos, etc. Casa das Máquinas, o primeiro livro de Alexandre Guarnieri (1974, Rio de Janeiro), é um excelente exemplo de exploração das potencialidades criativas quer de um programa conceptual estrito, quer do risco inerente a uma aproximação exploratória e experimental da língua. Estamos perante uma poesia experimental, operando a manipulação dos sistemas de signos para produzir um impulso representacional de particular eficácia. O programa conceptual e programático está claramente indiciado no título: Casa das Máquinas. O livro desenvolve um imaginário industrial, centrado na técnica e na máquina. Desde os mais pequenos mecanismos (por exemplo, muito assertiva na sua contenção, a série 11/onze rebites, que precisamente explora as possibilidades semânticas, culturais e técnicas de um objecto aparentemente anódino como o rebite), aos aparelhos mais complexos, ou às relações humanas nas sociedades industrializadas. Curiosamente, num momento em que se aprofunda a sugestão de estaríamos a desenvolver sociedades pós-industriais, fundadas na imaterialidade dos fluxos de informação, um livro como este coloca como central a ideia da máquina e da matéria. Mesmo que o objecto em análise seja um dispositivo técnico e material designado por disco rígido (veja, por exemplo, 2/dois discos rígidos, p. 23), a dimensão mecânica permanece central: a matéria pode ser manipulada, mas não superada.

«pedra fundamental/ não da pedra à pedra: calcário e areia. nem pedra cuja área se perca ou retraia. não é a pedra de água: o frágil gelo que valha. não é de pedra pequena que algum alpendre prenda. nem essa pedra que quebre: granito podre e breve. não é a pedra que parta ao peso que antepare. nem a pedra de ventre onde algum fruto arrebente. mas a pedra de ser pedra sendo-a simplesmente, pedra que não desprenda de sê-la possível sempre. pedra tão imprópria ao olho que imagem não recolha por ser tanto nela mesma o bloco que lhe é comum. tanto deserta a pedra que destino algum destrua um poder seu ser pedra que de nada mais dependa. pedra densa, perene, serena a forma que tenha a límpida geometria dessa área impenetrável. pedra tanto repleta de ser pedra sendo-a sempre que não haja idéia sequer para algo que não a seja. pedra bruta, sombrosa, que não tendo dentro ou fora sendo o centro que é inteira a sua matéria severa. pedra sem erosão, que, inerte, por quantos séculos penetre, permaneça tão completa bem como descomunal.» 2

Sabe-se como a questão da técnica é um dos temas centrais da modernidade. Num momento de questionamento dessa herança, a abordagem que aqui é efectuada não acusa nem redime a máquina, não a menoriza nem a enaltece, constata. O registo é quase objectivo, apesar dos ocasionais desenvolvimentos de uma imagética herdeira de algum surrealismo. A objectividade e o quase registo técnico da escrita são aqui elementos fundadores. Este livro comporta igualmente um forte investimento no projecto gráfico, também da responsabilidade de Alexandre Guarnieri. Normalmente, o texto surge na página direita, e na página esquerda surgem pequenas e recortadas imagens de dispositivos mecânicos . Cada um dos textos é também objecto de uma formatação específica (que aqui não se reproduz). O resultado é um livro-objecto bastante sugestivo, embora os poemas não precisassem do suporte visual para se afirmarem. A escrita, sem cedências nem concessões, seria suficiente. O programa conceptual é desenvolvido de uma forma quase metódica, mas imaginativa, e é só por si capaz de transpor a abordagem aparentemente fria e objectiva para um plano que é claramente o da inventividade estética e poética.

1. Alexandre Guarnieri, Casa das Máquinas, Editora da Palavra, Rio de Janeiro, 2011 (183 p.), p. 82.

2. Idem, p. 121.


* Helder G. Cancela. é Professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, na área científica de Estética. Mantém o blog Contramundum crítica.


8. MINI-RESENHA (EM PORTUGAL): A estréia de um Poeta”, por Arsénio Mota*:

[http://arseniomota.blogspot.com.br/2012/03/estreia-de-um-poeta.html]

A regra convencionada estabelece que a estreia literária de um autor ocorre com a publicação do seu primeiro livro. No entanto, esse autor pode ser já bastante conhecido pelas colaborações soltas que foi espalhando através dos anos nas páginas da imprensa até se fazer notar. É este, de novo, o caso do brasileiro Alexandre Guarnieri. O seu primeiro livro, Casa das Máquinas (Editora da Palavra, Rio de Janeiro, 2011, 184 pp), ao evidenciar uma voz poética bem amadurecida, revela também a dimensão e a qualidade do investimento que recebeu. Trata-se sem dúvida de um projeto pessoal ambicioso e convincente, longamente decantado e trabalhado pela força criativa do autor. Nas mãos do leitor, o livro, folheado, apresenta o apurado grafismo de uma obra que em si própria se harmoniza definitivamente com corpo e conteúdo. Alexandre Guarnieri, carioca nascido em 1974 e professor de área creio que próxima da educação pela arte, terá trabalhado no seu projeto, ao que julgo, sem pressas e com afinco até nele encontrar a sua voz. Soube esperar e amadurecer para finalmente poder surgir em plena forma. Sendo Casa das Máquinas, portanto, obra de estreia, é também uma vigorosa afirmação de novo poeta que marca o seu lugar no panorama literário luso brasileiro atual. As singularidades destes poemas abrem-se em diversos sentidos inovadores. Mas não é poesia de acesso fácil para o leitor comum. Um apresentador da obra, Marcus Fabiano Gonçalves, poeta e antropólogo, explica: «Afinal, é dos paradoxos de uma robusta e delicada maquinaria da linguagem que Guarnieri nos fala. E como ela é blindada por um invólucro viscoso contra as investidas de decifração pela reflexividade, só mesmo à poesia ela poderia entreabrir-se assim, majestosa e circunspecta.» Em posfácio, outro apreciador, o poeta e crítico Mauro Gama, começa anotando: «Não existe lirismo, na poética [...] de Guarnieri. Sua atitude estética é de um realismo essencialmente objetivo, e imediato.» Na verdade, a Casa das Máquinas organiza um minucioso maquinismo verbal de engrenagens, engates, válvulas, turbinas, rebites, parafusos, lâmpadas, chips eletrónicos, óleos, ferros, combustões, todo um mundo mecânico que evoca Cesário Verde e a Dispersão de Mário de Sá-Carneiro. Resulta numa metáfora tão poderosa contra este mundo terrivelmente desumanizado que a denúncia envolve a obra de A. Guarnieri num singular halo poético.

* Arsénio Mota, escritor português (nascido em 1930 na cidade de Oliveira do Bairro, Portugal) estreou-se em 1955 começando a publicar poesia e, em seguida, ficção, crónica e estudos diversos. Viveu cerca de três anos em Caracas, Venezuela, e em 1963 fixou-se no Porto para se dedicar ao jornalismo. A partir de 1985 marcou presença na literatura infanto-juvenil. Dedicou-se ainda à tradução e organização de antologias. Em 2005, Serafim Ferreira organizou o livro comemorativo Arsénio Mota- Cinquenta anos de escrita. Dispersou abundante colaboração, nomeadamente apreciações e recensões literárias, por livros de vários autores, revistas, suplementos literários e jornais.



9. ENTREVISTA: Concedida a Adriano Lobão Aragão* para o JORNAL “DIÁRIO DO POVO” (de TERESINA/ PI) e publicada integralmente no blog “ÁGORA DA TABA”:

[http://adrianolobao.blogspot.com.br/2012/03/casa-das-maquinas-de-alexandre.html]

Adriano Lobão Aragão - Casa das Máquinas é um livro organizado a partir de uma temática bem definida. Pode-se dizer que se configura como uma verdadeira engenharia verbal. Como surgiu esse livro-máquina?

Alexandre Guarnieri - O Casa das Máquinas aponta para uma mixagem de muitas das minhas referências culturais da adolescência: a ficção científica, as histórias em quadrinhos, as imagens da Revolução Industrial, as vanguardas artísticas da virada do século XIX para o XX (coroadas com a magnífica produção cinematográfica do filme Metropolis, de Fritz Lang, homenageada na capa do livro [cogitei igualmente usar um fotograma do filme Tempos Modernos, do Chaplin]). A promessa de um mundo maravilhosamente automático sempre me pareceu uma armadilha perigosa e parte dessa crítica consta tanto em Isaac Asimov quanto nos Jetsons! Lembro de ter sido tomado por uma verdadeira paixão pelo tema logo depois de ter escrito o primeiro poema do livro, chamado "3/ três engrenagens", que nasceu como um poema-objeto feito com papel vegetal e acetato (nunca foi de fato construído, mas teria sido em metal e acrílico). A temática me pareceu estar muito integrada às minhas escolhas pessoais, meu caminho técnico, enfim, todas as experiências com que tive contato no campo da experimentação poética, dos irmãos Campos ao Arnaldo Antunes, passando pelo Gullar neoconcreto e seus livros-poemas, o poema-processo, o poema-práxis, Mário Chamie e Wlademir Dias-Pino, pelo E.M. de Melo e Castro. Penso que busquei de alguma forma incorporar no Casa das Máquinas a lógica dos livros-poemas. Mas a escolha pelo foco textual (sobre o plástico e visual) foi consciente, sob a égide das estéticas de João Cabral de Melo Neto, Francis Ponge, Mauro Gama, do Gullar (agora o anti-concreto), entre outros mestres. A ideia de um tema central estruturando tudo sempre me pareceu o caminho lógico a seguir. Justamente por isso levei tanto tempo organizando o livro, mais de 15 anos desde a primeira versão daquelas "três engrenagens" (de 1995). Anos depois, em 2001, chegou a existir uma versão presumidamente definitiva do livro, quando Mauro Gama redigiu seu posfácio. Mas essa versão contava com um capítulo inteiro forjado a partir de 20 frames de um poema em vídeo, chamado "CiClotron" (que mostrei na minha dissertação de mestrado, preferindo à época, chamar de "poema cinético", só com palavras movimentadas sobre fundo branco, ao invés de vídeo-poema, conceito que circulava, onde quase sempre coexistiam imagens filmadas e palavras, superpostas). O aspecto atual do livro, com esse capítulo substituído pelo módulo entitulado "Urbi et Orbitron", seguiu justamente a operação de limpar o terreno, separando o eminentemente visual do puramente textual, muito embora no projeto gráfico tenha buscado homenagear muitas das experiências que citei, incorporando à capa uma chave liga/desliga, numerando estrofes como num flipbook, decalcando pequenas figuras. Existe muita carga oriunda do universo das artes plásticas no livro (Magritte, Duchamp, Tinguely, Palatnik, entre outros). É óbvio que ao longo desses 15 anos fui escrevendo outras coisas bem variadas, mas me parecem complicados os anos que terei pela frente na organização temática de um próximo trabalho que venha a publicar. Chegar a um resultado similar ao dessa Casa das Máquinas é algo que pretendo perseguir. Espero que os anos que esperei para lançar meu primeiro livro se reflitam no reconhecimento dos leitores dessa "engenharia verbal" (que você citou na pergunta), muito embora não espere ser apreciado pelos mais conservadores, nem pelos mais "radicais". Fiz o que estava ao meu alcance, com as ferramentas que dispunha, e adoraria ter fôlego no futuro para mais uns quatro livros (quem sabe).

Adriano - Por que tantas epígrafes, citações, no livro?

Alexandre - Penso que procurei construir para mim mesmo um mapa do meu próprio paideuma, gostei tanto de contemplá-lo que acabei por incorporá-lo ao livro... parte das epígrafes eu havia colecionado no processo de escrita mesmo, ao longo destes anos em que fui forjando o aspecto final desta Casa das Máquinas, parte busquei depois da estrutura pronta. Eram nomes que eu precisava homenagear, com os quais eu queria muito dividir a aventura que foi para mim o processo todo... queria dar aos leitores a oportunidade, ainda que de forma muito passageira, de tomar contato com esses nomes, ligados às minhas escolhas técnicas e estéticas no campo da poesia. As epígrafes representam também anotações do caminho (uma intertextualidade explícita), como as incrições na cela de um prisioneiro, salmos, frases, datas, riscos, como os recortes colados nas paredes sujas da oficina mecânica, cartaz de mulher nua, manchas e impressões dos dedos de graxa, "ruídos limpos" com os quais busquei extrapolar os limites do livro, um olhar para fora, como janelas abertas, revelando (sob a minha própria lente, tentando não perder o foco no campo semântico do livro) parte das paisagens descritas por outros poetas. No projeto gráfico, seguindo uma sugestão do autor das orelhas do livro, o poeta gaúcho Marcus Fabiano Gonçalves (bastante homenageado no livro), optei por posicionar, além das figuras e títulos, também as epígrafes à esquerda, nas páginas pares, poemas à direita, nas ímpares, o que me pareceu funcionar muito bem.

Adriano - Há uma arquitetura do livro, fisicamente falando, que dialoga diretamente com o tema evocado ao longo das páginas, conforme você mesmo comentou. Há também alguma influência das histórias em quadrinhos nessa arquitetura verbo-visual?

Alexandre - Sim, claro que há. Sempre encarei com bastante reserva livros de poemas ilustrados, porque vi e tenho visto muita associação pobre e gratuita entre imagens e palavras (inclusive em vídeo-poesia), muito embora o Surrealismo tenha proposto um descolamento entre as coisas e seus discursos (o que nem sempre vem a ser o caso). Para a matriz que escolhi no livro, precisei tratar com o máximo cuidado a inserção das imagens, criando um nexo funcional (longe de ser surreal) que enriquecesse a experiência da leitura, e consequentemente fosse de serventia fundamental para o projeto gráfico em si (o livro não seria o livro sem as imagens). A idéia de um catálogo de pequenas coisas, a realização de um micro-inventário visual integrado ao universo do livro foi o que planejei. Meu primeiro contato com a produção literária se deu através das histórias em quadrinhos, a linguagem instigante das formas, dos quadros e balões (ah, e das oonomatopéias!) me arrastaram do mundo dos dos desenhos para o mundo das palavras (que são também desenhos), desde a minha infância. Há muitos pontos de contato entre a escrita ideogramática (e caligramática) e o universo das hqs. Me interessava muito como um autor modulava o fluxo de leitura ordenando campos e superfícies nas páginas, como numa partitura espacial, dirigindo o olhar do leitor, programando um padrão de busca e decodificação em lógicas internas específicas à cada história e necessidade narrativa. Nos anos 90, tive a chance de me aproximar de alguns autores dO poema-processo e lembro como foi emocionante a ida à casa do falecido Álvaro de Sá (que lançou, inclusive, um livro chamado "Poemics", de 1991), folhear um dos raríssimos exemplares (merecia um fac-símile, uma edição de luxo!) do livro "A Ave" (de 1956), de Wlademir Dias-Pino. É muito coerente que a poesia visite as hqs e vice-versa! Para aproximar mais ainda o "Casa das Máquinas" dos quadrinhos, eu diria que o livro tem uma inteligência sequencial básica, tanto nos primeiros poemas, individualmente (os que estão explicitamente numerados), quanto na estrutura maior. Trata-se da proposta de uma grande montagem, um encadeamento que parte de peças menores (miúdas naturezas-mortas) para a construção de uma grande metáfora do funcionamento (um "anti-deus-ex-machina"?). Quem sabe se não foi essa a lição da maquinação (de imagens que colaboram para textos que colaboram para novas imagens) que aprendi com os gibis mais fantásticos da minha infância?

Adriano - Há um mudança significativa nas últimas partes de seu livro, onde, ao que parece, a máquina é também o próprio homem e suas relações sociais. É isso?

Alexandre - Como tema explicitado, sim, você tem razão, isso se verifica mais diretamente numa leitura dos dois capítulos finais, muito embora uma temática humana (da falência, da entropia, dos processos de deterioração, dos defeitos e desajustes) esteja presente metaforicamente desde os poemas iniciais. Mas existe de fato uma progressão que parte das pequenas naturezas-mortas (de peças e partes soltas), as conecta nas máquinas das fábricas e mergulha no humano (na "graxa" do humano, sendo através das relações com a cidade e a violência urbana, com o trabalho, ou mesmo as relações interpessoais) e os transcende numa maquinaria maior, quiçá cósmica (em "daemon-endo-machina" ou em "blecaute", por exemplo).

Adriano - O livro é todo ilustrado quase todo com imagens que remetem ao universo das máquinas, mas, próximo ao final, encontramos a figura de ouroboros e até mesmo um símbolo, ao que parece, maçônico, além de outras místicas e místicas no corpo do poema. Seriam mais referências a essa "máquina cósmica" mencionada?

Alexandre - Exato, Adriano. As imagens do Ouroboros sempre me fascinaram muito porque justamente apontam para a infinita capacidade de renovação, de fecundidade, de eterno retorno, de reinterpretação do mundo, da aquisição de renovadas chaves de entendimento e codificação da realidade e da criação, e acabaram representando, quase no final do livro, meus próprios votos de perpetuação para os próximos trabalhos, o constante contato com a linguagem e o compromisso de renovação poética. O moto-contínuo sempre foi uma promessa para a construção de uma espécie de máquina dos sonhos, cujo funcionamento fosse perpétuo e perfeito, que vencesse, portanto, toda perda de energia, todo o atrito, toda a entropia, e é obviamente um sonho da alquimia. Outros poemas apontam para esse universo dos símbolos mágicos, das parábolas mitológicas e alquímicas, em catálise pesada "uma receita secreta [para transformar chumbo em ouro!] teria sido cifrada, por séculos, na maçonaria", na "pedra fundamental" há uma alusão à pedra cúbica (um símbolo maçom; outra pedra, a filosofal, seria necessária para obter o elixir da longa vida, a imortalidade, ou seja, ainda o moto-perpétuo), "o ninho de Ouroboros desenterra-se" em "mineração", as figuras de Hermes e Thor dialogam musicalmente em "cosmogonia sonora [...]", e tem mais (mas que os leitores descubram)!

Adriano - E quais os próximos passos do poeta Alexandre Guarnieri?

Alexandre - Bem, eu não tenho escolha senão seguir escrevendo, é meu vício, minha necessidade, boa parte de minha vida é ler e escrever. Espero continuar descobrindo novos poetas e artistas que me inspirem com seus trabalhos, que me alimentem, que me deem a chance de conhecer seus mundos, por díspares ou similares aos meus, que são muitos, como os de todos nós. Penso que criar qualquer coisa que seja nesse mundo é lutar no front menos guarnecido (sem fugir do corpo-a-corpo) contra a angústia da alteridade, contra o vácuo abissal do precipício mais sinistro. A baioneta mais eficaz é a da criatividade inquieta e insatisfeita. As satisfações nos estagnam, nos oferecem oásis de inércia, e, ainda assim, é uma satisfação criar algo que dê algum orgulho, mesmo que momentâneo! Quem sabe se meu próximo livro já não está sendo gestado para daqui há uns 2 anos? Enquanto isso, vou precisar de quem quiser me ajudar a divulgar o Casa das Máquinas (que foi uma aventura e tanto!), divulgando também aqueles em quem acredito, os companheiros na batalha das palavras, presentes e vindouros, com o apoio daqueles que amo e que me permitem amá-los.

[Parte dessa entrevista foi publicada no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 14 de março de 2012]

* Adriano Lobão Aragão (Teresina, 28 de janeiro de 1977) é um poeta piauiense, autor de Uns Poemas (1999), Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra (2005) e Yone de Safo (2007). Formado em Letras pela UESPI, leciona língua portuguesa e literatura na rede particular de ensino de Teresina.

 

10. MINI-RESENHA: "As Fúrias e Casa de Máquinas", por Mariel Reis*:

[http://cativeiroamoroedomestico.blogspot.com.br/2009/09/escrevendo-uma-apresentacao-inusitada.html]

“nem sempre é terrível a música orquestrada das máquinas pesadas”.

A tecnologia é a ferramenta usada para estender nossas habilidades. Na mitologia percebemos claramente seu uso para o benefício dos heróis em suas peripécias. O caso mais óbvio desta definição esta em Perseu em sua luta contra a górgona Medusa se utilizando da espada – uma extensão perigosa do braço – e do escudo onde se refletirá a imagem fatal desta petrificadora de homens, quando encarada diretamente. Este escudo servindo para ampliar o sentido da visão do herói, auxiliando-o em sua missão. A tecnologia está presente no livro "Casa de Máquinas" (Editora da Palavra, 2011, RJ), de Alexandre Guarnieri, que está ligado diretamente e de algum modo à invenção da cidade e a presença de sua história através da aura destes objetos que contam sobre o homem e seu percurso no espaço urbano: "cidade/ é a metrópole essa crisálida precária de concreto/ o dragão atropelado entre os lírios e aneurismas da indústria/ os incríveis crimes de sua construção inauguram o futuro da pedra recriada: grandioso mosaico, entretanto lacrado sobre o próprio formato/ urbe de síndromes/ só neon a ilumina/ impressionam seus escudos de luz e poluição/ a cidade um animal de aço, sibila a bile de seus esgotos, vindo à tona, sob óxidos episódicos/ seus dias deglutem-se contra as próprias costelas luminosas/ tardes que um outro aço veloz apodrece/ quando anoitece, há receio sob o céu, químicos resquícios da toxina/ galáxia infinda de vias e avenidas, gritos na rua vizinha são como silvos elétricos sob a vigilância de olhos sintéticos/ o mundo quase recolhido sob gigantescos quilômetros de madrugada/ os apartamentos que restam acesos (barricadas) são mônadas contra os sintomas do sono. A presença de um lirismo anti-convencional que retrata a existência da coisa bruta, não sem aparatos de delicadezas, vide o poema "1/ uma lâmpada", é uma marca da poética ensaiada em todo o livro. As máquinas são a expressão do corpo humano, criadas pelo homem para reproduzir suas funções primárias, atendê-lo em suas necessidades cotidianas e não foge ao sonho de reconstrução do objeto divino/divinizador da natureza, rivalizando com o Demiurgo e sua realidade além - idéia na imitação daquilo que está no mundo sensível.

"1/ uma lâmpada/ é velha a luz da lâmpada elétrica: há um/ filete d’elipses espiraladas, lacrado a vácuo/ sob tão fina campânula de vidro, cujo relume luta pela decifração da sombra, das bordas/ do amplo salão nublado aos recônditos e do-/ bras do cômodo noturno. é uma vela repleta a lâmpada elétrica, estriando um crepitar/ constante de certa estrela irregular, que/ é amarela; numa extremidade da cápsula ovalada (como um figo sob a casca ou/ qualquer outro gomo oblongo aceso desde/ dentro) há uma rosca d’alumínio acoplada ao bocal, quase igual ao caule curto duma/ fruta, único. ao ligá-la, cintila, vaza a/ flama que aparenta a queima através do cristal unitário da cúpula tão delicada;/ entretanto quando é nula (ou cancelada)/ a conexão à rede de força, se esconde, escura sob a máscara frágil, sua chama/ dorme, some: quase se f o s s i l i z a."

Outro aspecto no livro "Casa de Máquinas" é o da punição da Pólis, executado no poema "Século XX" - todo o livro guarda relação direta com a mitologia greco-romana no arcabouço de arquétipos que cria porque por todo ele está o sopro das Fúrias, com sua música nem sempre terrível, mas atroz, que desaba das máquinas sobre os homens, encerrados no Hades/ Cemitério - vide poema "Ferro-Velho" - onde esses expurgos também cumprem suas penas, mesmo depois de descartados vivendo o estranho suplício tantálico de sua não-realização. Não acredito que a intenção do autor fosse de marcar no substrato dos seus textos a presença infrene dos arquétipos aludidos aqui, mas não se pode excluir da vida moderna esta epopéia mínima, que se observada, dialoga profundamente com a tradição.

* Mariel Reis é autor de Vida Cachorra [contos] (Usina das Letras, 2011) e Cosmorama [poemas] (2009), e mantém o blog: cativeiroamoroedomestico.blogspot.com

 

11. MINI-RESENHA, por Flávio Castro*:

Alexandre Guarnieri apresenta-se com seus poemáquinas; mas, ao contrário do que possa sugerir, não é esta uma poesia desumanizada, muito pelo contrário; existe aqui uma re-humanização da própria poesia. O poeta privilegia o espaço-em-preto, formatando a sua poesia em blocos-metafísicos que evocam o João Cabral de “A educação pela pedra”; no caso de Guarnieri, levando ao extremo, em uma técnica-aliterativa sem a qual os poemas certamente se desintegrariam, sumiriam no espaço branco da página. Não é, talvez, a imagem, ou simplesmente a metáfora, o que interessa a Guarnieri, mas antes a sua realização enquanto som, pois nos parece ser na sonoridade-aliterativa de sua engrenagem que os poemas criam corpo, e em conseqüência criam imagens, as quais, sem a técnica destacada acima, não conseguiriam compor-se em poemas. Isto posto, no livro todo, à medida que vamos avançando, seguindo seus poemas-blocos – e, dentro dos poemas-blocos, as estrofes-blocos que formatam o próprio poema – como sendo cada um uma peça do todo, percebemos, ou melhor, vamos encaixando, intuitivamente, o livro como um bloco-único. Sentimos como se tivesse sido posto em nossas mãos um quebra cabeça em formato de caixa, cujo clique se dê, talvez, no poema “post-scriptum” que fecha, ou abre, nunca se sabe, o “casa das máquinas” – “haverá ainda uma máquina intacta”. Seriam tantas as aproximações que gostaríamos de ter feito aqui, mas, felizmente, o espaço de uma orelha não nos permite; por isso ficamos com a que pensamos ser a mais importante no momento; aquela que sem a qual os poemas não existiriam, ou seja, a do poema enquanto forma; pois, citando Maiakovski, “sem forma revolucionária não há arte revolucionária”.

* Flávio Castro, é poeta (autor do livro Audito, CL edições, 2009).


12. ENSAIO: “Sobre a obra “Casa das Máquinas”, de Alexandre Guarnieri”, por Leonardo de Magalhaens:

[http://leoleituraescrita.blogspot.com.br/2012/05/sobre-obra-casa-das-maquinas-de.html]

Poética enquanto construto mecanicamente antilírico

Muito já discutimos sobre a poesia enquanto inspiração ou produção, enquanto arte espontânea ou transpiração ('luta com as palavras'), se Arte é algo que desabafamos ou algo que construímos. Os surrealistas preferem uma psicografia (a poesia brota do inconsciente?) enquanto os arautos da Oulipo chegavam aos teoremas matemáticos da análise combinatória para planejarem a Escrita. De manifestos em manifestos os espontâneos e os matemáticos defendiam suas visões de Arte, uns esperando a inspiração enquanto outros se sentavam em suas mesas de planejamento, devotados aos cálculos e às regras. Um espera enquanto o outro rabisca. Um medita e o outro rabisca e apaga e rabisca. E ambos se fecham em mundos estanques. A poesia não é espera nem é teorema, é amálgama de ambas, sendo um jorro e sendo um construto. Em ensaio anterior cuidamos da leitura da obra surrealista “Outros Silêncios”, do poeta José Geraldo Neres, onde podemos encontrar uma busca do espontaneísmo, da livre associação de ideias, da escrita (se possível) automática. Há todo um extravasar do inconsciente em imagens que são sem sentido ao mecanismo da razão. Mas há uma escolha de palavras, uma busca de lirismo, que não é fruto apenas do espontâneo, mas de um construir. Do outro lado, numa espécie de contraponto, temos aqui em mãos a interessante obra do autor Alexandre Guarnieri. Desde a capa algo inquietante se anuncia, uma cena de 'Metropolis' [1927], o filme expressionista do alemão Fritz Lang (1890-1976), onde homens e máquinas vivem num mundo de dependência, dominação e conflito. Máquinas! Pois adentremos a habitação dos seres mecanizados! “Casa das Máquinas” é um livro planejado, um livro matematicamente engenhado. Tem uma inspiração, uma intertextualidade, certamente, mas é um construto manufaturado, a exibir uma poesia projetada peça por peça, palavra por palavra, uma poética engenhosa e áspera ao estilo de João Cabral do Melo Neto, célebre 'engenheiro' da arte poética, com seu ritmo marcado, além da sua influência da voz popular, com cada poema sendo construído com planejada arquitetura, “Para mim a poesia é uma construção, como uma casa. Isso eu aprendi com Le Corbusier.” Mais do que planejamento! Há um campo semântico, um uso lexical que provoca estranhamento. A mesma estranheza que causou a poesia de Augusto dos Anjos, com o conteúdo semântico da área científica, anatômica, bioquímica, metafísica, ou seja, todo um vocabulário não exatamente lírico. Em “Casa das Máquinas” as palavras foram cuidadosamente eleitas, selecionadas, a apresentarem todo um campo semântico com referência às peças de máquinas, ferramentas, petroquímica, tecnologia, automação, automobilística, construção civil, processos metalúrgicos, etc. Mecanismo, engrenagem, maquinaria, motor, mecanismo, conexão, válvula, ferramenta, desgaste, reatores, cilindros, tubos, rebites, pressão, peças, encaixes, bobinas, dínamos, relógios, lubrificantes, fábrica, calibres, turbina, matéria, potência, pistões, óleo, trabalho, cálculos, sucatas, caldeira, matéria-prima, lâminas, pilhas, serras, graxa, cifras, ácidos, pedra, pedra bruta, pilares, lixo, refugo, esgoto, concreto, rotina, greve, burocracia, autômato, guerra, etc, em suma, eis uma amostra do 'glossário'. Não é, certamente, o que acostumamos a considerar como fenômeno 'lírico'? Assim ler “Casa das Máquinas” é folhear um manual de mecânica, engenharia, bioquímica, eletrônica, basta ver o glossário destas áreas prática, mas é como se as máquinas (se assim pudessem!) assim fariam poesia! Lirismo com graxa! Um ritmo marcado mesmo no poema em prosa, ou uma prosa que é poética mesmo que anti-lírica, pois conserva uma seleta de verbetes, um esmero na construção verbal. A terminologia do poema, digamos, é friamente calculada, projetada mesmo. Como confessa o autor, trata-se de “uma gramática das máquinas, caixa de palavras cuja engenharia concreta fixe alguma sintaxe”,


o funcionamento central desta escrita

guiada desde engrenagens gerais, do com-

plexo centro decisório (no miolo, o código)

aos simples acessórios do chassi (da capa

dura às páginas d'alguma gramatura); clara

aqui, uma gramática das máquinas, caixa

de palavras cuja engenharia concreta fixe al-

guma sintaxe, ou outra, esta reclusa, oculta sob

a tipografia física destes poemas rosqueados

[...]

[p. 13, interruptor ]


Reencontramos então a poesia arte-combinatória, com jogo de palavras, aliterações, mistura de falsos cognatos, de um concretista Haroldo de Campos (basta ver a obra “Galáxia”, reevocada em epígrafe aqui), todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o recomêço refina o refino do fum e onde fina começa e se apressa e regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende onde palavra atraí palavra num jogo verbal que inspirou também o poeta Luís Eustáquio Soares, em seu “Cor Vadia” (2002), " e futuro, o fruturo e monturo e fratura que atura e que atua como sempre imperfeito, sempre rarefeito, sempre desfeito, sempre refeito de feitos e de eitos dos fetos das netas dos netos de seus ecos ecos ...” e "(no barulho calcante calcando de meus pés a pele do rosto do desgosto do gosto / na falha que olha na folha do dente da tarde, que arde ao arder à pressão à pressão / à pressão, alta, do peso do peso do peso dos pés) / à sedução do não". Onde fica evidente o anseio de elencar e deslocar palavras, em outras (e novas) redes de significação (que sentido há, é outra questão?) numa fúria linguística, numa iconoclastia da linguagem, a lembrar a poesia frenética de “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos-Fernando Pessoa, “À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica / Tenho febre e escrevo. / Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, / Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. // Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! / Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!” Intertextualmente, lembramos de outra máquina, enquanto metáfora do mundo-enquanto-mecanismo, bem ao estilo do materialismo mecanicista, aquela 'Máquina do Mundo' presente nas obras poéticas de Luís de Camões e Carlos Drummond de Andrade,


“Vês aqui a grande máquina do mundo,

Etérea e elemental, que fabricada

Assim foi do Saber alto e profundo,

Que é sem princípio e meta limitada.

Quem cerca em derredor este rotundo

Globo e sua superfície tão limada,

É Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,

Que a tanto o engenho humano não se estende.”

(Lusíadas, Canto X, estrofe 80)


e


“a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.


Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável


pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar”


(CDA, “Máquina do Mundo”)


Mais do que o mundo-máquina, temos o ser humano enquanto máquina, homem-mecanismo, assim podemos voltar ao pensamento do francês De La Mettrie, no qual o homem-máquina (L’Homme-Machine) ocupa um lugar central, “Cada indivíduo desempenha seu papel na vida que foi determinado pelos mecanismos propulsores da máquina (capacitada de raciocínio), que não foi construída pelo próprio indivíduo”, afirmou La Mettrie (http://pt.wikipedia.org/wiki/Julien_Offray_de_La_Mettrie). Para evidenciar o mecanismo, seja do Mundo seja do Humano, a poética se estrutura num série de técnicas, no domínio mesmo da techné, num quase organograma de intervenções, ponto por ponto, como pilares que erguem um edifício. Seja em ritmo seja em disposição de palavras (toda a diagramação do livro é planejada, propícia a uma certa recepção do texto), ali se estrutura um tipo de produção entre o prosaico e o poético (do tipo anti-lírico). Encontramos um ritmo marcado, ou quase uma métrica rítmica, variando entre 10 a 12 sílabas, perceptíveis mesmo na 'prosa poética'. Podemos ler “uma máquina datilográfica” [p. 71] com um certo ritmo, assim “algo neogutenberg, relíquia de uma era: / non-eletric black deck, / olympia repleta / de teclas, de um écran madre-pérola / o escritor a opera, o teclado / um leque de letras da rara nave / ….” como a separar com [/] os 'versos', as unidades de 10 a 12 sílabas, segmentando o texto em prosa numa leitura ritmada. É possível. Em “c4s4 d4s má9uin4s” [p. 75] podemos segmentar um trecho assim, “as hélices do exaustor contra a asfixia: / suas aletas de centrifugação / aceleram o tráfego do gás, antes da estagnação; / o ruido gratuito denuncia a graxa / escassa: caixa-clássica, lacrada; a carapaça aparafusada / ...” e outro trecho [na p. 77] pode ser segmentado em 'versos' de 8 sílabas: “maior que a anterior, pujante , / é essa máquina de usina, / quase sozinha entre o alarido / descontrolado das buzinas / ...” E ainda outro trecho, em “neon : do fabrico ao uso” [p. 87] onde podemos ler de modo segmentado em versos de 10 ou 11 sílabas, no que aparentemente é um texto em prosa, assim “quem poderia supor a estranheza / de um gás aceso, que, para exercer / seu fascínio, e revelar o mais concêntrico / dos segredos, houve quem conseguisse / confiná-lo à vácuo, em estreitas / serpentinas de vidro fino, só / obtidas de um sopro controlado sobre / um fogaréu típico de maçarico, / ...” E assim em outros trechos onde a prosa se pode estruturar ritmicamente, com palavras escolhidas, com pausas (ainda mais com o uso de parênteses) onde é possível trabalhar friamente sobre a fronteira entre prosa e poesia. Do ritmo passemos ao uso das palavras, o glossário, a seleção que o autor dentro de um dicionário. Por exemplo, o uso de proparoxítonas, tanto pela sonoridade, quanto pelo emprego enquanto 'jargão' , ou até pelo aspecto esdrúxulo do verbete, são exemplos, algumas: rígidas / líquido ; válvulas / implícitas ; invólucros / lúbricos ; cáustico / sulfúrico; crítico / pânico ; pêndulo / autômato ; dínamo / mínimo ; telúrico / hermético ; esôfago ; módulo / lógico , dentre outras. A sonoridade é importante, daí a escolha das rimas – não ao estilo parnasiano, claro – mas uso de rimas internas (fato / aparato ; detido / nascido) além de rimas assonantes (aquelas marcadas na última vogal tônica, tão apreciadas e manejadas por João Cabral), p.ex., algumas: encapsula / desenvoltura / carnadura ; bocas / brocas ; fendas / frestas / gretas / brechas ; dióxido / tóxico ; dentre outras. Existem expressões inteiras que exploram a sonoridade, que se estruturam não só pelo sentido, mas pela 'aproximidade' dos verbetes, tais como : “o raro halo da harpa” ; “neurônio anônimo” ; “válvulas ovulam” ; “engate engasga” ; “enxertos de extrato exato”, dentre outras, pois em muitos trechos as palavras que se aproximam por sonoridade ou visualmente, como são exemplo, as seguintes: fatal / falta / causa ; arriscado / fatigado ; engate / engasta / desgastam ; encaixes / caixa / desencaixam ; desencaixam / desengatam / desastre ; tranco / trabalho / tanque / turbina / tambores ; eixo / exigência / exceção / mexendo ; quatro / arranque / tanque ; empuxo / luxo; anti-horário / celibatário ; barulhário / operário; pressão / impressa / aço / couraças ; graxa / caixa ; modelo / molde ; globo / glóbulo ; Toda esta techné está aí para passar a mensagem – a própria poesia, não um panfleto – onde mundo-máquina e homem-máquina estão denunciados além do mecanicismo, mas num contexto de desumanização. É o mundo humano sofrendo uma erosão desumanizadora. O trabalho que deve dignificar o homem, que deve humanizá-lo, é mais um a foram de suplício, de mal-estar, onde a fábrica é tortura,


nem sempre é triste mas trinca naquela liga

entre o aço mais elástico e o arrasto do ferro

incrustado de ferrugem rubra, engrenagem por

engrenagem, até o trêmulo epicentro dessa

gangrena fabril. Nem sempre se repetem, nas

forjas, tantas outras dessas órbitas ruidosas,


[p. 99, Música de Trabalho]


Há um lirismo áspero , uma ironia corrosiva, nos poemas mais prosaicos, mesmo no mundo mais desumanizado, mais metalizado, num ferro-velho de sensibilidades,


[…]

das pétalas de alumínio, que laminava com pre-

cárias ferramentas, adaptadas de garfos e fa-

cas, vinham vivos mosaicos coloridos, lindos:

fragmentos dos rótulos de refrigerante, (massa de

tomate) querosene, criolina e azeite virgem.


[p. 127, Jardins]


o anti-lirismo denuncia que a poluição está presente no mundo moderno (ou pós-moderno?) onde ar, solo, águas, células, pulmões, tudo está se envenenando, o homem-máquina está se enferrujando, num mundo que se desertifica, num rio que agoniza em sedimentos,


[…] mas aqui quase todo rio

corre enjaulado, são artérias de água sufocada nos

lentos jorros entre esgotos de tubulações, que de

mal anexadas, transbordam cancro pestilento, pus,

enxofre, último lodo sulfuroso manchando o asfalto

craqueado pela carga ingrata do tráfego rodoviário.


[p. 147, guerra civil (zona norte)]

e alerta para a gradativa, cancerígena, mórbida sujeira das cidades, das metrópoles-tentaculares, sitiadas num acúmulo de dejetos que nunca serão reciclados, nunca serão desintegrados, mas constituirão as colinas do futuro, numa paisagem de decomposição,


[…]

labirintos de detrito e lixo; a carcaça

da cidade, às claras, desentranha-se da

rígida epiderme de concreto e pedra,

revela as espinhas carcomidas, o esgoto

à mostra, maresia decompondo tudo, à

putrefação avançada, jaz o cadáver adiado

da cidade – metrópole distópica; todo o

resto é “ilusão de zona sul”, é cegueira

social maquilando severamente a carestia:

[…]


[p. 149, guerra civil (zona sul)]


Sofremos pois, dentro do mundo-máquina (ou mundo das máquinas?) há o homem-máquina – nós – na condição do corpóreo, de ter corpo, melhor: o corpo humano enquanto mecanismo, o homem-máquina, L’Homme-Machine , segundo teorizou La Mettrie, conjunto de vísceras-órgãos-membros que podem ser vistos como válvulas-pistões-ferramentas,


[…]

o que mostra esse monstro,

ogro, invólucro, é um evento

pregresso, esperado sem

mistério, ter corpo é habi-

tar o futuro cadáver de si

próprio, ignóbil, sólida ne-

crose avançando sobre o

óbvio, aviso prévio, carne e

ossada (nem sempre velhos)

desse espécime de cemitério.


[p. 165, caixa-preta]


Estamos apenas no começo da leitura / releitura de “Casa das Máquinas” - pois não se trata de um livro facilmente digerível, ou esgotável, mas antes, requer atenção constante, tamanha a inquietação matematicamente provocada. Este ensaio – sucinto e direto – é apenas um prólogo. Voltaremos ao livro de Alexandre Guarnieri em próxima oportunidade. Por enquanto, para melhor adentrar a 'casa das máquinas' nos cercamos de um mundo tecnológico, um cybermundo de sugestões, numa semiclaridade de lan house, uma rede icônica a vazar dos monitores, onde visualizamos alguns sugestivos ilustradores para “Casa das Máquinas”, sejam o cyber-alien-punk H. R. Giger, ou o figurinista e o cenografista do clássico filme alemão “Metropolis” , ou ainda os irmãos Wachowski da cyber trilogia “Matrix”. Meio às imagens alguns sons podem se propagar, numa verdadeira soundtrack, trilha sonora, para ler o engrenado “Casa das Máquinas” com a cybermusic do alemão Kraftwerk, com a música cyberpunk, Pink Floyd com sintetizadores em “Welcome to the Machine”, hip-hop-metal furioso da Rage Against the Machine, para citar (e situar) alguns ícones do pop, ou pop cult, da rotulada pós-modernidade. Temos mais e mais imagens! O que são filmes além de imagens em movimento?! E não dispensam soundtrack. Filmes (de outrora e de agora) que nos rodeiam : Metropolis, Terminator (ou Exterminador do Futuro), Matrix, filmes onde as máquinas se 'revoltam' contra os seres humanos. De escravizadas, as máquinas passam a escravizar, de dominadas, passam a dominadoras, assim a humanidade se torna dependente e escrava. Engrenagens em engrenagens, pistões em pistões, cilindros em cilindros, uma máquina dentro da máquina, e nanomáquinas nas veias, máquinas úteis e inúteis, máquinas que produzem máquinas, sim, máquinas se reproduzem! Mundo-máquina, cosmos mecanicista, englobando homens-máquinas, seres-mecanizados, sem autonomia, em labor e suor, sem prazeres artificiais, eis o pesadelo que nos anuncia “Casa das Máquinas”. Em breve rebobinaremos esta fita.


13. MINI-RESENHA: “Maquinaria Verbal”, por Bruno Zeni* (originalmente para o Guia de livros, discos e filmes da Folha de São Paulo):

[http://brunozeni.wordpress.com/2012/07/16/maquinaria-verbal/]


Maquinaria verbal*

Sobre Casa das máquinas (Editora da Palavra), de Alexandre Guarnieri


*Escrito para o Guia de Livros, Discos e Filmes da Folha de S. Paulo


Neste livro de estreia, o poeta carioca Alexandre Guarnieri aproxima a palavra poética de processos, máquinas, engrenagens, artefatos, mecanismos. Neste empreitada verbal que procura elevar a linguagem a uma “engenharia complexa” da sintaxe, o poeta é um artesão de descrições e metáforas que buscam o “mecanismo do signo”. A constelação de influências se revela em composições de João Cabral, Nelson Ascher, Mauro Gama, Haroldo de Campos e Francis Ponge, entre outros.

O resultado é uma combinação de anacronismo e atualidade, em sintonia com a própria matéria do livro. Descrições de tecnologias, maquinários e seus componentes se revelam em jogos verbais duros e ásperos, mas também permeáveis à memória, ao corpo e à passagem do tempo. Assim, o conjunto faz jus ao belo achado de uma metáfora inicial, que informa o todo: a leitura é o combustível capaz de pôr fogo, dar ignição, ligar esta “casa de máquinas” chamada livro.

* Mestre em Teoria Literária e doutorando em Letras na Universidade de São Paulo, é escritor e jornalista.


14. MINI-RESENHA: “O espírito e a máquina”, por Henrique Marques-Samyn*:

[http://clavecritica.wordpress.com/2012/07/16/o-espirito-e-a-maquina/]

O espírito e a máquina

Publicado em 16/07/2012

por Henrique Marques-Samyn


Luís Augusto Cassas. O Filho Pródigo: um poema de luz e sombra. Imago, 2008.

Luís Augusto Cassas. Evangelho dos Peixes para a ceia de Aquário. Imago, 2008.

Alexandre Guarnieri. Casa das máquinas. Editora da Palavra, 2011.


Tempo de extremos este em que vivemos, no qual o recrudescimento da religião (o que inclui um lamentável fortalecimento dos fanatismos) convive com um exacerbado tecnicismo, para o qual tudo se reduz à precisão dos números; conflito, por outro lado, característico do homem moderno, este que atualiza a perene contradição humana buscando compatibilizar a ciência e o dogma, forjando falsas respostas que mascaram sua condição trágica. Tempo de extremos, para o qual a literatura inevitavelmente funciona como uma testemunha, algo atestado pela leitura das recentes coletâneas poéticas de Luís Augusto Cassas e Alexandre Guarnieri. O contraste entre o teor das obras fica patente já pelas capas: as referências religiosas estampadas nos livros de Cassas − o peixe, a cruz − oferecem um contraponto ao universo mecanicista sugerido pela capa do livro de Guarnieri − o pesado maquinário sobre um fundo escuro.


“Todo evangelho nasce sobre o signo de comunicar a boa nova”, afirma na primeira sentença o texto prefacial de Evangelho dos Peixes. Esse livro, como O Filho Pródigo, semelha essencialmente o registro poético de uma busca espiritual, não apenas de um sujeito lírico, mas de toda uma coletividade humana; de onde a pletora de referências esotéricas, conquanto na obra predomine o vetor cristão, presente nos inúmeros elementos bíblicos que orientam o texto poético. Não é preciso conhecer − como o autor deste texto não conhece − o poeta Cassas para perceber que é de si mesmo que ele fala; que sua poesia é a crônica de uma trajetória pessoal, porventura de uma história de conversão (o que explica certo proselitismo presente em algumas passagens). Há em Luís Augusto Cassas − ou, para falar com mais justiça, na subjetividade lírica que transparece na escrita poética − algo de um homem medieval, que no mundo enxerga um universo de símbolos, que não consegue ver a si mesmo senão como parte de uma totalidade que se esvai no mistério. “Sou o filho pródigo / que jamais retornou ao lar paterno”, escreve o sujeito lírico, expressando a angústia com que parece enxergar o mundo que o cerca, buscando sentidos que o levem para mais além.


No extremo oposto, na renúncia à necessidade de um “mais além”, está a voz que se manifesta em Casa das Máquinas. Neste livro em que não existe lirismo, como precisamente ressalta Mauro Gama, o que há é uma entrega incondicional e absoluta ao real de números em que se encontra o homem contemporâneo. A resistência futurista à subjetividade é atualizada por Alexandre Guarnieri; contudo, seu livro nada tem de anacrônico, nada tem daquele inconsequente otimismo perante a objetividade que tão facilmente recairia no fascismo — pelo contrário: Casa das Máquinas é também (e em seus melhores momentos) um livro de denúncia, que fala sobre este homem que “como servo, serve; como vive, sorve; sem absolvição, o mero vassalo, insone à sombra do senhor, que há de alimentá-lo como um cão (à míngua) [...]; ei-lo anônimo, este móbile de nervos, ossos, que o é por si, serviçal, ou o que talvez pudesse ser, se não fosse, a sós, esse ossário frágil, só mais outro escravo [...]” . Neste livro não há lirismo, porque também não há um sujeito, ao menos não no sentido convencional; há, sim, os resquícios de uma subjetividade, reduzida aos estilhaços, para quem todo o sentido será sempre efêmero e provisório.

Luís Augusto Cassas e Alexandre Guarnieri são, enfim, dois poetas que não falam apenas por si mesmos; cada um ao seu modo, e habitando polos opostos − temática e formalmente −, registram os dilemas do homem contemporâneo, em sua conflituosa relação com a metafísica, em seu estranhamento perante um real que a todo o tempo o afasta de si.


* Henrique Marques-Samyn (editor do blog http://clavecritica.wordpress.com/) é Doutor em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde atua como professor e pesquisador. Escritor e ensaísta, já teve textos publicados no Jornal do Brasil, nas revistas Dorna (Galiza – Espanha) e Letralia (Venezuela) e em diversos outros periódicos. É crítico do jornal literário Rascunho(Curitiba). Email para contato: marques.samyn@yahoo.com.br


14. MINI-RESENHA: “Visita de Alexandre Guarnieri e sua 'Casa das Máquinas'”, por Nuno Rau:

[http://asmusasposmodernas.blogspot.com.br/2012/08/visita-de-alexandre-guarnieri-e-sua.html]

O livro de Alexandre Guarnieri, que tive a alegria de ler, é um projeto intrigante. A princípio, vemos um olhar prospectivo, em que a poesia fala objetivamente das máquinas, suas engrenagens, cilindros, graxa, ou então o espaço da fábrica, seus departamentos. A cidade também é vista como uma fábrica, e estamos nela sem saber se somos operários, objetos, consumidores, ou todas essas coisas ao mesmo tempo (o que nos remete a um estatuto de coisa mesmo, sem rosto, embalagem sobre a qual se podem aplicar os mais diversos rótulos e, pior, adicionar conteúdos muito diferentes, uma vez que assumimos papéis diferentes de acordo com a conveniência - que por certo não é a nossa).

Como fala Mauro Gama no posfácio, Guarnieri tem uma relação intensa com a tradição que o percebeu, e talvez este seja o ponto mais nevrálgico de Casa das Máquinas – os poemas fazem uma arqueologia das décadas tecnológicas que há mais de 200 anos em que ficamos mergulhados na graxa da indústria – os desenvolvimentos da máquina a vapor de Watt a partir da década de 1750, o sistema biela-manivela de Pickard em 1780 e outras pesquisas pulverizadas pela Europa. A expressão pós-industrial nos faz pensar, falsamente, que os novos objetos aparecem como que por encanto, sem operários que vivem e trabalham em condições subumanas, quando não se suicidam – vide o exemplo da Foxconn, fabricante chinesa do iPad e do iPhone para a Apple.

É este o ponto que me chamou atenção na Casa das Máquinas – Guarnieri faz uma arqueologia de nosso tempo ‘pós-industrial’, volta ao sistema biela-manivela porque quer desentranhar do que está por trás de camadas de zarcão e tinta o que seria a alma dessa máquina. Estamos falando de uma metafísica das engrenagens e do livro que traz poemas que me parecem querer ser sintomas – na impossibilidade da cura, ou da salvação, os poemas mostram as fraturas, as células que enlouqueceram nesse organismo de metal e graxa. Uma das chaves para isso me parece estar no poema “século XX”.

Casa das Máquinas seria, então, um livro que se dobra sobre estes mais de 200 anos como quem olha no espelho e quer ver que face aparece neste reflexo. Foi deste modo que percorri todas as suas páginas, sobressaltado. Segue um dos poemas do livro, catálise pesada’, que nos direciona para a contraparte química de todo o processo.


catálise pesada


em qualquer química limpa, de equilíbrio tranquilo,

uma revolução espreita, em potência, um inimigo sujo

lateja entre os componentes reconhecidos da fórmula

pacífica, o reagente intruso dança, ainda oculto, no

ambiente aparentemente belo do laboratório estéril ;


interna, a guerra de uma reação em cadeia começa

singela e lenta, bem serena, até que o catalisador

grite alto entre as moléculas o nome do descontrole,

infiltrando a fricção, inicialmente tímida, pelas

frinchas e fraturas do composto ainda líquido;


minúsculas frações lutam entre si, aquecidas, se desa-

justam resistindo, peças de um irrecuperável puzzle

em brasa, até que tudo cristalize desde as fímbrias,

no início, entre limites; projeta violentas cristas

contra as quais não há saída, esfria, solidifica,

o único bloco de fúria, a matéria fustigada pelos

centígrados pregressos; contra qualquer antídoto

ou plano de contingência, transpondo esse novo ataque

sobre o desígnio antigo; extravasados da fase, tendo

todo o ciclo concluído (os átomos sem pressa

reatados), ingredientes se acalmam na prensa de

uma das câmaras de catálise dessa indústria pesada;


terá sido a receita tão secreta, cifrada por séculos

na maçonaria,reduzida à metodologia ignígena da petro-

química? roubada d’algum longínquo tomo da alquimia,

mal interpretada em nossos dias, fazendo, ao invés, do

valioso ouro perpétuo, o mero chumbo espúrio e bruto?


15. MINI-RESENHA: “Sobre Casa das Máquinas, de Alexandre Guarnieri”, por Marcelo Novaes*:

[http://esteeodardo.blogspot.com.br/2012/08/sobre-casa-das-maquinas-de-alexandre.html]


interruptor. componente zero. uma lâmpada. duas válvulas. dois discos rígidos. três engrenagens. quatro motores. cinco cilindros. onze rebites. neon: da fabricação ao uso. mineração. bitolas. catálise pesada. música de trabalho. cosmogonia sonora da indústria. dormitórios. Urbi et Orbitron. pedrarias. jardins. pedra fundamental. blecaute e guerra civil.

Quem adentra o universo de Casa das Máquinas, de Alexandre Guarnieri, pode pensar estar se aproximando do texto de um engenheiro elétrico em devaneio noturno, uma versão tecno daquele noturno engenheiro de Invenção de Orfeu, um dos muitos alteregos de Jorge de Lima em transe febril.  Ali, em Jorge, arquiteta-se uma Ilha, Refundação do Mundo, em bases quase-oníricas. Aqui, pretender-se-ia um inventário maquínico, mas isso é parte da metatextual ironia. Alexandre Guarnieri entende menos de mecânica ou eletrônica do que de vocalizações da alma.

Afeito que sou à prosa poética [tendo-a incorporado à própria fala, qual música subterrânea, seja por e-mail ou viva-voz], sou suspeito ao sorrir ante tais mecanismos & engenhos. Sorrio frente à qualidade de sons e aliterações, tanto quanto pela arquitetura, supostamente mecânica, da estrutura textual. Alexandre Guarnieri faz algo que soa como uma escrita prima minha em segundo grau, sem me tomar o que seja [e é!] seu. "Sotaque paulistano", disseram-lhe.

Pudera alguém se ater apenas ao aspecto descritivo da prosa-em-poema, qual fosse ela nada mais que a exposição d’algum mecanismo em uso, sem à litania dar qualquer atenção, tomaria o texto seguinte por verbete de manual:

“de súbito há luz habitando um tubo (ou no casulo) onde é insone o neônio! eis o rito contraditório de tão espessa cintilação, só contida às expensas da mais fina vitrina, dos parâmetros da tripa vítrea, colorida, cujo conteúdo é clarão contínuo e vivo, câmara de tortura abrigando o animal luminescente, escorregadia enguia elétrica nadando na obscuridade de um aquário profundo, entretanto curto, enquanto há como causar-lhe sem escrúpulos (para renová-lo: fogo-fátuo) a quase asfixia com vapor de mercúrio”

(neon: do fabrico ao uso; fase 2)

Há fases ou etapas na apresentação de elementos complexos, como aqui, no caso. Mas há mais, além da aparente álgebra maquínica que sugeri no alinhavo d’alguns verbetes, logo acima, no primeiro parágrafo. Há esses sons e essas rimas, dentro do cursivo texto que aqui se lê: tanto no meu, quanto no dele. No caso dele, o texto trabalha como engrenagem semântica, sendo os lampejos poéticos apresentados à guisa de verbetes técnicos [ou técnico-descritivos]. Sutil e agudo procedimento. Nada de sangue ou muco. Há de se olhar o humano, também, para além da pele. E por sob.

Vamos a esta ladainha [ou litania], que Alexandre fez à sua mãe, e que eu pude recitar à minha: rouparia.

“não é agulha autônoma que costura, o pesponto pronto, que guia a quilha regulando o recorte, os nós sob controle, as curvas seguindo o molde; não é uma agulha anônima que cria roupa ou fia colcha, garajau, constrói rápido o vestuário ao toque do overloque, farda forte de soldado, ou pobre uniforme de empregado, frágil, de tecido mole; é rápida a agulha e não vacila nunca porque há ali (abaixo na hierarquia da franquia) sua máquina que não a ignora, que range decibéis em excesso; agulha que é aço e não erra porque há lá (acima na hierarquia da vida) a mão hábil e calada que costura, o dia a dia, puxa pano, o pé no pedal, no ritmo controlado o trilho que se equilibra na dura rotina da rouparia; vence, não cede; treme e não perde a peça; avança apesar do cansaço, tece; sente o péssimo exemplo, sempre, lamenta o escasso salário necessário, o abuso dos trabalhos; a força das costureiras, abelhas trabalhadeiras, é força de pelotão lento, exército sem sargentos: são senhoras, estes tristes aríetes em riste.”

Não é Marx, nem tão maquínico, apesar de poder ser cada uma dessas faces. É humano, sem jorro de sêmen ou pulsos cortados: casos graves, para bombeiros e paramédicos. É igualmente grave ou véspera de greve. Mas é tão calculado e contido quanto a artilharia que descreve, surda e quase-sem-ruído. Não é necessário ser ruidoso para ser lírico. Basta ter bom ouvido.


De músico.


* Marcelo Novaes é poeta e analista junguiano.


POEMAS DO LIVRO PUBLICADOS ONLINE


1. Na Revista Eutomia, de Literatura e Linguística, publicada pelo Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco:

[http://www.revistaeutomia.com.br/v2/wp-content/uploads/2011/12/ALEXANDRE_GUARNIERI_p.414-418.pdf]


Com destaque na apresentação por Susanna Busato* (trecho abaixo):


[http://www.revistaeutomia.com.br/v2/wp-content/uploads/2011/12/APRESENTA%C3%87%C3%83O_SUSANNA_BUSATO_p.398-403.pdf]


"Poesia como construção


Alberto Lins Caldas, Alexandre Guarnieri e Delmo Montenegro. Estes três poetas, na coletânea que se apresenta aqui, ligam-se por meio de uma consciência estrutural da forma sintagmática, muito mais do que pelos aspectos imagéticos. Quero com isso dizer que a tônica volta-se para um dado mais objetivo do discurso, que se volta para a sua própria construção. Mais do que uma reflexão sobre o objeto do discurso poético, os poemas procuram centralizar essa ideia neles próprios, à medida que eles acontecem na leitura. Cada poeta tem uma dicção que lhe é própria e agrupá-los aqui talvez fosse um equívoco, se não houvesse essa percepção para com o esqueleto sintagmático do poema. O que percebo aqui é o uso do processo combinatório do sintagma como o eixo roteirizador da poesia. O ritmo da sintaxe emerge a marcar o encadeamento das palavras, que têm na sua semântica a intenção da concretitude do objeto. Uma poesia, eu diria, mais precisa no direcionamento semântico e não efusiva, como percebo nos demais poetas da coletânea. Além do ritmo, a exploração sonora das palavras entra na construção como a projetar no eixo do paradigma a metáfora do traço responsável pela arquitetura do poema. O ritmo se tece como a reverberar o objeto que vai se construindo aos poucos nos poemas. Isso pode ser percebido na poesia de Delmo Montenegro, por exemplo, em que o ritmo com que o verso se fragmenta no espaço constrói a imagem do “samba de uma mão só [a fantasma]”, que vem depois representada pelas letras deslocadas verticalmente nas sílabas dos versos, como a construir, no seu ritmo, uma hesitação marcada pelas batidas finais de uma percussão. [...] Alexandre Guarnieri tem em seus poemas uma percepção do processo combinatório do eixo do sintagma como célula organizadora do discurso poético. Como linhas de uma arquitetura, tecem os versos a descrição minuciosa do corpo do objeto como exercício de reflexão. Uma descrição que singulariza o objeto, retirando de seu reconhecimento prosaico algo de natureza interna, como se fosse um corpo que se moldasse aos poucos para o leitor. Destaco “Pedra fundamental”, não somente por se expressar como consciência crítica do elemento material da poesia, mas como exemplo desse processo de construção dos versos, a que me referi acima, que têm na sua memória de poema a poesia de João Cabral de Melo Neto, principalmente pelo processo de fragmentação sintática, cujo ritmo encontra na repetição e na pontuação a obliteração do fluxo enunciativo, promovendo no discurso objetividade e reflexão na descrição do objeto.[...]"; * Susanna Busato é Doutora em Letras pela UNESP (em São José do Rio Preto), onde leciona Poesia Brasileira.


E destaque na "estante" do blog da revista:

[http://revistaeutomia.blogspot.com.br/2012/01/estante-alexandre-guarnieri.html]

2. No Suplemento Literário de Minas Gerais (em papel, com versão em pdf no site da Cultura de Minas):

[http://www.cultura.mg.gov.br/files/2011-setembro-outubro.pdf]

3. No Portal Musa Rara:

[http://www.musarara.com.br/a-casa-das-maquinas]

4. No blog do poeta português Luis Costa:

[http://legantdecrin.blogspot.com.br/2012/01/um-poema-de-alexandre-guarnieri.html]

5. Na Revista dEsEnrEdoS:

[http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/13-poesia-AlexandreGuarnieri.pdf],

Revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 13 - teresina - piauí - abril maio junho de 2012]

6. No Portal do poeta Antonio Miranda:

[http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/alexandre_guarnieri.html]

7. No blog do artista e escritor Nuno Rau:

[http://asmusasposmodernas.blogspot.com.br/2012/08/visita-de-alexandre-guarnieri-e-sua.html]

8. No blog do poeta Hilton Valeriano:

[http://poesiadiversidade.blogspot.com.br/2012/01/alexandre-guarnieri-poemas.html]

[http://poesiadiversidade.blogspot.com.br/2012/02/alexandre-guarnieri-poema.html]


ALGUMAS IMPRESSÕES DE LEITORES ESPECIALIZADOS


"Meu caro Alexandre: confesso-lhe que, apesar da leitura aturada, não consegui metabolizar nem o sentido nem o funcionamento de suas "máquinas", muito embora o poema seja em si também uma máquina. Louvo-lhe, todavia, a experiência com a linguagem e outros recursos (aliterações, paronomásias, símiles etc.) próprios da expressão poética. Alguns de meus mais caros amigos (Mauro Gama e Álvaro Mendes, os quais já prefaciei) figuram em seu livro, e talvez o tenham entendido de forma distinta. Na verdade, pareceu-me que essas "máquinas" estão mais a serviço delas próprias do que da poesia, pelo menos como a entendo. E entenda: sou apenas um leitor, com as limitações naturais de qualquer leitor. Abraço afetuoso do seu Ivan Junqueira." (Ivan Junqueira, é um jornalista, poeta e crítico literário brasileiro. É membro da Academia Brasileira de Letras [por carta, dez/2011])


"Li o seu livro com muito interesse. Creio que é o livro mais próximo da lição cabralina que li nos últimos anos. É, mesmo, uma espécie de exacerbação do procedimento. A temática é outra, é certo. A fixação na máquina e nas suas partes, que é o foco, é interessante e nova. Mas o procedimento da descrição "a-poética", no sentido da recusa ao lirismo [...] me pareceu algo como levar às últimas consequências as postulações que se podem extrair dos poemas metapoéticos de Cabral. Não tenho dúvida de que se trata de algo muito diferenciado na poesia contemporânea. Não é o meu caminho [...], mas isso não impede que reconheça as qualidades principais do livro, que para mim são o rigor da ordenação e a consistência dos procedimentos." (Paulo Franchetti, poeta e professor da UNICAMP);


"Não sendo conservador nem revolucionário, creio saber distinguir o que vale a pena ler e reler, entre propostas inovadoras e textos menos revolucionários, mais permanentes. Entre tanta gratuidade e pressupostas renovações, creio que você soube evitar quebrar vidraças e montar sua própria dicção. O tempo dirá a você, aos leitores e outros poetas, o que fica em pé e o que passa, entre tantas tentativas de mudança. Porque é visível seu controle da invenção e uma clara disciplina. Sem isso, creio, muitas intenções revolucionárias se perderam [...]. Quero crer que você sabe o que pretende fazer." (Izacyl Guimarães Ferreira, ex-adido cultural, publicitário, poeta, crítico e tradutor);


"Casa das Máquinas: um livro para a carne. É o que penso depois de passear por entre sua estrutura, sua usina. Um livro para ferir a carne, uma máquina infernal composta com precisão em imagens com peso, textura, densidade. Uma máquina infernal pensada em cada letra, em cada signo. A poesia de Alexandre Guarnieri se inscreve na poética das coisas, do miolo das coisas, ou do rebite, a mínima célula que sustenta toda a sua engenharia. E por falar em engenharia, a composição de Guarnieri traz a marca do martelo de Cabral sem no entanto confundir-se com ela. É um poeta a palo seco, para usar uma das imagens caras do universo cabralino, no entanto o sotaque (operário) é distinto. E bem-vindo, posto que na prosa ou na poesia são raros os escritores brasileiros cujo panorama de escrita se contextualize na paisagem industrial. É um grande livro. E Alexandre, grande poeta, sem pedir perdão pelo trocadilho." (Micheliny Verunschk, poeta e historiadora. Em 2004 foi indicada ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura, senda a única mulher, estreante e também a mais jovem a ficar entre os dez finalistas)


"Caro amigo [...] como não gostar de um poeta que prova, a cada a passo, que poesia se faz com palavras arrumadas de certa idiossincrásica maneira, como esse "Urbi et Orbitron" que você ousou justapor, coberto de razões? [...] É livro de poeta, será preciso dizê-lo? Agrada-me sobremodo a consciência que vc [...] tem de que as palavras não são apenas significantes portadores de significados, senão também blocos sonoros investidos de música e de ritmos. Fico feliz que a pátria de Augusto Meyer e de Mário Quintana esteja voltando ao proscênio da poesia brasileira!" (Sergio De Carvalho Pachá, ex-lexicógrafo-chefe da Academia Brasileira de Letras);


"Caro Professor Alexandre Guarnieri, li o seu CASA DAS MÁQUINAS e senti um impacto muito grande, como há muito tempo não sentia: "impacto" é uma palavra pobre, que só diz uma pequena parte da surpreza e do prazer duma verdadeira descoberta - a dum verdadeiro poeta. Tenho já uma idade avançada para - pensava eu, erradamente - essas novas descobertas, no plano da poesia, da forma poética e da sua música, da maneira de usar as palavras como peças duma maquinaria (verbal e sonora), de tal modo que cada poema é um "mecanismo", um bloco de peças que "funciona", vivo à maneira duma pequena máquina, com seu chiados, guinchos, tiquetaques. Isso COM PALAVRAS, escolhidas pela sua valência própria, "engrenadas" umas às (nas) outras, dando a nítida - e assustadora - sensação de mecanismos em cego funcionamento, independente do fator humano, descartável ou aleatório. Lindo!" (Frei Bruno Palma, tradutor, dentre outros, das obra dos poetas Saint-John Perse e François Cheng, filósofo e teólogo dominicano)


"O projeto gráfico é excelente. dá uma identidade muito forte ao livro. a manutenção do eixo temático também me pareceu bem estruturada, o que me faz pensar o quanto Casa das Máquinas deve ter sido fruto de um árduo trabalho de escrita e reescrita, como os bons livros costumam ser. [...] achei sua obra construída sob um interessante viés que não se rende à mera descrição, mas almeja alcançar o estado poético ampliando os limites do descritivo. Um grande desafio. Parabéns." (Adriano Lobão Aragão, poeta e professor)


"[...] Normalmente a poesia descritiva não é a que prefiro, mas julgo que você conseguiu dar densidade ao poema pela atenção obessiva ao pormenor, o que cria uma intensidade, que por vezes falta à tal poesia descritiva desatenta às questões da elaboração do texto. [...]" (Gastão Cruz, poeta e professor)


"Acabei de ler a “Casa das Máquinas”, de Alexandre Guarnieri: definitivamente é um profundo e seguro enfrentamento poético da máquina da existência: a “máquina do mundo” é minuciosamente desmontada e remontada por uma poética implacável e segura: fria e arrasadora: e os fluxos da “poesia brasileira” agora precisam ouvir esse canto afiado, seco, pedra do deserto e olhar bárbaro contra os bons costumes “burgueses” da “nossa poesia”: ritmo maquínico devorando da mirada: o resultado é um painel épico de um mundo destroçado, aberto pra quem precisa e gosta de, com bisturis poéticos, operar, vivenciar, degustar e enfrentar o horror da “máquina tribal”. (Alberto Lins Caldas, poeta)


"Tenho estado a ler os teus poemas [...]. Agradam-me bastante. Alguns deles fazem-me pensar um pouco num grande poeta francês de que gosto muito, Francis Ponge. Tal como ele (não diminuindo a tua originalidade) consegues tirar uma grande intensidade poética, a partir de uma linguagem descritiva, exacta, quase técnica–cientifica", dos objectos e das coisas. Para além disso agrada-me o ritmo rápido e encadeado, e o uso recorrente, bem-sucedido, da aliteração ( alguns exemplos: "se fatal o resultado de tal falta"; "quando o engate engasga, a escassez"; "pedra à perda"; "alpendre prenda. nem essa pedra") o que dá uma bela musicalidade e grande originalidade aos poemas. [...] Podemos dizer que a poesia de Guarnieri é uma poesia do objecto. Por meio de uma descrição exacta, linguagem objectiva, quase cientifica, dos objectos, [...] leva-nos a descobrir intensidade poética em lugares que nos parecem, ao primeiro olhar, despidos de poesia. O poema é neste caso uma identidade própria, uma construção, um corpo de palavras que ocupam um espaço e um lugar, o poema é um ser tão real como uma árvore, um rio ou uma pedra. Ele não imita, mas antes revela-nos uma realidade de que, à primeira vista, não nos apercebemos. Para além da linguagem precisa (por vezes podemos pensar em Francis Ponge, Williams Carlos Williams, ou João Cabral de Melo Neto) esta poesia destaca-se igualmente por meio do seu ritmo rápido, encadeado e onde predomina a aliteração, o que lhe dá uma grande expressividade musical." (Luís Costa, poeta)


"Muito bela edição. [...] Já coloquei o capacete e estou curtindo as máquinas. Parabéns, Alexandre. Espero em breve poder te enviar alguns nomes que, como eu, provavelmente também vão gostar de "casa das máquinas". (Antonio Carlos Secchin, poeta, ensaísta e crítico literário, acadêmico da Academia Brasilaira de Letras)


"Acabo de receber seu livro. Realmente me pareceu um trabalho bastante interessante. Uma certa nostalgia steampunk... Digo isso porque seu imaginário industrial (cidades planejadas, aquelas roldanas, etc) me soa bastante antigo. Sua "modernidade" é uma modernidade senhora, em tons sépia. De Stilj, Bauhaus, ... velhas matronas... Você cita Metropolis - mas eu iria mais para trás.... tipo "L'Eve Future" de Villiers d'Isle-Adam [...] bem-vindo ao time. [...] seu trabalho é muito bom e tem uma voz muito peculiar. Você conseguiu o que poucos conseguem: uma singularidade, uma marca distintiva já no primeiro livro. Evoé!!! Que os deuses e demônios da poesia permitam você seguir assim nas próximas incursões sob a Carne do verbo. [...]" (Delmo Montenegro, poeta, tradutor e ensaísta)


"Terminei de ler o seu livro: ótimo. Capa, orelha, posfácio e miolo. Muito miolo. O poema que você escolheu para contracapa dirá tudo: ligou! Trocadilhando CDA: suas máquinas do mundo me foram reapresentadas. Parabéns!" (Augusto Sérgio Bastos, poeta e ensaísta)


"[...] O que te dizer? Tentemos corresponder ao que um autor espera de um leitor, o que sempre e apenas prefiro ser ante um poema - aposento todas as minhas engrenagens de pensar - dominar - me exponho a Coisa que o poema, quando é poema, é, vivente. Primeiro te dizer que a primeira coisa que me ocorreu foi Ponge e sua posição poética toda dita no título do seu livro "Le part pris des choses - O partido das coisas". Quase sempre o poema toma os partidos dos sentimentos, dos sentidos, até das idéias, e da necessidade de expressar algo interno ou externo ao autor, ou ambas as coisas. [Nota que a palavra - coisa - já apareceu várias vezes no que te escrevi até agora, e isso sem dúvida é coisa causada pelo livro - quando se fala dele - o que me parece enfatizar que se trata, mesmo, de um organismo com sua própria identidade, que não aceita ser tomado por outro. [...] Vês que não consigo me aproximar do teu livro - frontalmente, penetrar nele - certamente porque prefiro a relação Distante com o mundo de máquinas - então contorno, falo dele indiretamente - atra-vés, de Ponge e suas Coisas, esse partido que tomou. [...] Eu, por mim, aprendi que um autor pode fazer de cada livro seu um mundo com uma identidade - ou se tornar uma única identidade, e temática - que aparece em todos os seus livros. Não sei qual dos dois tipos tu és. Se farás de cada livro um mundo - "Casa das máquinas" é um organismo passageiro através de ti, e um livro bastante interessante - e o que, afinal, interessa: de fato poesia. Agora, se isso - Isso: máquina - é ou se tornar teu universo temático e poético - então a coisa - ah - pode se tornar muito séria. Perturbadora. Quem sabe - temível. Ou, quem sabe, tomar o rumo já esboçado neste primeiro livro - se é o primeiro - sobre o assunto - que eu percebo claramente, da ironia, irreverência e do lúdico. Se quiseres, falaremos mais sobre essas hipóteses. Grato pelo envio, mantenho o livro por perto e já rondei através dele - lendo, mas sem penetrar, claro - várias vezes." (Vicente Franz Cecim, poeta)


"Alexandre Guarnieri é um engenheiro da palavra [...] Vai da nanotecnia das sílabas à macroestrutura do livro. "Casa das Máquinas" é uma obra repleta de ótimos poemas! [...] além da temática, há um nível estético altíssimo, comparável ao de qualquer grande poeta brasileiro. Analisa a sintaxe, a imagética, o ritmo, a rima, todos os pares fonéticos: tudo ali é verdadeira poiesis (algo feito, fabricado, produzido)!" (Adriano Wintter, poeta)


"Primeira grande surpresa: "Máquinas, peças soltas, parafusos ... Como objetos tão desprovidos de sentido foram capazes fazer brotar em meu peito esse sentimento de desajuste e sofrimento??" Continuei a viajar no universo criado pelo Alexandre: um lugar apertado e escuro onde a cada passo que eu dava conseguia enxergar um novo cenário e a cada novo cenário um novo sentimento. [...] Na realidade essa montoeira de peças, máquinas barulhentas, assustadoras, desproporcionais, irritantemente incapazes de parar, envoltas por este ar carregado e hostil - isso tudo SOU EU!! - São meus sentimentos, minhas dores, meus medos, meu olhar, minhas obrigações, meus gostos e meus desgostos." (Marta Anaya, designer e produtora)


"Parabéns pela sintaxe apresentada em “Casa das Máquinas”. Os seus poemas são dignos de nota. Gostaria de tê-lo como leitor. Para mim, o leitor é mais importante do que o autor." (Pedro Maciel, escritor)


"[...] você explora a influência cabralina bastante bem, assim como a influência concreta através das paronomásias, ecos e evocações gráfico-sonoras, e isto acaba virando um recurso que consegue sustentar a aproximação da poesia no interior da prosa, ainda que uma prosa entrecortada, fragmentada, fissurada. A mescla de influências cabralinas e concretas soa natural, como ocorre com Nelson Ascher, por exemplo. Alguns poemas seus me assustaram um pouco porque soaram muito enumerativo-informacionais, mas percebi que talvez esta enumeração caótica possa ser compreendida como, através do agenciamento funcional da prosa fissurada, a corrosão da forma no interior da própria forma de proposta acintosamente "rigorosa" (e aqui estamos fora do âmbito cabralino), equivalente a uma corrosão mecânica, que culminará no final da obra (afinal, a obra possui um liame de narratividade); ou uma situação de delírio no interior do mundo inorgânico e autônomo, e isto talvez seja possível porque, ao terminarmos a leitura, percebemos que não há um limite pré-estabelecido entre o humano e a máquina, o natural e o artificial (a não ser em alguns momentos mais explicitamente dicotômicos, de crítica disfórica em relação à tecnocracia urbano-industrial). Não há um limite estabelecido: aqui as noções radicais marcusianas de homem e sociedade unidimensionais provindas da habbermasiana predominância do agir racional-com-respeito-a-fins em detrimento do agir comunicativo, ou mais contemporaneamente das noções deguyana de antropomorfose avançada ou agambeniana de homem espectral fazem todo o sentido. O homem é máquina, mas, como disse, é por isto que há corrosão. Corrosão da máquina e do fetiche da forma, que revela a máquina, o homem e o homem-máquina. A corrosão se dá em alguns momentos como recuperação muito obsessiva do memento more, que tem seu momento mais belo em "Caixa-Preta", um poema que consegue evocar tanto Augusto dos Anjos quanto H. R. Giger. O apocalispse maquínico após a revelação da máquina do mundo também é muito belo, assim como o final prenunciador de que a máquina não desapareceria nunca, pois acompanha o homem desde seus primóridos, apenas se tornando mais persecutória e "ideológica" com o processo histórico de evolução científico-tecnológica, ou porque a "entidade" organizadora do real já é uma espécie maquínica, um instrumento regulador anônimo e geral que possibilita a discriminação dos entes. É uma obra de atmosfera assustadora, confesso. E adoro sentir medo. Medo que provoca reflexão. Por fim, adorei o poema "Pedra Fundamental". Foi o que mais gostei, confesso. Achei bem elaborado, achei aliciador de muita atenção. A pedra é uma constante na poesia brasileira, mas este seu poema é um dos melhores que li sobre a pedra. E digo isto pensando em Drummond e Cabral, por exemplo. Também gostei da intertextualidade com "A Flor e a Náusea" em "Jardins (2 Flores)" (esta divisão binária é bem cabralina, assim como tecnológica-computacional) [...]" (Carlos Eduardo Marcos Bonfá, poeta e doutorando em Teoria e História Literária, na Unicamp)


"De ‘Casa das Máquinas’ ninguém sai impune. Labirinto-motor da linguagem, é livro de quatro costados – potência máxima nas palavras, engrenagem que suspende para revelar rítmica e imageticamente o fascínio humano pela maquinaria, seja de que natureza for... E é, na verdade, um trabalho tremendamente artesanal com a poesia. Ouso, até: forte ourivesaria." (Rosane Carneiro, poeta, editora e redatora, mestre em Literatura Brasileira)


"Rapaz, grande libroooo. fueda. o meu preferido: mineração. mas tudo foda. ouvi o ranger da máquina. arrojo da porra. [...] joão cabral ficaria orgulhoso [...]" (Xico Sá, jornalista e escritor)

 

"No que diz respeito ao teu livro: belíssima impressão, à altura do capricho com que você organizou sua "progressão temática" [sua álgebra maquínica]. [...] Trabalha o texto com engrenagem semântica. Tem frequentes lampejos [...] muitíssimo bem colocados, por sinal. Também sabe incluir a mitologia na sua anatomia humana da máquina [da máquina tal como apreendida pelo humano], com a fina ironia de que a asserção poética de cada "fase maquínica" pudesse, também, se prestar à apresentação de um verbete técnico-descritivo. Bela dicção certeiramente aplicada a um tema bem escolhido. [...] Um texto com assinatura. Para mim, é um dos critérios definitivos para localizar um autor, e defini-lo como tal. Em "Rouparia", fazendo jus à Música de Trabalho que a anuncia, encontro momentos de extrema musicalidade. "Em literatura, a música é soberana", é uma de minhas máximas radicais. Vejo no teu modo de construção um apreço que, senão tão radical quanto a minha máxima citada acima, chega bem perto disso. A melopéia bem dominada aflora a poesia que pode haver até numa exposição didática, numa aula de matemática. O que dirá quando se faz uso dela para fins de alavancar o poema-embutido-em-prosa. Neste sentido, Guimarães Rosa sempre foi "poeta cursivo". O tempo todo, aliás. Melhor do que conseguiu ser tentando a poesia formal, em Magma. Na tua escrita não encontro certos excessos [aos meus ouvidos, frise-se, ao meu gosto musical-literário] de imagens montando-se sobre imagens, num encavalamento de sobreposições infinitas, nem excesso de reverberações além-tema-proposto. [...] Gostei muito. Não pretendo ser avalista de nada ou ninguém, apenas um leitor que pensa em voz alta. Para o meu faro estético, você é poeta e dos bons." (Marcelo Novaes é poeta e analista junguiano)

 

Resenha: "CASA DAS MÁQUINAS", por Betina Moraes


"Mais do que máquinas,
precisamos de humanidade...
Mais do que inteligência,
precisamos de afeto e ternura".
(Chaplin – Sobre o Filme Tempos Modernos)

 

 

 

CASA DAS MÁQUINAS, RJ, 2011.

 

"A Casa das Máquinas" é a prova física do valor transformador da
Poesia ao transpor-se para além das peças dispostas na engenharia
mecânica da construção de um maquinário. A Poesia cria a anima
do mundo! A Poesia anima os que estão esquecidos de verbos e
conjunções, os que não podem, por condição ou definição, ter para
si um verso. Se não havia lirismo no encontro entre a engrenagem e
o óleo que a faz movimentar-se, ou se o filamento de uma lâmpada
eléctrica não causava o mesmo espato que a chama de uma vela
ao ansiarmos por luz, acabou-se aqui, com a Revolução Industrial
Lírica do poeta Alexandre Guarneri.

Em tempos de amores digitados nas teclas de um computador,
carícias trocadas entre máquinas, robôs que prometem a vida para
além dos limites de nossa parca existência, a própria máquina
deixa de ser um complemento inanimado e passa a ser um animo
complementar. Então, por que não dedicar a mais nobre e sensível
homenagem aos botões que nos ajudam a ascender ou descender
em nossas necessidades básicas ou mais vitais? Por que não erguer
as palavras para confirmar a vida em uma vida mecânica? Há poesia
bastante em tudo, há necessidade de poesia em todas as coisas
(como em uma máquina de diálise e todos os seus necessários
encaixes para que o sangue se filtre e a vida se mantenha em
ordem…), por que não honrar as Máquinas dando-lhes a visão da
mais preciosa invenção do Ser Humano: Poesia.

Alexandre Guarnieri
Assim é a minha leitura do Livro "Casa das Máquinas" (Editora da
Palavra, RJ, 2011), primeiro livro de poemas do carioca Alexandre
Guarnieri. Transcrevo aqui as minhas observações.
O autor nos propõe a entrada em uma "Casa das Máquinas" que
tradicionalmente contém os mecanismos que mantém funcionando
as prestadoras de serviço que inventamos. Mas confesso que
é preciso sentido lúdico, visão propensa a ser leitor de Poesia
e tal e qual ter a mente pronta para uma estética que vai sendo
desenvolvida e construída a cada página, até que nos adaptemos
e pensemos que toda a poesia deveria ter um formato, um
mecanismo, uma estética industrial!

Como Vinícius no impactante e tristemente belo "Balada da moça
do Miramar":

«Faz bem uns dois cinco dias
Já começa a apodrecer
Seus ambos joelhos de âmbar
Furam-lhe o branco da pele
E a grande flor do seu corpo
Destila um fétido mel.»

onde a realidade crua e dura recebe o sofisticado revestimento
poético e a visão lírica delirante de um artesão das palavras, também
em "Casa das Máquinas" o som repetido e monótono das
engrenagens se transforma na valsa das palavras com orquestra
verbal cadenciada por inventividade e grande capacidade criativa.

No surpreendente "duas válvulas" página 21, o mecanismo poético
estabelecido no livro todo, a estética industrial, padronizada,
permite que o autor brinque entre as ferramentas que dispõe para a
escrita, usando inclusive os números 2 e 1 correspondentes à pagina
para ilustrar o 1 – 2 da válvula um e da válvula dois. E com que
nostalgia me peguei a "ouvir" o som da TV Telefunken da casa de
minha infância ao ser ligada e a válvula potente iniciar o seu
zzzzuuuuummm de aquecimento… Na ocasião, seria enriquecedor
para a minha vida haver um poema para as válvulas tão misteriosas
que ascendiam para ligar o tubo de imagem. «o raro halo da harpa
infrasonora». Pouco ou nada entendo de máquinas e seu
funcionamento, mas entendo o mecanismo da estética e as imagens
que são criadas através da boa poesia, de forma que o livro cativou-
me pela possibilidade de haver a consideração de uma vida
autónoma em um objecto aparentemente sem alma.

A repetição de uma ideia/imagem, é algo mecanizado e de grande
apelo industrial… No livro encontramos a maquinação e evidente
padronização de versos, tanto na construção rígida de caixas de
letras, quanto nas repetições sobre o mesmo tema ampliando e
fabricando versos com o mesmo verso na "linha de montagem". A
primazia fica por conta de que cada um dos objectos eleitos para a
repetição ganha identidade e tratamento únicos, é o caso de "três
engrenagens", onde cada uma ganha o seu espaço, embora repetidas
na "forma de fabrico", autónomo e individualizado. Isto é uma
grande "peça" de movimento que o livro aciona, a possibilidade de
rever um mesmo objecto que esperaríamos ser a repetição do seu
objecto gémeo, ganhar a sua identificação única e intransferível,
assim como é o número de série de cada peça que se fabrica, em
uma fábrica. A mesma coisa acontece com "onze rebites" e vai pelo
livro afora.

Usam-se números para substituir letras, letras como números
e uma criação em série que faz uma particular linha do tempo
emotivo quanto decide começar por pequenas peças essenciais
ao funcionamento de uma máquina (mecanophrenya), passando ao
maquinário de grande porte (alameda da indústria), ampliando-se
mais até a maquinaria de toda uma cidade, incluindo a desordem de
montagem que são a guerra e a violência urbana (Urbi et Orbitron),
até a alma das máquinas, sua razão interna de existência, o segredo
da caixa preta, os motivos de uma bomba relógio (anima da máquina)
(anima – animus).
Destaco a leitura do poeta para a cidade e percebo que factor
urbanóide e desregrado da sociedade carioca actual tem grande
influência na literatura desenvolvida por ele, que constrói relatos
afectivos em prosa poética sobre a difícil permanência de manter-
se em "funcionamento" como indivíduo na metrópole tropical e no
caos social que se transformou o Rio de Janeiro. Separa-se a zona
sul e a zona norte, mas a decadência de ambas é exaltada como
máquina que se desgastou e está em vias de ir para o ferro velho.
A crítica social e dura avaliação dos factos remete ao pensamento
do manifesto comunista, porém com a dádiva de uma releitura e a
descoberta de um engenho artesanal e caseiro, uma poética própria
como alternativa às aberrações do sistema.

Considero um livro Inspirado!
Muito me impressionou o tratamento gráfico e a atmosfera
perfeitamente conseguida de um lugar mais escuro e sem tantas
cores, porém com o asseio de máquina nova, viva, organizada
e "empilhada" página a página, dando-nos a possibilidade de
accionar qualquer um dos temas, qualquer peça, abrindo a caixa
que desejarmos. As epígrafes, extremamente bem escolhidas,
com nomes como Ferreira Gullar, Drummond, João Cabral de
Mello Neto, serviram para mim com a mesma forma e função que
um "Manual de instruções", acrescentando informações importantes
sobre o mecanismo da máquina que estou a "utilizar".
Talvez a engenhoca mais simples a que estamos acostumados seja
o interruptor de luz, o mesmo que o autor nos convida a ligar para
iniciar a leitura e a desligar, para fecharmos o livro. A opção por
esta peça é um "achado" pois a nascente das ideias é comumente
associada a lâmpada, ao ascender, a luz que se cria.
Para mim o torque na chave da ignição fez ligar um novo modo de
ver as Máquinas que me cercam e um passeio por uma estética de
lubrificada composição, no pensamento de um poeta que surge e
deixa aberta uma oficina de criações.
«haverá uma máquina intacta, ainda, entre ossários e cadáveres».
Ótima leitura, boa poesia, não concretista, mas antes concreta,
rígida, real e palpável, porém humanizada pela generosidade de dizer
sobre o que parece não merecer carinho.
Este é um livro que pode ser visto como ausente de lirismo ou
excessivamente lírico, pois a dureza da forma pode sugerir um
pensamento recto ou fazer vislumbrar a poesia das formas rígidas.
Eu recomendo, trata-se de acompanhar o nascimento de um poeta
que promete estabelecer-se de forma definitiva no panorama
literário.

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Alguns poemas do livro "CASA DAS MÁQUINAS"
(Editora da Palavra, RJ, 2011) podem ser lidos aqui:

RevistaEutomia
Suplemento Literário de Minas Gerais
Revista dEsEnrEdoS
Poesia Diversa
antoniomiranda.com.br - poesia dos brasis
Musa Rara

Uma compilação de toda a fortuna crítica pode ser lida aqui:
panoramadapalavra.com.br - poeta da vez

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POEMAS DO LIVRO PUBLICADOS ONLINE

 

1. Na Revista Eutomia, de Literatura e Linguística, publicada pelo Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco:

[http://www.revistaeutomia.com.br/v2/wp-content/uploads/2011/12/ALEXANDRE_GUARNIERI_p.414-418.pdf]

Com destaque na apresentação por Susanna Busato* (trecho abaixo):

[http://www.revistaeutomia.com.br/v2/wp-content/uploads/2011/12/APRESENTA%C3%87%C3%83O_SUSANNA_BUSATO_p.398-403.pdf]

"Poesia como construção

Alberto Lins Caldas, Alexandre Guarnieri e Delmo Montenegro. Estes três poetas, na coletânea que se apresenta aqui, ligam-se por meio de uma consciência estrutural da forma sintagmática, muito mais do que pelos aspectos imagéticos. Quero com isso dizer que a tônica volta-se para um dado mais objetivo do discurso, que se volta para a sua própria construção. Mais do que uma reflexão sobre o objeto do discurso poético, os poemas procuram centralizar essa ideia neles próprios, à medida que eles acontecem na leitura. Cada poeta tem uma dicção que lhe é própria e agrupá-los aqui talvez fosse um equívoco, se não houvesse essa percepção para com o esqueleto sintagmático do poema. O que percebo aqui é o uso do processo combinatório do sintagma como o eixo roteirizador da poesia. O ritmo da sintaxe emerge a marcar o encadeamento das palavras, que têm na sua semântica a intenção da concretitude do objeto. Uma poesia, eu diria, mais precisa no direcionamento semântico e não efusiva, como percebo nos demais poetas da coletânea. Além do ritmo, a exploração sonora das palavras entra na construção como a projetar no eixo do paradigma a metáfora do traço responsável pela arquitetura do poema. O ritmo se tece como a reverberar o objeto que vai se construindo aos poucos nos poemas. Isso pode ser percebido na poesia de Delmo Montenegro, por exemplo, em que o ritmo com que o verso se fragmenta no espaço constrói a imagem do “samba de uma mão só [a fantasma]”, que vem depois representada pelas letras deslocadas verticalmente nas sílabas dos versos, como a construir, no seu ritmo, uma hesitação marcada pelas batidas finais de uma percussão. [...] Alexandre Guarnieri tem em seus poemas uma percepção do processo combinatório do eixo do sintagma como célula organizadora do  discurso poético. Como linhas de uma arquitetura, tecem os versos a descrição minuciosa do corpo do objeto  como  exercício de reflexão. Uma descrição que singulariza o objeto, retirando de seu reconhecimento prosaico algo de natureza interna, como se fosse um corpo que se moldasse aos poucos para o leitor. Destaco “Pedra fundamental”, não somente por se expressar como consciência crítica do elemento material da poesia, mas como exemplo desse processo de construção dos versos, a que me referi acima, que têm na sua memória de poema a poesia de João Cabral de Melo Neto, principalmente pelo processo de fragmentação sintática, cujo ritmo encontra na repetição e na pontuação a obliteração do fluxo enunciativo, promovendo no discurso objetividade e reflexão na descrição do objeto.[...]"; * Susanna Busato é Doutora em Letras pela UNESP (em São José do Rio Preto), onde leciona Poesia Brasileira.

E destaque na "estante" do blog da revista:

[http://revistaeutomia.blogspot.com.br/2012/01/estante-alexandre-guarnieri.html]


 

2. No Suplemento Literário de Minas Gerais (em papel, com versão em pdf no site da Cultura de Minas):

[http://www.cultura.mg.gov.br/files/2011-setembro-outubro.pdf]

 

3. No Portal Musa Rara:

[http://www.musarara.com.br/a-casa-das-maquinas]

 

4. No blog do poeta português Luis Costa:

[http://legantdecrin.blogspot.com.br/2012/01/um-poema-de-alexandre-guarnieri.html]

 

5. Na Revista dEsEnrEdoS:

[http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/13-poesia-AlexandreGuarnieri.pdf],
Revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 13 - teresina - piauí - abril maio junho de 2012]

 

6. No Portal do poeta Antonio Miranda:

[http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/alexandre_guarnieri.html]

 

7. No blog do artista e escritor Nuno Rau:

[http://asmusasposmodernas.blogspot.com.br/2012/08/visita-de-alexandre-guarnieri-e-sua.html]

 

8. No blog do poeta Hilton Valeriano:

[http://poesiadiversidade.blogspot.com.br/2012/01/alexandre-guarnieri-poemas.html]

[http://poesiadiversidade.blogspot.com.br/2012/02/alexandre-guarnieri-poema.html]


 

ALGUMAS IMPRESSÕES DE LEITORES ESPECIALIZADOS

 

"Meu caro Alexandre: confesso-lhe que, apesar da leitura aturada, não consegui metabolizar nem o sentido nem o funcionamento de suas "máquinas", muito embora o poema seja em si também uma máquina. Louvo-lhe, todavia, a experiência com a linguagem e outros recursos (aliterações, paronomásias, símiles etc.) próprios da expressão poética. Alguns de meus mais caros amigos (Mauro Gama e Álvaro Mendes, os quais já prefaciei) figuram em seu livro, e talvez o tenham entendido de forma distinta. Na verdade, pareceu-me que essas "máquinas" estão mais a serviço delas próprias do que da poesia, pelo menos como a entendo. E entenda: sou apenas um leitor, com as limitações naturais de qualquer leitor. Abraço afetuoso do seu Ivan Junqueira." (Ivan Junqueira, é um jornalista, poeta e crítico literário brasileiro. É membro da Academia Brasileira de Letras [por carta, dez/2011])

 

"Li o seu livro com muito interesse. Creio que é o livro mais próximo da lição cabralina que li nos últimos anos. É, mesmo, uma espécie de exacerbação do procedimento. A temática é outra, é certo. A fixação na máquina e nas suas partes, que é o foco, é interessante e nova. Mas o procedimento da descrição "a-poética", no sentido da recusa ao lirismo [...] me pareceu algo como levar às últimas consequências as postulações que se podem extrair dos poemas metapoéticos de Cabral. Não tenho dúvida de que se trata de algo muito diferenciado na poesia contemporânea. Não é o meu caminho [...], mas isso não impede que reconheça as qualidades principais do livro, que para mim são o rigor da ordenação e a consistência dos procedimentos." (Paulo Franchetti, poeta e professor da UNICAMP);

 

"Não sendo conservador nem revolucionário, creio saber distinguir o que vale a pena ler e reler, entre propostas inovadoras e textos menos revolucionários, mais permanentes. Entre tanta gratuidade e pressupostas renovações, creio que você soube evitar quebrar vidraças e montar sua própria dicção. O tempo dirá a você, aos leitores e outros poetas, o que fica em pé e o que passa, entre tantas tentativas de mudança. Porque é visível seu controle da invenção e uma clara disciplina. Sem isso, creio, muitas intenções  revolucionárias se perderam [...]. Quero crer que você sabe o que pretende fazer." (Izacyl Guimarães Ferreira, ex-adido cultural, publicitário, poeta, crítico e tradutor);

 

"Casa das Máquinas: um livro para a carne. É o que penso depois de passear por entre sua estrutura, sua usina. Um livro para ferir a carne, uma máquina infernal composta com precisão em imagens com peso, textura, densidade. Uma máquina infernal pensada em cada letra, em cada signo. A poesia de Alexandre Guarnieri se inscreve na poética das coisas, do miolo das coisas, ou do rebite, a mínima célula que sustenta toda a sua engenharia. E por falar em engenharia, a composição de Guarnieri traz a marca do martelo de Cabral sem no entanto confundir-se com ela. É um poeta a palo seco, para usar uma das imagens caras do universo cabralino, no entanto o sotaque (operário) é distinto. E bem-vindo, posto que na prosa ou na poesia são raros os escritores brasileiros cujo panorama de escrita se contextualize na paisagem industrial. É um grande livro. E Alexandre, grande poeta, sem pedir perdão pelo trocadilho." (Micheliny Verunschk, poeta e historiadora. Em 2004 foi indicada ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura, senda a única mulher, estreante e também a mais jovem a ficar entre os dez finalistas)

 

"Caro amigo [...] como não gostar de um poeta que prova, a cada a passo, que poesia se faz com palavras arrumadas de certa idiossincrásica maneira, como esse "Urbi et Orbitron" que você ousou justapor, coberto de razões? [...] É livro de poeta, será preciso dizê-lo? Agrada-me sobremodo a consciência que vc [...] tem de que as palavras não são apenas significantes portadores de significados, senão também blocos sonoros investidos de música e de ritmos. Fico feliz que a pátria de Augusto Meyer e de Mário Quintana esteja voltando ao proscênio da poesia brasileira!" (Sergio De Carvalho Pachá, ex-lexicógrafo-chefe da Academia Brasileira de Letras);

 

"Caro Professor Alexandre Guarnieri, li o seu CASA DAS MÁQUINAS e senti um impacto muito grande, como há muito tempo não sentia: "impacto" é uma palavra pobre, que só diz uma pequena parte da surpreza e do prazer duma verdadeira descoberta - a dum verdadeiro poeta. Tenho já uma idade avançada para - pensava eu, erradamente - essas novas descobertas, no plano da poesia, da forma poética e da sua música, da maneira de usar as palavras como peças duma maquinaria (verbal e sonora), de tal modo que cada poema é um "mecanismo", um bloco de peças que "funciona", vivo à maneira duma pequena máquina, com seu chiados, guinchos, tiquetaques. Isso COM PALAVRAS, escolhidas pela sua valência própria, "engrenadas" umas às (nas) outras, dando a nítida - e assustadora - sensação de mecanismos em cego funcionamento, independente do fator humano, descartável ou aleatório. Lindo!" (Frei Bruno Palma, tradutor, dentre outros, das obra dos poetas Saint-John Perse e François Cheng, filósofo e teólogo dominicano)

 

"O projeto gráfico é excelente. dá uma identidade muito forte ao livro. a manutenção do eixo temático também me pareceu bem estruturada, o que me faz pensar o quanto Casa das Máquinas deve ter sido fruto de um árduo trabalho de escrita e reescrita, como os bons livros costumam ser. [...] achei sua obra construída sob um interessante viés que não se rende à mera descrição, mas almeja alcançar o estado poético ampliando os limites do descritivo. Um grande desafio. Parabéns." (Adriano Lobão Aragão, poeta e professor)

 

"[...] Normalmente a poesia descritiva não é a que prefiro, mas julgo que você conseguiu dar densidade ao poema pela atenção obessiva ao pormenor, o que cria uma intensidade, que por vezes falta à tal poesia descritiva desatenta às questões da elaboração do texto. [...]" (Gastão Cruz, poeta e professor)

 

"Acabei de ler a “Casa das Máquinas”, de Alexandre Guarnieri: definitivamente é um profundo e seguro enfrentamento poético da máquina da existência: a “máquina do mundo” é minuciosamente desmontada e remontada por uma poética implacável e segura: fria e arrasadora: e os fluxos da “poesia brasileira” agora precisam ouvir esse canto afiado, seco, pedra do deserto e olhar bárbaro contra os bons costumes “burgueses” da “nossa poesia”: ritmo maquínico devorando da mirada: o resultado é um painel épico de um mundo destroçado, aberto pra quem precisa e gosta de, com bisturis poéticos, operar, vivenciar, degustar e enfrentar o horror da “máquina tribal”. (Alberto Lins Caldas, poeta)

 

"Tenho estado a ler os teus poemas [...]. Agradam-me bastante. Alguns deles fazem-me pensar um pouco num grande poeta francês de que gosto muito, Francis Ponge. Tal como ele (não diminuindo a tua originalidade) consegues tirar uma grande intensidade poética, a partir de uma linguagem descritiva, exacta, quase técnica–cientifica", dos objectos e das coisas. Para além disso agrada-me o ritmo rápido e encadeado, e o uso recorrente, bem-sucedido, da aliteração ( alguns exemplos: "se fatal o resultado de tal falta"; "quando o engate engasga, a escassez"; "pedra à perda"; "alpendre prenda. nem essa pedra") o que dá uma bela musicalidade e grande originalidade aos poemas. [...] Podemos dizer que a poesia de Guarnieri é uma poesia do objecto. Por meio de uma descrição exacta, linguagem objectiva, quase cientifica, dos objectos, [...] leva-nos a descobrir intensidade poética em lugares que nos parecem, ao primeiro olhar, despidos de poesia. O poema é neste caso uma identidade própria, uma construção, um corpo de palavras que ocupam um espaço e um lugar, o poema é um ser tão real como uma árvore, um rio ou uma pedra. Ele não imita, mas antes revela-nos uma realidade de que, à primeira vista, não nos apercebemos. Para além da linguagem precisa (por vezes podemos pensar em Francis Ponge, Williams Carlos Williams, ou João Cabral de Melo Neto) esta poesia destaca-se igualmente por meio do seu ritmo rápido, encadeado e onde predomina a aliteração, o que lhe dá uma grande expressividade musical." (Luís Costa, poeta)

 

"Muito bela edição. [...] Já coloquei o capacete e estou curtindo as máquinas. Parabéns, Alexandre. Espero em breve poder te enviar alguns nomes que, como eu, provavelmente também vão gostar de "casa das máquinas". (Antonio Carlos Secchin, poeta, ensaísta e crítico literário, acadêmico da Academia Brasilaira de Letras)

 

"Acabo de receber seu livro. Realmente me pareceu um trabalho bastante interessante. Uma certa nostalgia steampunk... Digo isso porque seu imaginário industrial (cidades planejadas, aquelas roldanas, etc) me soa bastante antigo. Sua "modernidade" é uma modernidade senhora, em tons sépia. De Stilj, Bauhaus, ... velhas matronas... Você cita Metropolis - mas eu iria mais para trás.... tipo "L'Eve Future" de Villiers d'Isle-Adam [...] bem-vindo ao time. [...] seu trabalho é muito bom e tem uma voz muito peculiar. Você conseguiu o que poucos conseguem: uma singularidade, uma marca distintiva já no primeiro livro. Evoé!!! Que os deuses e demônios da poesia permitam você seguir assim nas próximas incursões sob a Carne do verbo. [...]" (Delmo Montenegro, poeta, tradutor e ensaísta)

 

"Terminei de ler o seu livro: ótimo. Capa, orelha, posfácio e miolo. Muito miolo. O poema que você escolheu para contracapa dirá tudo: ligou! Trocadilhando CDA: suas máquinas do mundo me foram reapresentadas. Parabéns!" (Augusto Sérgio Bastos, poeta e ensaísta)

 

"[...] O que te dizer? Tentemos corresponder ao que um autor espera de um leitor, o que sempre e apenas prefiro ser ante um poema - aposento todas as minhas engrenagens de pensar - dominar - me exponho a Coisa que o poema, quando é poema, é, vivente. Primeiro te dizer que a primeira coisa que me ocorreu foi Ponge e sua posição poética toda dita no título do seu livro "Le part pris des choses - O partido das coisas". Quase sempre o poema toma os partidos dos sentimentos, dos sentidos, até das idéias, e da necessidade de expressar algo interno ou externo ao autor, ou ambas as coisas. [Nota que a palavra - coisa - já apareceu várias vezes no que te escrevi até agora, e isso sem dúvida é coisa causada pelo livro - quando se fala dele - o que me parece enfatizar que se trata, mesmo, de um organismo com sua própria identidade, que não aceita ser tomado por outro. [...] Vês que não consigo me aproximar do teu livro - frontalmente, penetrar nele - certamente porque prefiro a relação Distante com o mundo de máquinas - então contorno, falo dele indiretamente - atra-vés, de Ponge e suas Coisas, esse partido que tomou. [...] Eu, por mim, aprendi que um autor pode fazer de cada livro seu um mundo com uma identidade - ou se tornar uma única identidade, e temática - que aparece em todos os seus livros. Não sei qual dos dois tipos tu és. Se farás de cada livro um mundo - "Casa das máquinas" é um organismo passageiro através de ti, e um livro bastante interessante - e o que, afinal, interessa: de fato poesia. Agora, se isso - Isso: máquina - é ou se tornar teu universo temático e poético - então a coisa - ah - pode se tornar muito séria. Perturbadora. Quem sabe - temível. Ou, quem sabe, tomar o rumo já esboçado neste primeiro livro - se é o primeiro - sobre o assunto - que eu percebo claramente, da ironia, irreverência e do lúdico. Se quiseres, falaremos mais sobre essas hipóteses. Grato pelo envio, mantenho o livro por perto e já rondei através dele - lendo, mas sem penetrar, claro - várias vezes." (Vicente Franz Cecim, poeta)

 

"Alexandre Guarnieri é um engenheiro da palavra [...] Vai da nanotecnia das sílabas à macroestrutura do livro. "Casa das Máquinas" é uma obra repleta de ótimos poemas! [...] além da temática, há um nível estético altíssimo, comparável ao de qualquer grande poeta brasileiro. Analisa a sintaxe, a imagética, o ritmo, a rima, todos os pares fonéticos: tudo ali é verdadeira poiesis (algo feito, fabricado, produzido)!" (Adriano Wintter, poeta)

 

"Primeira grande surpresa: "Máquinas, peças soltas, parafusos ... Como objetos tão desprovidos de sentido foram capazes fazer brotar em meu peito esse sentimento de desajuste e sofrimento??" Continuei a viajar no universo criado pelo Alexandre: um lugar apertado e escuro onde a cada passo que eu dava conseguia enxergar um novo cenário e a cada novo cenário um novo sentimento. [...] Na realidade essa montoeira de peças, máquinas barulhentas, assustadoras, desproporcionais, irritantemente incapazes de parar, envoltas por este ar carregado e hostil - isso tudo SOU EU!! - São meus sentimentos, minhas dores, meus medos, meu olhar, minhas obrigações, meus gostos e meus desgostos." (Marta Anaya, designer e produtora)

 

"Parabéns pela sintaxe apresentada em “Casa das Máquinas”. Os seus poemas são dignos de nota. Gostaria de tê-lo como leitor. Para mim, o leitor é mais importante do que o autor." (Pedro Maciel, escritor)

 

"[...] você explora a influência cabralina bastante bem, assim como a influência concreta através das paronomásias, ecos e evocações gráfico-sonoras, e isto acaba virando um recurso que consegue sustentar a aproximação da poesia no interior da prosa, ainda que uma prosa entrecortada, fragmentada, fissurada. A mescla de influências cabralinas e concretas soa natural, como ocorre com Nelson Ascher, por exemplo. Alguns poemas seus me assustaram um pouco porque soaram muito enumerativo-informacionais, mas percebi que talvez esta enumeração caótica possa ser compreendida como, através do agenciamento funcional da prosa fissurada, a corrosão da forma no interior da própria forma de proposta acintosamente "rigorosa" (e aqui estamos fora do âmbito cabralino), equivalente a uma corrosão mecânica, que culminará no final da obra (afinal, a obra possui um liame de narratividade); ou uma situação de delírio no interior do mundo inorgânico e autônomo, e isto talvez seja possível porque, ao terminarmos a leitura, percebemos que não há um limite pré-estabelecido entre o humano e a máquina, o natural e o artificial (a não ser em alguns momentos mais explicitamente dicotômicos, de crítica disfórica em relação à tecnocracia urbano-industrial). Não há um limite estabelecido: aqui as noções radicais marcusianas de homem e sociedade unidimensionais provindas da habbermasiana predominância do agir racional-com-respeito-a-fins em detrimento do agir comunicativo, ou mais contemporaneamente das noções deguyana de antropomorfose avançada ou agambeniana de homem espectral fazem todo o sentido. O homem é máquina, mas, como disse, é por isto que há corrosão. Corrosão da máquina e do fetiche da forma, que revela a máquina, o homem e o homem-máquina. A corrosão se dá em alguns momentos como recuperação muito obsessiva do memento more, que tem seu momento mais belo em "Caixa-Preta", um poema que consegue evocar tanto Augusto dos Anjos quanto H. R. Giger. O apocalispse maquínico após a revelação da máquina do mundo também é muito belo, assim como o final prenunciador de que a máquina não desapareceria nunca, pois acompanha o homem desde seus primóridos, apenas se tornando mais persecutória e "ideológica" com o processo histórico de evolução científico-tecnológica, ou porque a "entidade" organizadora do real já é uma espécie maquínica, um instrumento regulador anônimo e geral que possibilita a discriminação dos entes. É uma obra de atmosfera assustadora, confesso. E adoro sentir medo. Medo que provoca reflexão. Por fim, adorei o poema "Pedra Fundamental". Foi o que mais gostei, confesso. Achei bem elaborado, achei aliciador de muita atenção. A pedra é uma constante na poesia brasileira, mas este seu poema é um dos melhores que li sobre a pedra. E digo isto pensando em Drummond e Cabral, por exemplo. Também gostei da intertextualidade com "A Flor e a Náusea" em "Jardins (2 Flores)" (esta divisão binária é bem cabralina, assim como tecnológica-computacional) [...]" (Carlos Eduardo Marcos Bonfá, poeta e doutorando em Teoria e História Literária, na Unicamp)

 

"De ‘Casa das Máquinas’ ninguém sai impune. Labirinto-motor da linguagem, é livro de quatro costados – potência máxima nas palavras, engrenagem que suspende para revelar rítmica e imageticamente o fascínio humano pela maquinaria, seja de que natureza for... E é, na verdade, um trabalho tremendamente artesanal com a poesia. Ouso, até: forte ourivesaria." (Rosane Carneiro, poeta, editora e redatora, mestre em Literatura Brasileira)

 

"Rapaz, grande libroooo. fueda. o meu preferido: mineração. mas tudo foda. ouvi o ranger da máquina. arrojo da porra. [...] joão cabral ficaria orgulhoso [...]" (Xico Sá, jornalista e escritor)

 

"No que diz respeito ao teu livro: belíssima impressão, à altura do capricho com que você organizou sua "progressão temática" [sua álgebra maquínica]. [...] Trabalha o texto com engrenagem semântica. Tem frequentes lampejos [...] muitíssimo bem colocados, por sinal. Também sabe incluir a mitologia na sua anatomia humana da máquina [da máquina tal como apreendida pelo humano], com a fina ironia de que a asserção poética de cada "fase maquínica" pudesse, também, se prestar à apresentação de um verbete técnico-descritivo. Bela dicção certeiramente aplicada a um tema bem escolhido. [...] Um texto com assinatura. Para mim, é um dos critérios definitivos para localizar um autor, e defini-lo como tal. Em "Rouparia", fazendo jus à Música de Trabalho que a anuncia, encontro momentos de extrema musicalidade. "Em literatura, a música é soberana", é uma de minhas máximas radicais. Vejo no teu modo de construção um apreço que, senão tão radical quanto a minha máxima citada acima, chega bem perto disso. A melopéia bem dominada aflora a poesia que pode haver até numa exposição didática, numa aula de matemática. O que dirá quando se faz uso dela para fins de alavancar o poema-embutido-em-prosa. Neste sentido, Guimarães Rosa sempre foi "poeta cursivo". O tempo todo, aliás. Melhor do que conseguiu ser tentando a poesia formal, em Magma. Na tua escrita não encontro certos excessos [aos meus ouvidos, frise-se, ao meu gosto musical-literário] de imagens montando-se sobre imagens, num encavalamento de sobreposições infinitas, nem excesso de reverberações além-tema-proposto. [...] Gostei muito. Não pretendo ser avalista de nada ou ninguém, apenas um leitor que pensa em voz alta. Para o meu faro estético, você é poeta e dos bons." (Marcelo Novaes é poeta e analista junguiano)

 

[DADOS ATUALIZADOS EM 26/09/2012]

 

 

 
 
 
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