Márcia Cavendish Wanderley

 

Márcia Cavendish Wanderley nasceu em Recife, mas vive no Rio de Janeiro desde 1976.

É autora de A voz embargada: imagem da mulher em romances brasileiros e ingleses do século XIX (Edusp); Do jeito delas – vozes femininas da língua inglesa (Faperj / 7Letras) e de Mulheres: prosa de ficção no Brasil (Faperj / Íbis Libris). Em 2006 lançou seu primeiro livro de poemas O terceiro jardim pela Editora da Palavra.

Mestre em Sociologia e Doutora em Literatura Brasileira. Realizou estudos de pós-doutorado nas Universidades de Montreal (Canadá) e Yale (EUA).

É professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Direito da UFF.                                        

 

Já se pode ressuscitar o lirismo impune e, mesmo, criativamente, passada a onda da poesia objetivista, aquela rente à prosa. É o que faz Márcia Cavendish neste A Idade do entendimento, com temas nos quais se detectam vestígios do canto em objetos tão diferentes quanto um apartamento em Botafogo e um tango abrasivo.

Seus versos reabrem nichos para perguntas inevitáveis como “A que veio a vida?” e para um rol de emblemas da finitude tipo “Vejo abril chegar com seus cristais,/ mas não sei se sobreviverei/ ao inverno. Com freqüência, no entanto, os pressentimentos dão lugar a um romantismo retrabalhado pelo tempo e a ironia, assim: “Vou requentar meu coração em banho-maria/ vendê-lo no Mercado de São José.”

Todo um bloco de poemas remonta na memória, com afeto, mas não sentimentalismo, o Recife, a terra natal da autora em cotejo permanente com sua cidade de migrante, o Rio de Janeiro. Seus cheiros, suas praias, seu colorido, seu sol tropical amainado pelo vento tecem os inúmeros fios do vínculo, esse aspecto da existência em franco desapreço face à mobilidade sem metas contemporânea.

A idade do entendimento contém uma aprendizagem de acordes, ponderações, cruezas que acomodam o passado, esclarecido, nas forças vivas do presente. Seus versos parecem apontar para a possibilidade de uma província interior onde laços e solidão, paz e perda são também matéria de felicidade.

Jair Ferreira dos Santos

 

 

As artes e os saberes de Márcia Cavendish Wanderley

Os poemas de Márcia têm uma voltagem lírica rara na poesia brasileira contemporânea. Primeiro, não têm pudor de especulações metafísicas: “A que vem a vida?/ Somos fisgados, logo de chofre/ com velhas iscas ardidas e salgadas.” Logo de cara, somos comparados a peixes num mar misterioso, cujo sentido desconhecemos.

A perplexidade diante da vida perpassa todo o livro. Talvez a Idade do Entendimento, ao contrário do que o título sugere, seja aquela em que se compreende a incapacidade de saber. A poesia de Márcia é uma espécie de “só sei que nada sei” reencarnado nas praias do pós-moderno.

Mas há fragmentos de saberes imemoriais: “Éramos sábios quando em árvores/ devorávamos estrelas para matar a fome.” E há também uma nostalgia do tempo (mítico) em que a poesia não tinha tanta consciência de si, ou talvez tivesse, mas se empenhasse em ocultá-la: “Sobrou espaço para a poesia,/ após Shakespeare e Wordsworth? Vagidos de subjetivação fazem sentido/ se qualquer um pode surfar na minha onda/ e bagunçar velhos conceitos de autoria,/ segundo Paul de Mann?”

Mas talvez a característica mais peculiar deste livro seja o diálogo da poeta com seu ex-marido, o poeta Jorge Wanderley, grande tradutor de Dante e Shakespeare, morto em 1999. A própria Márcia anuncia a presença desse diálogo, já na dedicatória do livro: “Jorge Wanderley dedicou-me todos os livros que escreveu, que foram muitos, numa curta vida. Este poemas são meus, mas vêm dele.” É tocante esse diálogo além da morte, em que a conversa dos amantes se refere a episódios do cotidiano (“Eu também já morri antes da morte.”, menção a um infarto sofrido por Jorge, que deu origem a seu livro “A Foto Fatal”). Ou se refere a um dos poemas mais conhecidos de Jorge, chamado Lear: “Meu receio é nenhum e é imenso/ Nenhum reino doei às minhas filhas,/ Nem reino tive/ E não teria filhas se reinasse./ Teria vinhos ácidos na mesa/ E um cão feroz que um dia me matasse/ Para galgar a minha realeza.”

Em seu poema Rainhas, dedicados às mulheres de sua família, Marcia responde ao poema de Jorge: “Em outras plagas, outras vidas,/ fomos rainhas de reinos inimigos./ Ferozes, como costumam ser cães/ de herdeiras de condados vastos (...) Fomos normais em nossa tirania, / como normais eram ferocidade e vilania/ na espessa Nortúmbria, / país de onde nossa herança vinha.(...) Hoje rendidas ao amor que se disfarça em fúria/ escondemos relâmpagos nas pupilas (...).”

O diálogo dos amantes talvez chegue ao apogeu com o poema Querido Jorge, que descreve a cena da morte do poeta, nos braços de sua amada Márcia: “Fixada está, para sempre em tua imagem/ a morte livre de que tanto falavas, longe de hospitais/ sem soros ou supositórios,/ ao lado da mulher alucinada que quer morrer também/ de amor, como as cretinas do século XVIII.”

Nem os craques do Romantismo Alemão poderiam criar uma cena tão dolorosa, e ao mesmo tempo temperada de humor e ironia, conforme o gosto da contemporaneidade. Em suma, são as artes de Márcia Cavendish Wanderley.

Geraldo Carneiro

 

 

Foi com emoção e alegria estética que li A idade do entendimento. Chamou-me muito a
atenção o uso do vocabulário trivial lado a lado com uma escolha lexical quase preciosa, em
alguns momentos. Sua poesia, falando de amores, dos nossos mistérios, conversa diretamente com a alma do leitor sedento pelo néctar que o lirismo pode produzir.
Seu livro também atiça saudades do Jorge.

Rita Moutinho

 

 

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CARPEM DIEM

Não quero chorar teus amores antigos
nem carpir tuas mágoas do passado
cuida bem do teu amor de agora,
e esquece pássaros que vão
para o infinito


Se paixão ainda visita nossa estória
milagre que contradiz tempus, e mores,
agradece ao acaso que nos une
e cuida bem do teu amor de agora


Agora é tempo que acaba num átimo
intervalo entre o passado e o ignoto
se tudo pára quando estamos juntos
não voltes ao passado aniquilante
e cuida bem do teu amor de agora .

 

SUBMERSA

Dizer que a vida é sempre possível
mesmo quando a terra está por cima
hoje não me serve pra nada.
Não me anima ver Derinkuyu
cidade submersa
não no mar, mas no sonho de homens que beberam
o vinho do inverno sob caves,
quando lá fora a primavera explodia.
Já me enganaram os fatos,
extraí seiva da História
embarquei desenganada no entusiasmo dos loucos
ou de quem estava perto.
Agora prefiro o negror onde a verdade paira,
e o coração não sonha mais.
Quando setembro chegar,
beberei com você o vinho do afeto sem espinhos
mas hoje, estou para poucos.

 

O MEU LADO MACBETH

Agora, que a aurora declina e a montanha se faz sombra,
nesta noite insone vivida por uma certa Lady,
quero embarcar na nave dos loucos,
aquela onde vão os que não têm lugar certo
e ali repousar a alma ao lado de semelhantes,
lembrar amores frustrados
e aqueles que desfrutei do chifre ao rabo,
sem aflições ou derrotas a me perturbarem o sono
ou medo de ser deixada,
navegando eternamente na minha nave encantada
onde os nossos cantares, e o róseo de nossos lábios
serão tão apreciados como ouro que não temos,
mas que algum dia teremos por poemas que faremos.
E assim seremos felizes se quiseres ir comigo.
Envolverei o meu corpo com o mais puro mel que existe
para que sorvas em mim apenas minha doçura
e esqueças o amargor do meu lado Macbeth.

 

O AMOR

Um poema não se faz assim, de encomenda,
mas é bom que pressione 
porque às vezes outras leituras nos assomam,
e levam com elas poemas para o fundo  
desse golfo dourado que são as idéias.
Não me queixo  porque sei que voltarei renovada. 
Outros versos farei de coisas práticas
falando do ser ou do sentido da história,
das escolas do pensamento metafísico
ou heideggeriano,
para ocultar o desejo que pulsa nas artérias
de viver mais um pouco aquele verão louco
neste inverno que, sem ser chamado,
beija meus cabelos.

 

SADO/MASOCA

Aos doze anos pratiquei o sadismo
sem pudor,
ao maltratar, matar, cobrir de beijos
o objeto desse estranho amor.
Inocência cruel, perfeita
em estado absoluto
sentia o bem e o mal enquanto amigos,
habitando em meu peito, sempre juntos.
O mesmo sentimento hoje me busca
quando me fixas, teu olhar ardente
provando que a menina não morreu
manchas azuis voltaram a meu corpo
já não são tinta da caneta porca
de antigamente,
não saem quando lavadas,
não mentem.

 

LISBOA E TEJO E TUDO

Ontem avistei-me contigo, gloriosa, em tua tarde de sábado.
O Tejo alteava-se em verde-mar solene,
como os mares bravios de minha terra de Olinda.
Existe alguma coisa de grave neste rio; sua condição de
oceano transmudado em franjas,
que quebram ao pé de ti, ao sol do teu mistério,
transportando piratas e naus aventuradas de além mouros,
violando princesas e castelos.
Hoje, nesse tédio domingueiro de vapores
pergunto-me o que faço nessa esquina de Lisboa.
Em que hotel me encontro, se o Dom Carlos
ou se nalguma espelunca do Chiado?
Se serei daqui ou de Luanda
com cores e requebros de Cabinda.
Na madrugada triste da segunda lôba
entendo que nada pode ser pela metade
e a inteireza é prenda que nem mesmo a idade,
dos gritos roucos e dos pesares pode conquistar.
Este céu cheio de pássaros que são negros
e furam nuvens como balas disparadas contra ti
saem do meu coração desafeito a carinhos,
como agora me vejo em Lisboa, e Tejo e tudo.

 

 
 
 
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